As Sequoias Estrangeiras: Uma reflexão sobre árvores, Sartre e o estrangeiro

"Há uma diferença fundamental entre as experiências vividas pelas sequoias e pelas pessoas: os humanos angustiam-se, enquanto as árvores vivem num estado absoluto de inconsciência de si mesmas."

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Como todo o livro de divulgação científica, a obra A vida secreta das árvores, do engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben, deve ser lida com alguma parcimónia. E isso deve-se, em grande medida, ao facto de o autor recorrer, durante quase todo o tempo, à antropomorfização das árvores como recurso retórico, de modo a cativar e sensibilizar o leitor. Alguns dos títulos dos capítulos são muito sugestivos a esse respeito: “Amizades”, “A linguagem das árvores”, “Escola de árvores”, “Árvore doente” e “Crianças de rua” são alguns dos exemplos mais ilustrativos. Contudo, a obra não deixa de ser interessante e instrutiva. Após a sua leitura, muda a forma como olhamos para as árvores. Os gigantescos plátanos que margeiam a estrada que percorro diariamente, desde então, nunca mais foram os mesmos. 

De modo geral, todo o livro de Wohlleben é marcado por uma abordagem muito sensível e poética na descrição da vida das árvores. No entanto, o capítulo “Crianças de Rua”, a meu ver, sobressai aos demais neste aspeto. Esta secção começa com uma pergunta: “já alguma vez se questionou por que motivo, na Europa, as sequoias nunca alcançam grandes alturas?” – Antes de apresentar a resposta, é importante esclarecer algumas informações sobre as sequoias.

As sequoias são árvores nativas da costa ocidental da América do Norte que, em condições normais, podem atingir facilmente uma altura de 100 metros. O Sequoia National Park, na Califórnia, abriga o maior número de sequoias-gigantes do mundo e, por essa razão, a floresta está sob rigorosa proteção ambiental, o que não a impede de ser visitada por muitas pessoas ao longo do ano. Porém, as espécies encontradas na Europa, segundo Wohlleben, atingem, no máximo, 50 metros de altura e, na sua grande maioria, encontram-se em parques urbanos, onde foram plantadas por nobres e políticos como se fossem troféus exóticos”.

Em Sintra, a título de exemplo, podemos encontrar sequoias em alguns dos parques mais icónicos da cidade, como a Quinta da Ribafria e o Parque da Pena. Corroborando a tese de Wohlleben, as árvores foram introduzidas na região, sobretudo por D. Fernando II (o Rei-Artista) e pelo multimilionário inglês Francis Cook, também conhecido como Visconde de Monserrate. Em ambos os casos, o objetivo era ostentar poder e bom gosto.

Todavia, nenhum dos exemplares encontrados em Sintra ou no resto da Europa atingiu, em termos de altura, o potencial de crescimento das sequoias norte-americanas.

Segundo Wohlleben, faltam às sequoias na Europa, essencialmente, duas coisas: A primeira delas é a floresta, o que leva as gigantes a viverem aqui longe “dos seus progenitores”. Aqui vivem, cada qual no seu parque, na mais absoluta “solidão”. Sem sequer poderem desfrutar da companhia de “um tio ou uma tia”. A segunda é a falta de um ambiente e de um solo adequados ao seu desenvolvimento e crescimento. Em terras europeias, falta às sequoias “o aconchegante clima do bosque, húmido e sem vento”. Ademais, o solo europeu proporcionado pelos parques é pobre e duro demais, quando comparado à “terra macia e sempre húmida” do local de origem. As sequoias de Sintra, portanto, não estão em casa. São estrangeiras na flora local. E, como todo o estrangeiro, têm de lutar pela sua sobrevivência num ambiente estranho.

Paradoxalmente, a condição das sequoias europeias não difere daquela em que se encontram muitas pessoas. Para muitos, a vivência no velho continente também é sinónimo de estranhamento, no sentido de não reconhecer, em torno de si, o ambiente de origem. Além disso, considerando o uso coloquial da palavra “estranho” em espanhol – extraño –, muitos vivem com o sentimento de falta e de saudade de um chão que já não pisam. Porém, há uma diferença fundamental entre as experiências vividas pelas sequoias e pelas pessoas: os humanos angustiam-se, enquanto as árvores vivem num estado absoluto de inconsciência de si mesmas.

