O artigo de Jimenez e Adorno (2009)1 apresenta uma etnografia sobre o quotidiano travesti em espaços urbanos brasileiros, destacando como género, sexualidade e identidade estão relacionadas com a vulnerabilidade social, redes de solidariedade e relações de poder. A vivência travesti não é apenas expressão individual, mas uma prática social atravessada por normas, violências e negociações constantes com o mundo cisnormativo.
O que mais me impactou foi a ideia de que as travestis vivem, como afirmam os autores, “um sexo sem lei, um poder sem rei”, expressão que sintetiza a ausência de normatividade fixa. Ou seja, o género não é um destino biológico, mas uma construção social. A etnografia desmonta o mito da “essência” de género, aproximando-se de Judith Butler (1990)2 quando afirma que o género é performativo: não é algo que se é, mas algo que se faz, todos os dias, em práticas repetidas. No quotidiano travesti, isso traduz-se no ritual do corpo – o silicone industrial, a maquilhagem carregada, a roupa justa – e na relação com os clientes e parceiros. Outro ponto que ressoa com teorias antropológicas e o mito da “essência” de género é a noção de que não há apenas dois géneros possíveis.
A leitura fez-me lembrar dos dois anos em que vivi numa comunidade Vaishnava, em São Paulo, tendo a oportunidade de ir para Vrindavan, na Índia, e conhecer um pouco dos Hijras, também chamados de “terceiro género”, com status legal desde 2014. Já na América do Norte, existe o reconhecimento de pessoas Two-Spirit nas culturas indígenas, que historicamente ocupavam papéis sociais e espirituais além do binarismo. Essas referências ajudam a romper com a ideia ocidental e eurocêntrica de que género é universal e binário.
Além disso, a etnografia dialoga com Pierre Bourdieu (1989)3 quando consideramos que o corpo travesti é um capital simbólico e erótico: algo que gera valor, prestígio e sobrevivência, mas que também é alvo de violência. Como Connell (1995)4 lembra ao falar de masculinidades, as relações de género são hierárquicas; as travestis habitam um espaço de subalternidade, onde a sua identidade é constantemente deslegitimada e, paradoxalmente, hipersexualizada. Esse duplo movimento aparece não só nas ruas, mas também na cultura pop. A série Pose (2018-2021), que retrata o universo dos bailes de voguing em Nova Iorque, mostra como mulheres trans e travestis criaram espaços de resistência e estética próprios, mesmo à margem da sociedade. Personagens como Blanca e Angel revelam que o corpo trans é, simultaneamente, objeto de desejo e alvo de rejeição, tensionando padrões cis-heteronormativos. Essa representação não é isolada: obras como Paris is Burning (1990), documentário icónico, também denunciam a marginalização e, ao mesmo tempo, celebram a criatividade dessas identidades que, apesar da violência, transformam a própria existência num ato político.
O artigo não apresenta uma definição fechada de género, e isso é uma escolha metodológica coerente com a antropologia contemporânea. No entanto, deixa algumas pistas claras: o conceito de género é tratado como, primeiro, uma construção social, e, segundo, como fluido, relacional e performativo. Essa ideia é percetível nas falas das interlocutoras, que relatam a transformação do corpo como forma de existir no mundo. “O silicone é a minha identidade”, diz uma delas, sintetizando como corpo e subjetividade são indissociáveis (mas, ainda sim, acredito que cai no estereótipo de que o que torna uma pessoa mulher são atributos físicos, como os seios).
É descrito ainda o quotidiano das travestis nas ruas, nas pensões, nas conversas íntimas, mostrando que as suas experiências não cabem no binarismo homem/mulher. A vida travesti é feita de negociações: entre o feminino idealizado e a realidade da exclusão; entre a estética desejada e os riscos de procedimentos clandestinos; entre a busca por afeto e a violência estrutural. Soma-se a isso a ausência de uma linguagem didática ou de um entendimento social amplo sobre as suas existências. Não há manuais, normas ou roteiros para ser travesti; vivem enquanto tentam compreender a lógica da sua própria existência num mundo binário, paternalista, com visão eurocêntrica dos afetos e da sexualidade. Nesse processo, constroem significados para si mesmas no meio do caos, elaborando respostas corporais e subjetivas para sobreviver, amar e pertencer, ainda que à margem da normatividade.
Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que o quotidiano travesti não é apenas um tema marginal: é uma lente potente para entender como género, sexualidade e poder se entrelaçam. É no corpo dessas mulheres que se inscrevem as marcas da desigualdade, mas também as estratégias de resistência e a possibilidade de imaginar outros modos de vida. Se existe algo que a etnografia nos ensina, é que o género nunca é natural e ainda existe um longo caminho de pesquisa, estudo e aprendizagem sobre o tema. O género é aprendido, disputado e, muitas vezes, sofrido. Mas também é um espaço de invenção. E, como mostram as travestis, uma invenção corajosa.
Referências:
- Jimenez, L., & Adorno, R. C. F. (2009). O sexo sem lei, o poder sem rei: sexualidade, gênero e identidade no cotidiano travesti. Cadernos Pagu, (33), 343-367. ↩︎
- Butler, J. (1990). Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ↩︎
- Bourdieu, P. (1989). O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. ↩︎
- Connell, R. W. (1995). Masculinities. Berkeley: University of California Press. ↩︎






























































































































