Fala-se cada vez mais de saúde mental. Faz parte do discurso público, está nas campanhas, nas conversas quotidianas e, ainda assim, a sensação de avanço é maior do que a mudança efetiva. Diz-se que deixou de ser tabu, mas continua a ser tratado como se ainda fosse. No hiato entre o discurso que afirma superação e a experiência que o contraria, persiste um silêncio discreto, porém enraizado.
Durante muito tempo, a doença mental foi empurrada para fora do espaço público, associada a fragilidade ou falha individual. Essa perceção não desapareceu. Ainda hoje, não é indiferente dizer “tenho uma doença” ou dizer “tenho ansiedade ou depressão”. Essa diferença de reação expõe mais os preconceitos da sociedade do que a realidade de quem o diz.
Os dados ajudam a desmontar a ideia de exceção. Ansiedade, stress e esgotamento entre jovens estudantes deixaram de ser casos isolados. São padrões. Cerca de 1 em cada 4 estudantes universitários em Portugal recorre a medicação psiquiátrica1. A pergunta já não é porque acontece a alguns, mas porque continua a ser tratado como exceção.
É neste contexto que surge uma palavra cada vez mais presente: burnout. Um estado de exaustão prolongada que já não pertence só ao trabalho. No meio académico, traduz-se em esforço contínuo sem recuperação, em cansaço que não desaparece com descanso. E este ponto raramente é dito com a devida seriedade: não se trata apenas de “estar cansado”. Trata-se de jovens que vivem num estado constante de pressão, onde o descanso já não cumpre a função de recuperar, mas apenas de permitir continuar. É um ciclo silencioso em que o esforço deixa de ter retorno emocional e passa apenas a ser manutenção.
Muitas vezes a resposta vem pronta, quase automática: dormir melhor, comer melhor, fazer desporto, organizar a vida. E ninguém discorda que isso possa ajudar. O problema é quando isto é usado como explicação total, como se o sofrimento fosse apenas falha de gestão pessoal. Se assim é, porque é que a resposta continua sempre a mesma?Se tudo se resolve com hábitos mais saudáveis, então para que servem diagnósticos como ansiedade clínica, perturbação de pânico, depressão ou burnout? Porque existe acompanhamento psicológico, psiquiátrico e medicação, se a solução é apenas essa lista de conselhos?
Porque nós sempre fomos melhores a simplificar do que a compreender o que incomoda. Mais rápidos a dar respostas do que a aceitar a complexidade do problema.
A pressão não começa na universidade. Começa muito antes, no ensino secundário, onde anos de trabalho são frequentemente reduzidos a momentos únicos de avaliação. Exames que podem definir percursos inteiros em poucas horas. O resultado é um ciclo que não termina no ensino superior. Há estudantes a chegar à universidade já esgotados, com dificuldades de sono que deixam de ser exceção e com uma sensação crescente de que o esforço contínuo raramente é acompanhado de estabilidade.
O modelo de ensino evoluiu pouco face à complexidade do presente. Continua a privilegiar o momento único, a prova isolada, como se isso fosse suficiente para representar um percurso inteiro. Mas a realidade já não é essa. Os estudantes vivem sob pressão contínua, mas continuam a ser avaliados em minutos. Um exame pode definir um futuro, mas quem o corrige não conhece o contexto, nem o percurso, nem o esforço acumulado. E, ano após ano, mudam-se nomes, ajustam-se regras, anunciam-se reformas. Mas a lógica mantém-se. Trocam-se designações, não se questiona o essencial.
Esse desencontro começa a ter consequências visíveis. Há cada vez mais estudantes a procurar alternativas noutros países, não por falta de ambição, mas por desgaste com um sistema que sentem cada vez menos ajustado à sua realidade.
Ao mesmo tempo, discute-se a falta de médicos. Mas como se pode esperar mais estudantes de medicina quando o acesso exige três exames nacionais de elevada pressão, todos concentrados em momentos curtos e decisivos?
Claro que a exigência é necessária. Mas a questão permanece. Será que duas ou três horas são de facto a melhor forma de medir essa exigência? E é nesse espaço entre o que se exige e o que se vive que uma geração inteira continua a ser avaliada.
Ao mesmo tempo, começa a tornar-se visível outra consequência menos falada: a quebra de confiança no próprio sistema. Não é apenas cansaço, é a sensação de que o esforço exigido não se traduz em estabilidade nem em futuro claro. Quando isso acontece, deixa de ser apenas difícil continuar, começa a ser difícil justificar continuar. E enquanto isso se normaliza, há estudantes a desistir de percursos e sonhos, com impacto direto na sua saúde mental e na forma como encaram o futuro.
Porque sim, os problemas continuam cá. Pena é que ainda sejam tratados como algo distante, quando já fazem parte do dia a dia de tantos jovens neste país. E, ainda assim, acho que sim, devemos continuar a discutir quem é nomeado nos programas de televisão, quem sai ou quem fica nos reality shows. É mais rápido, mais leve, não exige incómodo. É mais confortável falar do que entretém do que do que confronta. Talvez o problema não seja o interesse em si, mas o espaço que ele ocupa.
Porque quando o que distrai ocupa tudo, o que importa deixa de ter pressa para existir. Afinal, estamos mesmo a não ver o problema, ou já aprendemos a viver com ele?
- Associação Nacional de Estudantes de Psicologia. (2024). Estudo sobre a saúde mental nas instituições de ensino superior. https://anep.pt/estudo-sobre-a-saude-mental-nas-ies/ ↩︎
































































































































