A Europa de Hoje e Amanhã

"​Num mundo multipolar, onde os Estados Unidos e a China redesenham as esferas de influência, a Europa precisa de decidir se quer ser um ator principal ou apenas o cenário onde a história dos outros acontece."

Tempo de leitura: 5 minutos

Diz-se que a memória é um músculo que se atrofia se não for exercitado. No turbilhão de notificações, crises inflacionárias e algoritmos que ditam o ritmo dos nossos dias, o 9 de maio, o Dia da Europa, corre um sério risco de se tornar apenas mais uma data estática num calendário institucional. Mas, se pararmos para ouvir o
eco da história, percebemos que esta data não celebra o passado; ela é o oxigénio do nosso presente.

Em 1950, Robert Schuman não propôs apenas uma parceria técnica sobre o carvão e o aço, ele propôs um ato de fé. Numa Europa ainda a cheirar a escombros e a luto, a ideia de que a paz poderia ser construída através da interdependência económica era revolucionária. Acima de tudo, era uma escolha humana, a escolha de sentar à mesa quem, até então, se encontrava no campo de batalha.

A importância deste dia reside no facto de a União Europeia ser o projeto de paz mais bem sucedido da história da humanidade. Muitas vezes criticamos a bolha de Bruxelas, a lentidão da burocracia ou o excesso de regulamentação. São críticas legítimas. No entanto, esquecemos com facilidade o privilégio extraordinário de viver num continente onde a guerra entre vizinhos se tornou impensável, até que a realidade nos bateu à porta com a invasão da Ucrânia.

O 9 de maio lembra-nos que a Europa não é um mapa, é um conjunto de valores. É a dignidade humana, a liberdade de movimento, a proteção social e a consciência de que nenhum país, por mais orgulhoso que seja da sua bandeira, consegue enfrentar sozinho os gigantescos desafios do século XXI.

Ora, ​não podemos, contudo, celebrar este dia com um otimismo cego. A Europa enfrenta hoje dores de crescimento e crises de identidade profundas. Assistimos ao ressurgimento de nacionalismos divisivos que vendem soluções simples para problemas complexos. O desafio aqui é humano. Como explicar a uma geração que não conheceu fronteiras que a democracia não é um dado adquirido, mas uma planta que precisa de rega diária? Estamos também na linha da frente da regulação da Inteligência Artificial e da transição energética. O desafio é garantir que esta Europa Verde não deixe ninguém para trás, que o agricultor no Alentejo ou o operário na Polónia não sintam que o futuro é um luxo que não podem pagar.

Num mundo multipolar, onde os Estados Unidos e a China redesenham as esferas de influência, a Europa precisa de decidir se quer ser um ator principal ou apenas o cenário onde a história dos outros acontece.

A Europa deve ser das pessoas, não apenas de mercados. Para o futuro, a receita não pode ser apenas mais Europa no sentido administrativo, mas sim uma melhor Europa no sentido humano.

Primeiro, precisamos de uma autonomia estratégica real. Não podemos depender de terceiros para a nossa segurança, energia ou tecnologia essencial. Isso exige investimento, mas também coragem política para tomar decisões comuns em vez de 27 vetos individuais. ​Segundo, o reforço do pilar social. A Europa só fará sentido para os seus cidadãos se for sinónimo de qualidade de vida. O futuro exige que o projeto europeu responda à crise da habitação que assola os jovens de Lisboa a Berlim, e que garanta que a inovação tecnológica se traduza em tempo e bem-estar, não em precariedade. Terceiro, a educação e a cultura. Precisamos de mais Erasmus a todos os níveis, não apenas para universitários, mas para trabalhadores, artistas e reformados. A Europa constrói-se no contacto, no abraço entre culturas, na descoberta de que o que nos une é muito mais profundo do que a língua que nos separa.

O passado dia 9 de maio não é um ponto final, é uma vírgula num processo contínuo. A Declaração Schuman refere que “a Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem, antes de mais, uma solidariedade de facto”1.

Hoje, essa solidariedade é, de facto, testada todos os dias. No apoio à Ucrânia, na gestão das migrações com humanidade, no combate às alterações climáticas. O futuro da Europa depende da nossa capacidade de manter viva a chama da curiosidade pelo outro e da rejeição do medo.

Que não seja só no Dia da Europa que olhamos para o lado, para o vizinho, para o colega de trabalho de outra nacionalidade, para o produto que consumimos, que atravessou fronteiras, sem atrito. Tudo isto faz parte do milagre do quotidiano europeu. Cabe-nos a nós, cidadãos, garantir que este projeto não se torne uma peça de museu, mas continue a ser o rascunho de um mundo mais justo, livre e, acima de tudo, profundamente humano.

  1. Na língua original: “L’Europe ne se fera pas d’un coup, ni dans une construction d’ensemble: elle se fera par des réalisations concrètes créant d’abord une solidarité de fait”. ↩︎

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Profissional no setor do retalho (Auchan) e aspirante a Bombeiro, dedicado ao serviço público e ao bem-estar da comunidade. Ativo na Juventude Socialista, acredito na política como ferramenta de mudança. Encontro na cultura popular e nas escolas de samba a energia e o espírito de equipa que guiam o meu dia a dia.

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