Crónica de uma Tragédia

"Enquanto a prevenção não for tratada como um investimento estratégico, e não como uma despesa orçamental incómoda, continuaremos a ser um país que espera que o sol brilhe para esquecer que não sabe lidar com a tempestade."

Tempo de leitura: 3 minutos

Portugal está, uma vez mais, submerso.

Nestes últimos dias, Portugal tem sido afetado por um comboio de tempestades. As imagens que todos vimos: ruas transformadas em rios, famílias desalojadas que ficaram sem nada, e um rasto de destruição deixado pelas tempestades. Não se trata apenas da força da natureza, é o espelho de um Estado que continua a reagir à catástrofe em vez de a prevenir.

Entre o lodo que invade as casas e a burocracia dos discursos políticos, fica a questão: por que razão parece o país sempre surpreendido pela chegada do inverno?

É inegável que os fenómenos meteorológicos são cada vez mais frequentes e severos, mas a incapacidade de resposta já não pode mais ser camuflada sob o pretexto de “ciclogénese explosiva”.

O que falhou nestes últimos dias foi o que falha sempre: uma gestão pública baseada na “política do remendo”.

Existe um atraso crónico na mobilização de meios em zonas críticas e uma gritante falta de investimento na prevenção. Portugal gasta mais em remendos, preferindo  o pagamento de indemnizações e subsídios à execução de obras de fundo que protejam as populações.

Não é a chuva que é problemática, mas sim o ordenamento do território.

Para mudar este ciclo, é imperativo que o Governo saia do papel e passe à prática. As infraestruturas críticas de drenagem, como os planos previstos para Lisboa, Porto e Coimbra, não podem ser projetos de “calendário flexível” dependentes de ciclos eleitorais, pois são urgentes para a segurança de todos.

É necessária uma rede de alerta em tempo real que funcione com precisão e uma reforma muito grande na Proteção Civil, dotando os municípios de meios próprios para que não fiquem reféns de decisões centralizadas que demoram horas cruciais a chegar ao terreno.

Governar é prever. As isenções de portagens e os apoios diretos aos agricultores fustigados são medidas bem-vindas, mas não passam de pensos rápidos em feridas que continuam abertas. Enquanto a prevenção não for tratada como um investimento estratégico, e não como uma despesa orçamental incómoda, continuaremos a ser um país que espera que o sol brilhe para esquecer que não sabe lidar com a tempestade.

Os portugueses não necessitam de um governo que seja exímio a gerir tragédias, precisam, sim, de um governo que tenha coragem e competência para as evitar.

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Profissional no setor do retalho (Auchan) e aspirante a Bombeiro, dedicado ao serviço público e ao bem-estar da comunidade. Ativo na Juventude Socialista, acredito na política como ferramenta de mudança. Encontro na cultura popular e nas escolas de samba a energia e o espírito de equipa que guiam o meu dia a dia.

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