"No que diz respeito a nós, humanos, passa-se algo semelhante ao que ocorre com as borboletas: temos de enfrentar as ameaças que se colocam diante do nosso horizonte existencial, caso queiramos viver com alguma propriedade e sentido."
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Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis.
Séneca
Na medida em que determinadas condições sociais nos têm colocado à parte da natureza, temos deixado de aprender com ela. E é um facto incontestável que a natureza tem muito a ensinar. Entre um dos muitos entes que estão presentes nela podemos encontrar uma poderosa referência para reflexões existenciais. Refiro-me à espécie de borboleta Danaus plexippus, a borboleta-monarca.
Em tons de laranja, preto, e branco, a borboleta-monarca traz a marca da fragilidade, uma vez que pesa menos de um grama e a envergadura das suas asas tem em torno de dez centímetros. Uma monarca cabe facilmente na palma de uma das nossas mãos. Essas condições físicas limitadas, porém, não a impedem de realizar uma grande façanha.
Todos os anos, milhares delas partem do Canadá e dos Estados Unidos rumo às florestas de oyamel, no México. Nas montanhas mexicanas, as borboletas encontram refúgio para o inverno rigoroso, que, nesta altura, as congelaria mais a norte do continente americano.
Essa longa viagem demora, em média, de um a dois meses, e, ao fim do trajeto, são percorridos quase 4000 km. Algumas não chegam ao destino, uma vez que as ameaças são diversas: predadores, ventos, chuvas, falta de comida e habitat destruídos. Mas muitas delas chegam, e, quando chegam, é como se tivessem alcançado o paraíso. As borboletas permanecem no México entre quatro e cinco meses, antes de regressarem ao norte.
À semelhança do que ocorre com as borboletas-monarcas, a existência humana está condicionada a muitos fatores que a fragilizam, e, acima de tudo, a colocam em risco. As ameaças à continuidade das nossas existências vêm de todos os lados. Contudo, o objetivo aqui é refletir sobre aquelas ameaças à existência humana que são experimentadas quotidianamente e sobre as quais temos algum tipo de controlo. Há uma em especial sobre a qual pretendo falar: a ameaça de vivermos uma vida sem a coragem de correr riscos, sem a coragem de ser virtuosos, e sem a coragem de tomar decisões refletidas.
A coragem aqui é entendida como a virtude moral que Aristóteles identificou como sendo o meio-termo entre dois extremos. Por isso, escalar uma montanha sem equipamentos de segurança, sem nunca ter feito antes qualquer tipo de escalada, jamais poderá ser considerado um ato de coragem. Da mesma forma, não há coragem nenhuma no ato de um ajudante de carpinteiro resistir a subir ao telhado de uma casa em construção. No entanto, potencialmente, ambos são capazes de agir de forma genuinamente corajosa. Aqui, tornam-se úteis dois conceitos da filosofia de Aristóteles: ato e potência.
No vocabulário aristotélico, ato é aquilo que algo efetivamente é. Potência é tudo aquilo que pode vir a ser. Atualmente, podemos olhar da janela da nossa casa e observar uma bela árvore, que, potencialmente, pode vir a ser uma mesa. Nesse sentido, atualmente, podemos olhar para uma casa em construção e observar um homem com medo de subir ao telhado. Entretanto, potencialmente, este homem pode vir a não ter medo de subir ao telhado. Para isso acontecer, porém, é necessário que ele desenvolva a coragem e corra o risco de subir ao telhado, pelo menos uma vez, para “perder” o medo. Em resumo, a coragem é uma virtude que se adquire pelo hábito, pela ação constante de atitudes corajosas. Ninguém nasce mais ou menos corajoso, tornamo-nos corajosos pelas nossas ações.
O filósofo Byung-Chul Han, ao referir-se aos sujeitos do nosso tempo em A Sociedade do Cansaço, fala de um novo tipo de humano que não comporta qualquer marca de soberania. Em outras palavras, estamos diante de indivíduos que já não são capazes de governar as suas próprias vidas, muito em função do facto de que nos tornámos um animal laborans, que, insensatamente, produz coisas para depois consumir. Nessa sociedade, o sentimento de realização pessoal está ligado ao sentimento de ser ou não produtivo, daí o surgimento do fenómeno contemporâneo da autoexploração, segundo Han. Como o próprio termo indica, é o animal laborans que se explora a si mesmo, de modo a caminhar sempre em direção ao esgotamento físico, psicológico e emocional.
Uma das consequências diretas dessa forma de existência humana, na “sociedade do cansaço”, é a progressiva perda da coragem diante da vida. Aos poucos, e progressivamente, passamos a evitar riscos; vamo-nos tornando cínicos, e muitas das nossas escolhas tornam-se meras respostas aos estímulos exteriores recebidos. Encontrar o justo meio nas nossas ações, na sociedade atual, tornou-se um enorme desafio. Andamos de mãos dadas com a falta ou com os excessos. Mas, levados por um pessimismo que devemos evitar, talvez se levante a hipótese de que este cenário é irreversível, e que lutar contra ele seria despender forças desnecessariamente. Todavia, este não é o caso. Há uma saída, e ela chama-se coragem.
A coragem, que potencialmente está presente em todos nós, é o único caminho de ação possível para a busca de uma autorrealização do indivíduo nestes tempos em que somos fortemente influenciados e condicionados a viver uma forma de vida inautêntica. Muito mais do que um conceito, a coragem é a ação concreta pela qual nós, seres humanos, nos podemos afirmar no mundo em função das escolhas que fazemos. Essas escolhas envolvem riscos, mas são elas que, quando feitas com alguma consciência, têm maior probabilidade de nos levar a um sentimento genuíno de ser alguém no mundo. Faz sentido voltarmos às monarcas.
No percurso das borboletas entre o Canadá, os Estados Unidos e o México, o que não falta são perigos. As ameaças que encontram na sua jornada colocam constantemente em risco as suas frágeis existências. Porém, em função de um imperativo natural, enfrentar essas ameaças acaba por se tornar a única alternativa possível, e é isso que dá sentido às suas vidas.
No que diz respeito a nós, humanos, passa-se algo semelhante ao que ocorre com as borboletas: temos de enfrentar as ameaças que se colocam diante do nosso horizonte existencial, caso queiramos viver com alguma propriedade e sentido. E, nesse aspeto, dispomos de uma grande aliada, que está presente de forma potencial em todos nós. A coragem, enquanto ação prática, é um dos caminhos reais e efetivos que pode criar obstáculos às engrenagens da atual sociedade do cansaço e libertar-nos das suas amarras.
Referências
Aristóteles. (2024). Ética a Nicómaco (A. de Castro Caeiro, Trad.). Lisboa: Quetzal Editores. Han, B.-C. (2016). A sociedade do cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.
Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1988. Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Educação pela Universidade de Coimbra, encontrou na escrita de ensaios a possibilidade de unir duas grandes paixões: a filosofia e a literatura. Dedica-se à escrita sobre temas centrais da filosofia na contemporaneidade.
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