Se há palco onde a alma de Cantanhede se revela sem filtros, mas com muito tempero, é nos jantares de Natal.
Essas noites mágicas em que o concelho inteiro se cruza, se observa, se mede e se avalia com a subtileza de quem diz “estás igualzinho” enquanto pensa “meu Deus, o tempo não perdoa ninguém”. Somos, no fundo, um povo que domina a arte de estar junto… sem nunca estar demasiado junto.
Porque nestes jantares de Natal acontece de tudo: reencontros calorosos, abraços que parecem sinceros, e aquele clássico olhar de canto — tão gandarês, tão nosso — que diz “não te preocupes, eu depois conto aos outros”. E depois há o momento épico: as mesas estão postas, o vinho abre-se, e instala-se a paz… Até alguém se lembrar de perguntar: “Então e novidades?”
Silêncio. Olhares cruzados. A sociedade de Cantanhede entra imediatamente em modo diplomático — uma espécie de estado de emergência emocional que só termina quando a sopa chega à mesa.
A verdade, picante mas elegante, é que somos uma comunidade onde toda a gente sabe tudo sobre toda a gente, mas quase ninguém fala com quem devia. Guardamos o essencial para conversas privadas que nunca chegam aos ouvidos de quem precisava de ouvir. Somos mestres na arte de gerir tensões com uma educação impecável. Dizemos “pois, pois…”, com um sorriso, enquanto por dentro pensamos “um dia destes expludo… Mas hoje não”.
É um talento herdado na Gândara: sobreviver com compostura, mesmo quando as emoções estão a ferver mais do que a sopa da avó. E há algo profundamente fascinante — e ligeiramente apimentado — nesta dinâmica: no Natal, Cantanhede transforma-se na capital mundial do faz de conta cordial.
Exemplos abundam:
- Aquele membro da associação que toda a gente critica, mas que no jantar recebe abraços, fotos e até um “és fundamental”.
- A pessoa que fala mal de três colegas e depois se senta precisamente entre eles “porque assim sempre conversamos melhor”.
- O clássico brinde “ao próximo ano, com saúde”, que é sempre dito por alguém que passou os últimos doze meses a desejar que certas pessoas tivessem… Digamos… Menos vitalidade pública.
É isto a nossa sociedade: cordial por fora, opinativa por dentro, diplomata por necessidade. E aqui está a verdade mais picante da noite: não é que tenhamos medo da verdade, temos é medo das consequências sociais de a dizer num concelho onde se encontra toda a gente, até no pão quentinho da manhã.
O desconforto é cuidadosamente controlado porque aqui as relações valem muito — e a memória vale ainda mais.
Mas, entre nós, há também um brilho de esperança: Se conseguimos juntar tantas personalidades fortes, tantas histórias, tantos egos discretos e tão discretas ambições em tantas mesas diferentes… então temos mais capacidade de futuro do que pensamos. Só falta um passo: Usar nos restantes 11 meses do ano a mesma energia que usamos para sobreviver aos jantares de Natal sem perder amizades.
Porque sejamos honestos: Se Cantanhede aguenta tantos jantares em dezembro, aguenta uma conversa séria em janeiro. A questão é: estamos prontos para ela? Ou vamos continuar a viver num concelho onde se fala de tudo menos do que realmente interessa?
Talvez o brinde deste ano devesse ser este: À capacidade de rir de nós próprios. E à coragem, um dia, quem sabe, de fazer melhor do que isso.












































































































