“Eu Também Faria Isso”: Nem tudo o que parece simples é fácil

"A arte é, seguramente, uma das realizações humanas com maior potencial transformador dos indivíduos e da sociedade. Por isso, temos de usar a nossa liberdade de fruição estética desprovidos de preconceitos e estereótipos que não acrescentam e não transformam nada."

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São diversas as formas e as situações em que expressamos ignorância, e, por consequência, nos expomos a situações constrangedoras. Tal como aconteceu certa vez numa turma de alunos, com os quais visitava o Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa. Um deles, ao deparar-se com uma obra da artista portuguesa Alice Geirinhas, verbalizou aquilo que muitos dizem diante de uma obra de arte abstrata: “Eu também faria isso!”. Vindo de alguém em processo de formação, tal comentário é previsível, e até aceitável. No entanto, o mesmo não pode ser dito em relação àqueles que já trilharam algum percurso formativo em que tenham sido sensibilizados, de alguma forma, para as questões da arte e da estética.  

É verdade que a arte está diretamente relacionada com a questão do gosto, e, por isso, caso o estudante tivesse dito algo como “eu não acho bonita esta obra”, de modo algum poderíamos dizer que a sua afirmação revelaria algum tipo de ignorância. Nessas condições, expressaria apenas um juízo de valor estético fundado na sua subjetividade. O que, em muitas ocasiões, não é o caso quando alguém diz que seria capaz de fazer o mesmo que um artista fez ao produzir a sua arte.

Comummente, quando alguém pretende confirmar a sua capacidade de reproduzir determinada obra pictórica, está a reduzir o objeto artístico apenas à sua dimensão técnica. Porém, esquece-se de que, por detrás do objeto artístico, existem sempre conceitos, ideias e conjunturas materiais que sustentam a existência dessa obra. Por essa razão, tendem a ser sempre sintoma e evidência de desconhecimento as alegações individuais em que se afirma uma suposta capacidade de fazer o mesmo que o artista fez.

Acerca das obras do pintor catalão Joan Miró, a título de exemplo, recorrentemente são feitos estes comentários que reduzem a obra à sua dimensão técnica. Afinal de contas, quem não seria capaz de fazer um autorretrato tal e qual aquele que Miró pintou em 1937? Que dificuldades teria alguém em produzir algo semelhante a O Sorriso das Asas Flamejantes? Ou ainda, qual criança não seria capaz de pintar algo parecido com O Voo da Libélula em Frente ao Sol? Todavia, tais questionamentos deixam de considerar o facto de que as obras em questão são produtos criativos de um dos maiores artistas do século XX, cuja produção artística revela amplo repertório artístico, conceptual e intelectual. Gostar ou desgostar daquilo que Miró pintou é uma questão de gosto. Dizer que poderia pintar aquilo que Miró pintou é uma questão de insensibilidade artística.

Um facto histórico que muitos ignoram como determinante para os rumos da arte pictórica nos séculos XIX e XX foi o surgimento da fotografia. Uma vez consolidadas a técnica e a tecnologia que permitiram às pessoas captar imagens com exímio realismo, e com muito menos tempo e esforço, parece não fazer mais sentido o uso da pintura como meio de representação objetiva da realidade. Neste aspeto, um universo de possibilidades e caminhos de experimentação abriu-se para os artistas. Miró, que frequentou a prestigiada Escola de Belas Artes de La Lonja em Barcelona, não pintou o seu autorretrato do modo como o vemos porque não dispunha das técnicas necessárias para fazê-lo de modo mais realista, mas sim porque tinha convicções artísticas e estéticas que o impeliram a pintar daquela forma.

Portanto, antes de realizar determinados juízos sobre algumas obras, é importante – caso não se queira passar por certos constrangimentos – procurar compreender minimamente o contexto em que tais peças foram concebidas. A apreciação estética está diretamente relacionada com o exercício da liberdade. Por isso, nestas circunstâncias, encontramo-nos diante da escolha entre fazer um comentário com propriedade (não necessariamente de ordem teórica que revele profundo conhecimento do autor ou da obra) ou um comentário redutor com alguns traços de má-fé, que revela apenas desconhecimento e omissão.

Em O Ser e o Nada, Sartre fala de um tipo de mentira que contamos não aos outros, mas a nós próprios: a má-fé. E essas mentiras são contadas em função de produzirem estabilidade e conforto no desempenho de um papel social, que não está, necessariamente, de acordo com aquilo que realmente somos ou projetamos ser. Isso acontece em vários âmbitos da vida humana, e a contemplação estética não está imune a isso. Logo, o “eu também faria isso” nada mais é do que uma expressão de má-fé, através da qual o anunciante pretende reafirmar a si mesmo que – tal como os demais – tem uma conceção clara e sólida do que é arte, e tudo aquilo que não se enquadra nesta conceção não tem valor.

A arte é, seguramente, uma das realizações humanas com maior potencial transformador dos indivíduos e da sociedade. Por isso, temos de usar a nossa liberdade de fruição estética desprovidos de preconceitos e estereótipos que não acrescentam e não transformam nada.

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Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1988. Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Educação pela Universidade de Coimbra, encontrou na escrita de ensaios a possibilidade de unir duas grandes paixões: a filosofia e a literatura. Dedica-se à escrita sobre temas centrais da filosofia na contemporaneidade.

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