A leitura do artigo “O Rio de Janeiro é uma terra de homens vaidosos”: mulheres, masculinidade e dinheiro junto ao funk carioca, de Mylene Mizrahi, produz a sensação de reconhecimento de algo que sempre esteve presente, mas que raramente recebe atenção analítica consistente. A autora aproxima-se do universo do funk carioca por meio de uma escuta cuidadosa, interessada em compreender práticas, valores e relações que costumam ser reduzidos a estigmas associados ao excesso ou à ameaça. O texto não se organiza como defesa nem como denúncia, mas como uma descrição situada, construída a partir da observação atenta das dinâmicas que atravessam esse campo social.
Desde as primeiras páginas, Mizrahi deixa entrever que falar de funk implica falar de construção social, afastando qualquer tentativa de homogeneização. O que emerge da análise é um espaço marcado por negociações contínuas e no qual diferentes formas de masculinidade são produzidas, ajustadas e reafirmadas. Entre MCs e frequentadores de bailes, a virilidade articula-se por meio do corpo, do dinheiro e da estética, elementos que operam como signos de prestígio e reconhecimento. Roupas de marca, cortes de cabelo precisos e joias visíveis aparecem menos como ornamentos e mais como componentes centrais dessa gramática social.
A forma como a autora trata a vaidade chama atenção justamente por não recorrer ao tom provocativo. A afirmação que dá título ao artigo funciona como nomeação de uma prática observável. No contexto analisado, a vaidade não surge como oposição à masculinidade, mas como parte constitutiva dela. O cuidado com a aparência não enfraquece a posição masculina socialmente aceita, mas contribui para sua consolidação, uma vez que estar bem apresentado, alinhado com determinados códigos estéticos e marcas reconhecidas relaciona-se diretamente com ocupar espaço e manter visibilidade.
Essa observação contribui para tensionar associações tradicionais entre vaidade, feminilidade e dissidência sexual. No universo do funk, o cuidado estético aparece como exigência coletiva e investimento necessário, atravessado por expectativas claras. Mizrahi mostra que esse cuidado não se dá de forma espontânea ou ingênua, mas responde a critérios compartilhados, nos quais a ausência de determinados signos pode resultar em perda de reconhecimento ou marginalização dentro do próprio grupo.
Ao acompanhar trajetórias e falas de seus interlocutores, a autora evidencia que a masculinidade ali produzida não se apresenta como algo fixo. Ela se constrói e se ajusta continuamente, em diálogo constante com o olhar das mulheres, que ocupam um lugar central nesse processo.
Longe de figurarem apenas como personagens das letras ou objetos de desejo nos bailes, as mulheres avaliam, validam e recusam performances masculinas, participando ativamente na produção desse universo simbólico. A masculinidade da performance depende dessa relação e não se sustenta de forma isolada. As mulheres aparecem em posições marcadas por ambiguidade, sendo exaltadas em certos contextos e moralmente julgadas em outros. Desejo e controle coexistem, e a negociação de género não se dá de maneira simétrica. Ainda assim, Mizrahi evita enquadrá-las como figuras passivas, mostrando como sua atuação influencia diretamente as hierarquias e os sentidos em disputa no funk.
O dinheiro atravessa essas relações de forma significativa. No artigo, ele aparece menos como recurso material e mais como linguagem social. Ostentar não se limita a demonstrar posse, mas comunica pertencimento e reconhecimento, mesmo quando esse reconhecimento é provisório ou performático. Os signos do dinheiro produzem efeitos imediatos, funcionando como promessa de mobilidade e distinção, ainda que essa promessa nem sempre se concretize em termos materiais.
Essa leitura dialoga com a noção de capital simbólico desenvolvida por Bourdieu (1989), na medida em que roupas, acessórios e corpos trabalhados circulam como moeda social dentro da lógica da quebrada. Esses elementos garantem visibilidade e produzem diferenciação, traduzindo esteticamente desigualdades que não são ignoradas pelo funk, mas reelaboradas em linguagem própria.
A discussão também se fortalece quando colocada em diálogo com a noção de performatividade de gênero proposta por Butler (1990). A masculinidade descrita por Mizrahi constitui-se por meio de práticas reiteradas que conferem sentido social ao corpo. Cortes de cabelo, vestimentas, gestos e modos de circular no baile não aparecem como expressões naturais, mas como aprendizados compartilhados que produzem reconhecimento. Essa performatividade depende de público, tanto do olhar feminino quanto do reconhecimento entre pares masculinos, o que gera uma vigilância constante e um controle difuso sobre desvios possíveis.
A aproximação com a noção de masculinidade hegemónica, formulada por Connell (1995), permite compreender como esse modelo específico constrói-se em condições situadas, atravessadas por classe e raça. No funk, a hegemonia não se organiza prioritariamente pela força física ou pelo silêncio emocional, mas pelo acúmulo e pela exibição de signos de consumo, configurando um modelo distinto daquele dominante em outros contextos sociais.
Esse deslocamento analítico impede leituras simplificadoras. A masculinidade do funk não pode ser reduzida à reprodução de um machismo genérico, pois opera dentro de condições específicas que reorganizam valores e práticas. A vaidade, nesse contexto, não ocupa lugar secundário, mas estrutura relações, define hierarquias e produz pertencimento.
Outro aspeto relevante do texto é a atenção etnográfica da autora. As descrições dos bailes, das falas sobre o “corte na régua”, da roupa “fechada com as marcas” e dos comportamentos esperados constroem um cenário denso, no qual a análise emerge do campo e das interações, e não da aplicação externa de categorias teóricas.
Ao final da leitura, o artigo contribui para desmontar preconceitos recorrentes sobre o funk, apresentando-o como espaço de agência e produção de sentido. Mesmo quando a ostentação não corresponde a um poder económico efetivo, a performance produz efeitos simbólicos relevantes, criando visibilidade e reconhecimento. O texto de Mizrahi evidencia que gênero constrói-se no cotidiano, em práticas situadas, e que disputar estética também envolve disputar lugar social. Ignorar essa complexidade diz menos sobre o funk e mais sobre os limites de certos olhares que se recusam a escutar.
Referências (APA 7ª edição)
Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. Bertrand Brasil.
Butler, J. (1990). Gender trouble: Feminism and the subversion of identity. Routledge.
Connell, R. W. (1995). Masculinities. University of California Press.
Mizrahi, M. (2018). “O Rio de Janeiro é uma terra de homens vaidosos”: Mulheres, masculinidade e dinheiro junto ao funk carioca. Cadernos Pagu, (52), e185215. https://doi.org/10.1590/18094449201800520015












































































































