Inspirado numa novela do escritor francês Guy de Maupassant (1850 – 1893) chamada Boule de Suif (Bola de Sebo), Chico Buarque compôs a música “Geni e o Zepelim”. A canção fala sobre uma mulher que tem a incumbência de salvar uma “cidade apavorada” de um despótico comandante, que acabara de chegar num enorme zepelim com dois mil canhões. O homem, depois de ver tanto horror e iniquidade naquele lugar, decidiu “tudo explodir”. Porém, tudo pode ser evitado se aquela “formosa dama” — Geni — o servir naquela noite.
Acontece que Geni, que é feita “pra apanhar” e que é sistematicamente alvo de pedras e cuspes na cidade, uma vez que “dá pra qualquer um”, também tem os seus “caprichos”. Ela prefere “amar com os bichos” a ter de se deitar na mesma cama que o forasteiro. Perante isso, a “cidade em romaria” passa a suplicar-lhe com pedidos muito sinceros e sentidos, ao mesmo tempo que a incita: “vai com ele, vai Geni! Você pode nos salvar, você vai nos redimir… Bendita Geni”.
Geni, cedendo às súplicas, “dominou seu asco” e entregou-se ao “carrasco”, que se “lambuzou” a noite inteira até ficar satisfeito. Contudo, mal ele partiu no seu “zepelim prateado”, a cidade, em coro, voltou a vociferar: “Joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni”.
Sempre que ouço esta música, sou levado, inevitavelmente, a reflexões de metafilosofia, isto é, a problematizações que colocam em causa a própria filosofia. E uma delas gira em torno da questão da sua utilidade, mais objetivamente: qual é a utilidade da filosofia?
A filosofia, numa das suas amplas perspetivas de utilidade, atua como uma espécie de emissária de respostas aos tempos críticos, nos quais ideias, valores e certezas se desvanecem diante de conjunturas sociais, políticas, económicas ou culturais. Nestes contextos, mais do que nunca, os filósofos dedicam-se a pensar e as pessoas ouvem-nos com mais atenção.
Tomemos como exemplo disso o surgimento das filosofias helenísticas (estoicismo, epicurismo, ceticismo e cinismo), que só foram possíveis devido à derrocada do mundo grego e da subsequente invasão dos macedónios, liderados por Alexandre, o Grande. Perante as novas dificuldades de vida que agora se impunham, eram nessas filosofias que os gregos procuravam respostas e conforto para viver.
Já na modernidade, Kant, diante de uma crise teórica entre empirismo e racionalismo, que impedia o avanço do conhecimento, foi capaz de dar uma solução ao problema, ao estabelecer com êxito os limites e as condições do conhecimento humano. O mundo, tal como hoje o entendemos, nas suas mais variadas dimensões, foi, em grande medida, forjado por um disciplinado professor universitário de uma pequena cidade do antigo Reino da Prússia.
No mundo contemporâneo, o que seria das gerações pós-guerras, que viveram dois conflitos mundiais, sem a bússola do existencialismo para as ajudar a curar os sofrimentos e a preencher o vazio deixado pela guerra? Nesse contexto, o existencialismo atuou como um guia determinante para que as pessoas enfrentassem e encontrassem caminhos diante do absurdo do mundo.
Portanto, tal como Geni é desprezada pela cidade na maior parte do tempo, o mesmo se passa com a filosofia. A sua utilidade está, em grande medida, condicionada pelos níveis das crises enfrentadas pela sociedade. Assim, podermos afirmar, com alguma segurança, que uma das utilidades da filosofia é ser uma espécie de recurso teórico-orientador diante das perturbações que seguidamente ocorrem no mundo.
A saga de Geni leva-nos a pensar sobre outra questão: quem pode filosofar? Refletir e procurar respostas para esta pergunta não é novidade na história da filosofia. A tese platónica, por exemplo, defende que para filosofar é preciso afastar-se do corpo, consolidando a falsa ideia, ainda hoje bastante difundida, de que filosofar é do domínio dos intelectuais e dos pensadores.
Há também outro estereótipo amplamente arraigado nas ideias do senso comum que associa o ato de filosofar a algo próprio de “gente doida”. Em grande medida, isto decorre do facto de a filosofia atuar como uma espécie de impiedosa máquina destruidora das certezas humanas. Por isso, alguns só conseguem rotular de “maluco” a quem lhes tira o chão dos pés ao mostrar-lhes as fragilidades das suas certezas.
Mas, afinal de contas, quem pode filosofar? De modo objetivo, em termos de potencialidade, todos somos capazes de questionar e de perguntar os porquês das coisas que preenchem o mundo, sejam elas concretas ou abstratas. E é precisamente isso o ato de filosofar, que não deve ser confundido com o ato de conceber pensamentos filosóficos. Conceber ideias filosóficas requer algumas capacidades que nem todos possuem, como a sistematização de conceitos e ideias, a sua sustentação com argumentos lógicos e a defesa face a contra-argumentos. Filosofar é a ação que leva o filósofo a produzir ideias, de modo que, todo o filósofo filosofa, mas nem toda a ação de filosofar produz uma filosofia.
O ato de filosofar assemelha-se, portanto, a Geni, na medida em que “dá pra qualquer um”. A capacidade de questionar habita em todos nós e apresenta-se como a ferramenta mais imediata para responder aos sucessivos espantos que o mundo causa. O ato de filosofar não é propriamente uma questão de capacidade individual, mas sim a colocação em prática de um dos aspectos que formam a condição humana.
Ainda que o filosofar e a filosofia, à semelhança da heroína da música, convivam frequentemente com um certo escárnio social, é inegável que estarão sempre à disposição das pessoas e da sociedade, prontas a ajudar-nos a superar as nossas crises. A única diferença fundamental entre Geni e a filosofia é que a filosofia não se vende, ou, pelo menos, não o deveria fazer.























































































































