Há Heróis Que Nunca Entram em Campo

"Enquanto milhões acompanham um Mundial de futebol, há, longe dos holofotes, outro campeonato a disputar-se todos os verões em Portugal. Não tem relvados, nem bancadas, nem patrocinadores. Joga-se nas serras, nas aldeias e nas florestas. O adversário não conhece regras nem concede segundas oportunidades."

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Enquanto muitos de nós nos sentamos confortavelmente no sofá para acompanhar um jogo do Mundial, discutir uma tática, celebrar um golo ou lamentar uma derrota, há homens e mulheres que vestem uma farda, apertam um capacete, calçam umas botas marcadas pelo fogo e saem de casa depois de dizer apenas duas palavras: “Até logo”. Nunca sabem se esse “até logo” se transformará num abraço ao fim do dia. Ainda assim, vão.

Há quem vista uma camisola para representar um país. Há quem vista uma farda para o proteger.

Enquanto milhares fogem das chamas, eles seguem na direção contrária. Não em busca de reconhecimento, nem de aplausos, nem de fama. Fazem-no porque sabem que, algures, uma família espera que alguém chegue a tempo.

A história de um incêndio começa muito antes da primeira chama.

Começa no dia em que uma família recebe as chaves da casa onde sonhou viver para sempre. Na mãe que escolhe a cor do quarto da filha. No pai que passa anos a construir, pouco a pouco, aquilo que o salário nunca lhe permitiu fazer de uma só vez. No avô que planta uma árvore para que, um dia, os netos descansem à sua sombra. Nas fotografias guardadas numa moldura, nos desenhos colados ao frigorífico, nas marcas da altura dos filhos gravadas na parede do corredor. Uma casa nunca é apenas uma casa. É o lugar a que, ao longo de uma vida inteira, aprendemos a chamar lar.

Depois chega o fogo.

Em poucas horas, desaparecem décadas.

O que se diz a uma criança quando olha para o lugar onde ontem estava o seu quarto e hoje existem apenas cinzas? Como se consola um casal que percebe que não perdeu apenas uma habitação, mas o lugar onde imaginava envelhecer? Como se ampara alguém que vê desaparecer o trabalho de uma vida inteira sem que exista uma única palavra capaz de reconstruir aquilo que ardeu?

Há silêncios que dizem mais do que qualquer resposta. E este é um deles. Porque há perdas que nem o tempo consegue reparar.

É precisamente nesse instante que chegam os bombeiros.

Não perguntam quem vive naquela casa, qual a condição social ou as crenças daquela família. Perante o fogo, todas as vidas têm exatamente o mesmo valor. Talvez seja essa a maior lição que nos dão: quando tudo arde, aquilo que realmente importa nunca foi o que possuímos, mas quem conseguimos salvar.

Enquanto milhões acompanham um Mundial de futebol, há, longe dos holofotes, outro campeonato a disputar-se todos os verões em Portugal. Não tem relvados, nem bancadas, nem patrocinadores. Joga-se nas serras, nas aldeias e nas florestas. O adversário não conhece regras nem concede segundas oportunidades. Ainda assim, milhares de bombeiros apresentam-se ao serviço sem saberem como terminará o dia.

Por detrás de cada capacete existe uma pessoa igual a qualquer uma de nós. Um pai que prometeu ao filho que regressava para lhe contar uma história antes de dormir. Uma mãe que saiu de casa deixando um beijo por dar. Um marido, uma esposa, um filho ou uma filha que também sente medo, que também sonha e que também deseja apenas voltar para casa.

Mas a verdade é que nem todas essas promessas chegam a ser cumpridas. Há uma mesa onde, a partir desse dia, fica uma cadeira vazia. Famílias que descobrem, da forma mais cruel, que o último “até logo” era, afinal, um adeus que ninguém imaginava estar a dizer. É por isso que, sempre que um bombeiro entra no fogo, não leva apenas a sua coragem. Leva consigo o amor de uma família inteira que fica a rezar, em silêncio, para que ele volte a atravessar a porta de casa.

Talvez nunca saibamos quantas tragédias ficaram por acontecer graças a um bombeiro. Nunca veremos no telejornal a casa que não ardeu, a fotografia de família que permaneceu pendurada na parede, a criança que continuou a dormir na sua cama ou o abraço que ainda foi possível porque alguém chegou a tempo. Nunca veremos a notícia da tragédia que não aconteceu. Nunca conheceremos a família que continuou unida porque alguém chegou cinco minutos antes. Talvez o heroísmo seja exatamente isto: mudar o destino de pessoas que nunca chegarão a saber o nosso nome.

O heroísmo mede-se, muitas vezes, por aquilo que nunca chega a acontecer.

Chamamos-lhes heróis quando o país arde. Mas um país digno não pode lembrar-se dos seus heróis apenas nos dias de tragédia. O verdadeiro reconhecimento não se mede pelos aplausos das redes sociais nem pelas homenagens de ocasião, mas na forma como cuidamos deles antes de tocar a próxima sirene.

E há uma imagem que me acompanha sempre que vejo um grande incêndio. Imagino uma senhora idosa, de mãos juntas, junto ao portão da sua casa. Não reza para que a sua casa fique intacta. Reza para que aquelas pessoas que acabaram de entrar no fogo consigam voltar para casa. Porque ela sabe que, mesmo que perca tudo, nenhuma casa vale mais do que uma vida. Aquela oração, provavelmente, não será ouvida por mais ninguém. Mas, naquele instante, ela representa todos nós: a esperança de que ainda existam pessoas dispostas a enfrentar o inferno para que outros possam continuar a viver em paz.

Também há lágrimas nesse momento. Mas não são lágrimas porque uma bola entrou na baliza aos noventa minutos. São lágrimas de uma mãe que vê o filho regressar. De uma criança que volta a abraçar o pai. De uma família que percebe que ainda tem um amanhã. São lágrimas de quem descobriu que ainda há pessoas capazes de arriscar tudo por alguém que nunca viram.

Porque há heróis que nunca entram em campo.

E, no entanto, são eles que, todos os verões, impedem que Portugal perca o jogo mais importante de todos: o da vida.

Porque há vitórias que nunca serão celebradas em praças cheias de gente, nem lembradas numa estatística ou num livro de recordes. São vitórias pouco ruidosas. Têm o som de uma porta que volta a abrir, de uma criança que adormece no seu quarto, de uma família que se reencontra e de um bombeiro que regressa a casa. Talvez sejam essas, precisamente por serem invisíveis, as maiores vitórias que um país alguma vez poderá alcançar.

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Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Autónoma de Lisboa, apaixonada pela escrita e pela comunicação. Colabora com o Observador, onde escreve sobre temas de sociedade, cultura e atualidade, procurando incentivar a reflexão e trazer novas perspetivas. Com vontade de crescer e de deixar a sua marca na área da comunicação, acredita no poder das palavras para informar, aproximar pessoas e inspirar novas formas de pensar.

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