Escolher Quem Sabe Segurar

"O Presidente é um garante. Um árbitro. Um guardião institucional. Um último travão quando o país descompensa."

Tempo de leitura: 4 minutos

Li o texto do João Pedro Couceiro e confesso: não consegui ficar indiferente. Concordo com uma parte relevante do diagnóstico e, sobretudo, com esse desejo muito português — e muito raro — de voltarmos a discutir o país com ambição séria, sem o ruído das guerras de trincheira e sem a política transformada em entretenimento.

Mas há uma coisa que me parece essencial repor, com serenidade e com rigor: este acto eleitoral não é para um cargo executivo. Não estamos a escolher um primeiro-ministro, nem um ministro da economia, nem um gestor de reformas. Estamos a escolher o Presidente da República. E isso muda tudo.
Muda o ângulo, muda a responsabilidade e, acima de tudo, muda o tipo de argumentos que têm peso. Porque o Presidente não governa, mas condiciona. Não executa, mas influencia. Não assina programas, mas assina ou trava o espírito do tempo. O Presidente é um garante. Um árbitro. Um guardião institucional. Um último travão quando o país descompensa. E, num tempo em que tantas democracias já se distraíram com o “carisma” até ao dia em que acordaram com o desastre, esta nuance não é académica: é vital.
É por isso que, embora reconheça validade a muitos dos anseios que Couceiro aponta para o futuro de Portugal, não posso ignorar que grande parte do texto está escrito como se estivéssemos a escolher um executivo reformista com agenda de choque — e não um chefe de Estado com dever de prudência, de equilíbrio e de defesa da Constituição.

E é também por isso que não consigo alinhar com a escolha sugerida.
Não escondo — nunca escondi — que nunca morri de amores por João Cotrim de Figueiredo. E não é por capricho, nem por birra, nem por clubismo. É porque há qualquer coisa nele que não encaixa na ideia de Presidente que eu procuro. Algo que me parece mais feito para o palco do argumento rápido do que para a liturgia pesada da instituição. Mais confortável na velocidade do comentário do que na lentidão séria das decisões que podem marcar uma década.

Para ser Presidente, não basta ser inteligente. Não basta falar bem. Não basta “parecer preparado”. Um Presidente precisa de densidade moral, consistência, previsibilidade institucional e, sobretudo, um compromisso absoluto com o Estado — não com uma ideologia, nem com uma corrente, nem com uma agenda de ocasião.

E aqui eu sou claro: eu não quero um Presidente que venha “mexer o país”. Eu quero um Presidente que impeça o país de ser mexido por quem não o respeita. Quero alguém que não trate a democracia como instrumento, mas como valor sagrado. Alguém que perceba que liberdade não é barulho, é responsabilidade. Que solidariedade não é slogan, é dever. E que progresso não é um meme político: é um caminho com pessoas dentro, com dignidade, com trabalho, com cultura, com futuro.

É por isso que a minha posição é, antes de tudo, humanista: um Estado progressista, solidário, com um pacto democrático intocável. Um país que não abdica de ninguém. Que não sacrifica o fraco para premiar o forte. Que não chama “modernização” ao abandono, nem chama “coragem” à crueldade.

E sim — se me perguntarem, digo com frontalidade e com tranquilidade: apoio António José Seguro. Porque acredito que ele tem esse perfil raríssimo para o tempo que atravessamos: firmeza sem gritaria, autoridade sem arrogância, moderação sem tibieza. Um homem que não precisa de incendiar o país para provar que existe. E que entende que o Presidente não é um influencer da República: é uma âncora.
Num tempo em que tanta coisa quer partir, eu escolho quem sabe segurar.

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No fundo, penso que uma das frases que melhor me poderia descrever é aquela que utilizo de tempos a tempos e em que assumo que sofro de uma patologia, sofro de “vertigem do fazer”. Espero nunca me “curar deste problema”!

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