Jean-Paul Sartre, no seu ensaio de ontologia fenomenológica, O Ser e O Nada, estabelece dois modos de ser: o ser-em-si e o ser-para-si. No modo de ser-em-si, não há consciência da existência. Por isso, o ser-em-si não é capaz de viver a angústia do medo, da morte, da solidão, da saudade, da impossibilidade da liberdade. O ser-para-si, em contrapartida, tem consciência da sua existência, e, por consequência, vive a angústia de ser aquilo que foi, é ou poderá ser. Logo, as sequoias, numa condição de ser-em-si, não realizam nem possuem espécie alguma de projeto existencial guiado pela liberdade. Elas são simplesmente o que são. No que diz respeito aos humanos, passa-se justamente o contrário, uma vez que, condenados à liberdade, estamos, a todo o momento, a projetar-nos no mundo, isto é, a conceber e a estabelecer metas e objetivos de modos de ser. Nós, humanos, por isso, somos aquilo que já não somos e ainda não somos aquilo que projetamos ser. A possibilidade de nos reinventarmos acompanha-nos diariamente.

As sequoias estrangeiras, muito embora encontrem uma série de limitações ao seu pleno desenvolvimento e crescimento, não têm consciência disso e, por essa razão, não vivem a angústia de serem ou não poderem ser. As sequoias não se questionam, não colocam em dúvida o seu passado, presente ou futuro. As suas existências esgotar-se-ão no tempo, sem serem consumidas pela angústia de pensar no que fizeram do próprio tempo. No entanto, é certo que essa não é a condição dos estrangeiros humanos.

Os humanos estrangeiros convivem e lidam conscientemente com as ameaças que limitam o seu pleno desenvolvimento e crescimento longe de casa. Vivem com a saudade de alguém querido que deixaram para trás. Vivem os desafios do clima, da língua, da burocracia, do trabalho precário, do preconceito e da discriminação. Vivem diariamente a incerteza quanto à realização dos seus projetos de ser. As perguntas, misturando passado, presente e futuro, ainda que em solo não tão fértil, brotam e crescem aos montes: “E se eu tivesse ficado? E se eu voltar? Estou bem aqui? Lá eu não estaria melhor? Se eu ficar, as coisas vão melhorar?” – Quase nunca é possível responder a essas questões com segurança, e é aí que surgem as dúvidas e as angústias inerentes ao ser-para-si. Diante de nós está sempre um nada, um vazio que precisa ser preenchido com nossas escolhas.

É conhecida a anedota envolvendo o filósofo Diógenes de Sinope, em que o questionam de onde vem e a sua resposta é um sonoro “sou um cidadão do mundo”. Aprecio e admiro a figura do filósofo cínico, mas, nesta afirmação concreta, o pensador que desafiou Alexandre, o Grande parece esquecer algo muito importante: antes de sermos cidadãos do mundo, somos filhos de alguma terra que nos prepara para o sermos. E, por maior que seja o esforço que façamos, nunca deixaremos de estar ligados a essa terra. Onde estivermos, ela acompanhar-nos-á sempre. As sequoias de Sintra estão lá, plantadas na Quinta da Ribafria e no Parque da Pena, mas a sua verdadeira terra está do outro lado do oceano.


Referências

Sartre, J.-P. (s.d.). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica (V. Gonçalves, Trad.). Edições 70.
Wohlleben, P. (2016). A vida secreta das árvores: O que elas sentem, como se comunicam (J. Henriques, Trad.). Pergaminho.

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Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1988. Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Educação pela Universidade de Coimbra, encontrou na escrita de ensaios a possibilidade de unir duas grandes paixões: a filosofia e a literatura. Dedica-se à escrita sobre temas centrais da filosofia na contemporaneidade.

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