A Guerra das Mães: Uma leitura sobre luto e resistência

"A violência institucional não se encerra no momento da morte, mas prolonga-se na deslegitimação das narrativas maternas, na criminalização das vítimas e na recusa do direito ao luto."

Tempo de leitura: 6 minutos

A leitura de A guerra das mães: dor e política em situações de violência institucional não transmite a ideia de um debate recém-aberto. O texto ancora-se num processo histórico e social que precede a própria pesquisa, acompanhando trajetórias marcadas pela perda e pela continuidade da luta, o que evidencia uma experiência coletiva que vai além do campo académico.

As autoras partem da constatação de que mulheres que perderam os seus filhos em ações do Estado não permanecem restritas à posição de vítimas. Num contexto marcado pela ausência de reconhecimento e reparação, estas mães passam a ocupar o espaço público, transformando a dor em ação política. O luto, longe de permanecer no âmbito privado, atravessa ruas, audiências, protestos e narrativas públicas, tornando-se uma presença incómoda em instituições que frequentemente prefeririam o silêncio.

Esta passagem do sofrimento individual para a ação coletiva não é apresentada de forma romantizada: o texto enfatiza que não há heroísmo na perda de um filho. A politização do luto ocorre menos por escolha do que por necessidade, já que o silêncio imposto pelo Estado e pela sociedade configura-se como uma continuidade da violência. Perante a negação da responsabilidade estatal, falar passa a ser uma forma de sobrevivência.

Nesse sentido, a violência institucional não se encerra no momento da morte, mas prolonga-se na deslegitimação das narrativas maternas, na criminalização das vítimas e na recusa do direito ao luto. As mães negras, em particular, enfrentam um processo contínuo de apagamento, no qual a memória dos seus filhos é tratada como descartável, e a sua dor como um efeito colateral tolerável das políticas de segurança pública. O luto transforma-se, assim, num campo de disputa simbólica, atravessado pela impunidade e pela permanência do trauma (Ponte Jornalismo, 2024).

Vianna e Farias demonstram que essas mulheres não ingressam na política por vias institucionais tradicionais, e a sua legitimidade não deriva de cargos, partidos ou títulos académicos, mas da experiência encarnada da perda. O corpo que sofre é também o corpo que testemunha, e a dor converte-se em argumento político. Esta forma de atuação produz uma gramática própria, orientada menos por programas formais e mais pela insistência em nomear a violência e recusar versões oficiais que naturalizam o extermínio.

A presença destas mães gera profundo desconforto social. A dor materna é socialmente aceite apenas quando se manifesta de forma contida e silenciosa. Quando se torna pública, é frequentemente acusada de excessiva ou instrumentalizada. O artigo evidencia como essa deslegitimação funciona como mecanismo de controlo, procurando retirar destas mulheres o direito à palavra e à denúncia. O texto dialoga, assim, com uma conceção de direitos que ultrapassa a sua dimensão normativa e que se realizam em práticas sociais atravessadas por relações de poder. Quando o Estado mata e se recusa a reconhecer a sua responsabilidade, redefine quem merece proteção e quem pode ser eliminado sem consequências, e, ao exporem essa contradição, as mães desorganizam a normalidade da violência institucional.

Esta discussão encontra ressonância noutras linguagens culturais. A canção “Não se preocupe Comigo”, do grupo F.UR.T.O, e o documentário Não saia hoje evidenciam que a violência estatal se prolonga na espera, na burocracia e na ausência de respostas. Nestas narrativas, o luto não encontra encerramento, pois a injustiça renova-se quotidianamente por meio do arquivamento de processos, da negligência investigativa e da repetição das mortes.

O documentário, em especial, revela como a violência institucional reorganiza a vida quotidiana das famílias atingidas. Rotinas são alteradas, trajetos evitados e o medo instala-se como regra. As mães passam a circular por delegacias, fóruns e cemitérios, enquanto a cidade se apresenta como um espaço hostil. O Estado, que deveria garantir proteção, surge como uma ameaça constante.

Vianna e Farias descrevem esse cenário como uma guerra não declarada: não há anúncios oficiais, mas há mortos, quase sempre jovens, negros e periféricos. Ao nomearem essa guerra, as mães recusam a naturalização da morte e desafiam a lógica que trata o extermínio como inevitável. A beleza do artigo reside na certeza de que o coletivo que se forma não apaga as singularidades das perdas, mas se constrói a partir do reconhecimento mútuo de dores que não se confundem.

Dar visibilidade a estas narrativas ultrapassa o exercício académico e configura-se como um gesto ético. Ler A guerra das mães exige reconhecer que a violência não é exceção, mas parte estrutural da engrenagem social, e o que permanece após a leitura não é uma esperança conciliadora, mas uma vigília: a compreensão de que o luto, quando se torna político, procura interromper o silêncio e a repetição que transformam a morte em rotina. Escrever sobre estas experiências não encerra a violência, mas pode funcionar como uma forma de insistência. Um modo de sustentar a atenção e impedir que estas histórias desapareçam no fluxo contínuo de novas tragédias. Permanecer com este texto é aceitar o desconforto e reconhecer que, quando a justiça não chega, a palavra se torna uma forma de permanência.


Referências

F.UR.T.O. Não se preocupe Comigo. 2005 Sony Music Entertainment (Brasil) I.C.L. (Faixa musical) Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hDHuhcPiSlQ. Acesso em: 24 jun. 2026.

Ponte Jornalismo. (2024). A vida com um buraco no peito: mães adoecem com luto silenciado por violência de Estado. https://ponte.org/a-vida-com-um-buraco-no-peito-maes-adoecem-com-luto-silenciado-por-violencia-de-estado/

Não saia hoje. Direção: André Rodrigues. Rio de Janeiro: Canal Futura, 2017. (Documentário, 52 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ROhjMrdijEQ. Acesso em: 26 set. 2025.

VIANNA, Adriana; FARIAS, Juliana. A guerra das mães: dor e política em situações de violência institucional. Cadernos Pagu, Campinas, n. 37, p. 79-116, jul./dez. 2011.

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Licenciada em Pedagogia, pós-graduanda em Antropologia Cultural (PUCPR) e mestranda em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho. Tem interesses nas áreas de comunicação, cultura e educação.

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