O nosso primeiro-ministro, certamente sem segundas intenções, fez uma incursão pelo universo das históricas afirmações da sétima arte. A impossibilidade de se recusar uma proposta, quer se queira, quer não, continua a ser propriedade de Marlon Brando na obra-prima de Coppola, “O Padrinho”.
Naturalmente que na obra ficcionada do cineasta, o contexto em que a afirmação foi proferida nada tem a ver com o contexto que estimulou Montenegro na utilização da mesma frase, mas há algo que, na minha opinião, é comum em ambos os casos. A frase conseguiu per si, gerar uma tensão dramática quase impossibilitando os ouvintes de desligar do resultado da proposta propriamente dita. A proposta foi feita, concretizada, mas não esqueçamos que esse desfecho vem no seguimento de semanas em que ambas as partes se digladiaram com mais ou menos argumentos, mais ou menos válidos, mais ou menos acutilantes, aqui e ali, até a roçar a definição de ultimato.
A possibilidade de se encontrarem a meio da ponte era uma mera quimera…
A política, enquanto arte de gerar consensos impossíveis, há muito nos habituou a vivenciarmos episódios em que, quem quase insultou, aparentemente de forma gratuita, consegue, no momento seguinte, sentar-se à mesa com quem foi quase insultado.
Os que despendem menos tempo e pensamento a interpretar estes episódios dirão que se trata de uma palhaçada, enquanto forma de ir entretendo os demais, para mim não me parece que seja essa a razão para tais acontecimentos.
No caso concreto que temos vivido nas últimas semanas, foi-se tornando claro, a cada dia que passava, que havia algo em que ambas as partes estavam de acordo. A descida de carga fiscal, bem como o pouco ou nenhum interesse em ir a eleições.
Posto isto, e se revelarmos as múltiplas acusações de radicalismo, inflexibilidade, arrogância ou outro tipo de substantivos, percebemos que a proposta, apesar de pessoalmente julgar que não é irrecusável pelo seu conteúdo, mas sim pelo sentido mais lato e da mensagem que a mesma encerra. Finalmente o nosso primeiro-ministro assumiu que está disponível para negociar!
Naturalmente que, em termos comunicacionais, entramos numa nova fase, entramos na fase de tentar fazer passar o mais possível a narrativa que mais interessa a cada uma das partes.
Pelo lado do governo, características como a razoabilidade, o bom senso e o sentido de estado de Montenegro são hoje definidoras de um perfil que nada tem a ver com a soberba, a inflexibilidade, e a alegada falta de espaço orçamental para acolher muitas das propostas socialistas, que, no passado recente, o primeiro-ministro de Portugal fez questão de identificar.
Hoje, para alguns, Luís Montenegro é o exemplo da sensatez, da razoabilidade e da defesa intransigente do superior interesse nacional. Para mim, Pedro Nuno Santos será também merecedor destinatário dos mesmos epítetos.
Reparemos no seguinte. Pedro Nuno Santos, no decorrer dos últimos tempos, foi sendo, a cada dia que passava, mais claro nas posições que foi assumindo publicamente. As linhas vermelhas do IRC e do IRS Jovem foram claramente o culminar desse processo crescente de tentar pressionar o Governo no sentido de haver uma aproximação entre as partes.
No caso de Pedro Nuno Santos, a irrecusabilidade da proposta que Montenegro lhe apresentou não é um facto, pois foi colocado em cima da mesa, algo que PNS tinha identificado inviável, a modelação de propostas relacionadas com os temas que tinham sido definidos como linhas vermelhas.
Enfim, no meio disto tudo, penso que podemos dizer que as portuguesas e os portugueses serão os verdadeiros vencedores desta contenda, pois ficou agora claro que eleições terão lugar no seu tempo certo e não estão no horizonte próximo de nenhum dos líderes partidários de que estamos a falar.
O mais curioso de tudo é que qualquer deles poderá desenvolver a narrativa da forma que entender, mas ao fim e ao cabo, o IRC vai descer 1 pp e, o IRS Jovem, modelo que já existia do tempo de António Costa, vai sofrer evoluções.
No fundo, encontrar-se-ão a meio da ponte…
Gosto de pensar que a política nos ajuda, de uma forma aceitável e viável, a viver estes episódios. A política será sempre infinitamente superior à politiquice, e o desafio está em conseguirmos fugir às leituras diretas de pequenos detalhes destes episódios e querermos perceber a essência destes processos fundamentais para o desenvolvimento da nossa comunidade, da nossa sociedade. A política continua a ser a arte de gerar consensos aparentemente impossíveis.
“Impossível é para os que não estão dispostos a tentar.” – John Keats












































































































