Quando o passado volta para salvar o futuro

"Se Seguro vencer, a vitória não pode ser tratada como um troféu. Tem de ser tratada como um mandato para mudar. A sério. Porque ganhar eleições sem reformar o partido é apenas adiar a próxima queda."

Tempo de leitura: 6 minutos

Há ironias que não pedem licença à História. Entram pela porta principal, sentam-se à mesa e obrigam-nos a engolir verdades que andaram anos em silêncio.

António José Seguro está na segunda volta das presidenciais, frente a André Ventura. E só este facto já devia provocar uma reunião de consciência dentro do Partido Socialista. Porque o homem que foi empurrado para fora da liderança, tratado como excesso de prudência num tempo de bravatas, é hoje o rosto mais credível da resistência democrática. Não é apenas uma vitória pessoal. É um acerto de contas político. E, sobretudo, moral.

Convém não dourar a pílula: Seguro não saiu do PS por acaso. Saiu porque incomodava. Porque não gritava. Porque não jogava à faca. Porque não confundia política com espetáculo. O PS, há cerca de dez anos, decidiu que precisava de outra energia, outro perfil, outro ritmo. Preferiu a adrenalina à construção, a pressa à consistência, o curto prazo à espessura histórica. Foi uma escolha. E como todas as escolhas, teve consequências.

Hoje, o partido paga essa fatura em prestações altas: desgaste, perda de confiança, fragmentação interna, distância emocional do eleitorado. O PS não chegou aqui por azar. Chegou aqui por acumulação.

E agora, quando o país é chamado a escolher entre um democrata sereno e um tribuno do ressentimento, é Seguro que aparece como âncora. Como chão. Como linha de água.Isto diz muito sobre ele. Mas diz ainda mais sobre o PS.

Porque enquanto Seguro fazia o seu caminho — discreto, coerente, sem ressentimento público — muitos dos que o empurraram para fora foram fazendo o deles: cargos, lugares, bastidores, jogos internos, pequenas geometrias de poder. Foram anos de carreiras bem tratadas e princípios mal estimados. Anos em que a política foi sendo reduzida a gestão de influência. E agora vemos o desfile previsível.

Os que ontem diziam que Seguro “não tinha chama” descobrem-lhe subitamente o “sentido de Estado”. Os que lhe cravaram a faca nas costas aparecem hoje com abraços largos e memória curta. Os especialistas em sobrevivência mudam de discurso com a mesma facilidade com que mudam de grupo de WhatsApp. Essa gente não mudou. Apenas percebeu para onde sopra o vento.

E é aqui que a crítica tem de ser clara: o maior inimigo do PS não está fora, está dentro. Chama-se oportunismo estrutural. Chama-se ausência de lealdade a ideias. Chama-se essa fauna política que vive de ciclos e não de convicções, que só aparece quando há palco e desaparece quando há trabalho de fundo.

Seguro chegou à segunda volta não por causa dessas pessoas, mas apesar delas. Chegou porque há ainda uma parte do país que reconhece valor na decência. Que percebe a diferença entre firmeza e gritaria, que sabe que a democracia não se defende com slogans — defende-se com carácter. Chegou porque, perante André Ventura, muitos portugueses entenderam que isto já não é apenas uma eleição: é uma escolha civilizacional mínima.

E para o PS, esta segunda volta é muito mais do que uma oportunidade eleitoral. É uma tábua de salvação estratégica. Um momento raro em que o partido pode decidir se quer renascer ou apenas sobreviver.

Se Seguro vencer, a vitória não pode ser tratada como um troféu. Tem de ser tratada como um mandato para mudar. A sério. Porque ganhar eleições sem reformar o partido é apenas adiar a próxima queda.

O PS precisa, com urgência, de três ruturas internas. Primeiro: uma rutura ética. Não é caça às bruxas. É responsabilidade. Quem transformou o partido num espaço de carreiras pessoais não pode continuar a definir o seu rumo. Quem vive de intrigas internas não pode ser referência política. Segundo: uma rutura com a pobreza programática. O país de hoje vive uma crise demográfica, uma emergência habitacional, um Estado lento, uma economia presa ao baixo valor acrescentado e uma juventude que já não acredita em ninguém. O PS tem de apresentar um projeto de futuro concreto: reforma séria do Estado, estratégia industrial moderna, transição digital com justiça social, política de habitação agressiva, investimento real em ciência e inovação. Menos retórica progressista. Mais progressismo com obra. Terceiro: uma rutura com a distância social. O PS tem de voltar às pessoas reais. Aos salários curtos e às vidas longas. À classe média cansada e aos jovens desencantados. Não com folhetos, mas com presença. Não com frases feitas, mas com verdade.

E tudo isto ganha ainda mais urgência quando olhamos para o que tem sido a governação da AD: um exercício permanente de improviso, remendo e reação. Um governo que anda atrás dos acontecimentos, que governa em modo emergência e comunica em modo defensivo. Um executivo que trata o futuro como se fosse uma sucessão de conferências de imprensa. Ora, o futuro já não dá para improvisar. E é precisamente isso que a AD tem feito.

Seguro pode ser o ponto de partida dessa reconstrução. Pela sua biografia política, pelo seu estilo, pela sua resistência silenciosa ao ruído. 

Talvez seja esse o verdadeiro significado deste momento: o futuro do PS pode estar, finalmente, nas mãos de quem um dia foi tratado como passado. Mas o destino não oferece segundas oportunidades infinitas.

Ou o PS aprende agora, a sério, com os seus erros, corta com a cultura da esperteza, fecha a porta ao oportunismo e volta a merecer a confiança dos portugueses… ou continuará a sobreviver de ciclos curtos, líderes descartáveis e salvadores ocasionais.

Esta segunda volta não é apenas Seguro contra Ventura.
É carácter contra ruído.
É democracia adulta contra populismo infantil.
É construção contra demolição.

O país observa.

E já não pede milagres, pede seriedade.

Porque o futuro não se improvisa.
Constrói-se.

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No fundo, penso que uma das frases que melhor me poderia descrever é aquela que utilizo de tempos a tempos e em que assumo que sofro de uma patologia, sofro de “vertigem do fazer”. Espero nunca me “curar deste problema”!

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