Recusar, Conter e Invalidar

"Somos a espécie planetária com maior impacto nos ecossistemas existentes, com consequências semelhantes aos sistemas parasitários."

Tempo de leitura: 7 minutos

Lembrete de todos os dias: Se continuarmos a viver da mesma forma que fizemos até ao presente, com os mesmos gestos, as mesmas escolhas e conceções ou teimosias culturais, não haverá futuro nem para nós, nem para as outras espécies. Há muito que começamos a descer pelo abismo. António Guterres já usou, em diversos contextos, várias frases lapidares na forma prepotente com que intervimos na nossa casa comum: “Estamos numa autoestrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”1; “a humanidade tem uma escolha: cooperar ou morrer”2; “com o nosso apetite infindável pelo crescimento económico sem limites e desigual, a humanidade tornou-se uma arma de extinção em massa. Estamos a tratar a natureza como uma casa de banho”; “o mundo precisa de uma avalanche de ações para reverter as alterações climáticas”3; …

Até o momento, todas as iniciativas, cimeiras, pactos, tratados e ativismos de ação climática internacional ficaram muito aquém das mudanças pragmáticas necessárias. Os amplamente divulgados 17 objetivos (desdobrados em 169 metas), aprovados e aplicados pela Organização das Nações Unidas4, com início em 2016, numa Agenda até 2030 de desenvolvimento sustentável, globalmente, estão longínquos dos seus propósitos. O malfadado radicalismo de algumas ações ambientais de grupos juvenis, perante a gravidade do que se passa, serão um mal menor, diante das proporções de colapso ambiental, já demasiado evidente e consequente entre os mais vulneráveis.

Todas e todos conhecemos os amplamente defendidos 5 Rs da sustentabilidade, e os mesmos continuam a bem sintetizar aqueles que devem ser os comportamentos lúcidos da nossa ação: repensar no essencial, recusar o que não é realmente importante, reduzir o que produzimos e consumimos, reutilizar com originalidade e reciclar com êxito.

Porém, gostaria de inclinar-me pelo declinar, pela recusa e pela contenção. Declinar para salvar.

Somos seres de efervescente criação, de produção, de consumo, de acrescentar sempre mais às fiadas humanas, aos percursos individuais e patrimoniais. Desde que nascemos que já estamos a ocupar espaço, já choramos por ar, líquidos e alimentos. Começamos a consumir recursos essenciais à existência, deixamos marcas, produzimos resíduos e contribuímos para a medição da Pegada Ecológica (método promovido pela Global Footprint Network5). Pelas nossas arquiteturas sociais, somos a espécie planetária com maior impacto nos ecossistemas existentes, com consequências semelhantes aos sistemas parasitários. Neste ano de 2025, a nossa espécie atingirá os 8,09 mil milhões, em contraponto com o declínio de 73% das populações dos animais selvagens (WWF, 20246)!

É urgente, é para ontem, produzir, criar e consumir menos e contemplar mais. Na atualidade de uma era disruptiva, é imperativo voltar a fazer as perguntas essenciais: O que fazer comigo, connosco? Do nosso corpo ou habitáculo efémero, como torná-lo arte e poesia? Como valorar o nosso caráter, torná-lo integro, autêntico e sublimado? Como mitigar que as infantis, brutais e incoerências da espécie humana atropelem sistematicamente o bem que se faz?

E se começarmos pela criação e comunicação? Escrevemos aqui na “Reconhecer o Padrão”, porquê? Escreve-se porquê? Da proliferação e do tanto que é dito e registado nos canais contemporâneos, porquê ser mais um/a a comunicar, a expressar-se? Transmitimos ou acrescentamos valor, levedura à existência? É verdade que precisamos de renomear, dar espaço à palavra grávida, fazer a troca e a partilha, contudo fazemo-lo com parcimónia e revalidação do que se transmite? É legitimo o caminho por ser caminho, com palavras já tão acidificadas?

Do escritor Enrique Vilas-Matas, há um livro paradigmático, “Bartleby & Companhia”7, em que a personagem principal do ensaio ficcional procura recolher informação entre a história literária, sobre aquelas e aqueles que deixaram de escrever, de criar, possivelmente tendo como matriz a maior de todas as vozes, o silêncio, o elo de tudo o que possa ser imanente e transcendente. Não é necessariamente uma apologia do niilismo, mas alude à reflexão do sentido e autenticidade de comunicar, à depuração contra o securitário. Por vezes, mais que criar, é ser, é incarnar poeticamente o quotidiano, o doméstico e o prosaico, como o fez a poetisa Adília Lopes, “a minha poesia é uma poesia da vida menor. Não é a descoberta do caminho marítimo para a Índia”8.

Informação sem filtro não é sabedoria, nem clarividência holística. Precisamos de uma “dieta de informação”, como diz Yuval Harari9. Precisamos de invalidar ou bem digerir tudo o que até nós nos chega. Nunca tivemos tanta informação e possivelmente nunca estivemos tão perdidos. Porém, é na tempestade e instabilidade que a sua força contrária, a da contenção (não indiferença), aquela que deve prevalecer. A arte da contenção.

E da arte da recusa? Recusar colher uma flor, a fim que se cumpra onde cresceu. Recusar matar um inseto, quando se lhe pode abrir uma janela. Recusar engomar todos os vincos. Recusar fazer o que todos os outros fazem, questionar o padrão. Recusar o artefacto, quando se pode ver com valor estético e ético.

Os milionários/bilionários do mundo, podem juridicamente não ter cometido nenhum crime pelo opulento capital que possuem, mas representam, na débil coletividade humana, a imoralidade ultrajante da desigualdade social. É confrangedor assistir que às figuras idolatradas do nosso meio mediático ostentam a impactante riqueza material e poucas responsabilidades cívicas lhes são exigidas. As futilidades revestidas a ouro de muitos destes ídolos, culturalmente, parecem não validar a miséria moral de todos nós! Voto, pela declaração das insolvências espirituais. No nosso Estado, tal como está regulado um salário mínimo, voto também pela legislação de um teto para um salário máximo, não superior a dez vezes o salário mínimo. Sim, é utópico, como a maioria das construções culturais que os humanos propõem e que os definem.

É consensual entre os estudiosos, que a sobrepopulação humana é uma das principais causas do impacto sobre os limitados recursos naturais, decerto também pelo excessivo e descontrolado consumo e inconsistência das práticas diárias de sustentabilidade. Neste contexto, não deixa de ser interessante um fenómeno conhecido internacionalmente por “child-free” ou a decisão consciente de não ter filhos/as (biológicos). Esta designação já existia antes, mas começou a ser usada com maior abrangência entre os movimentos feministas dos anos setenta, porventura pela maior consciencialização do que a maternidade implica na vida da mulher, um peso consequente e culturalmente penalizador bem diferente em relação ao da paternidade na vida do homem. Mais tarde, em 2018, a britânica Blythe Pepino criou o movimento “BirthStrike”, onde afirmou: “Não ter filhos é uma declaração política, uma questão de vida ou morte”.

As circunstâncias atuais e o peso das alterações climáticas na decisão de ter ou não um filho/a? São decisões polémicas, íntimas e delicadas, mas estes critérios ponderados e discernidos em contextos atuais em que se pede pragmatismo, são também de grande legitimidade ou relevância.

 Outro fenómeno amplamente divulgado, a acompanhar os minimalismos, são os movimentos das “Tiny House” e das “Small House”, das habitações de arquitetura minúscula ou pequena, em que se propõem e/ou advoga não apenas uma maior contenção, eficiência de meios e recursos, mas consequentemente uma mudança de filosofia de vida. É comum estes movimentos serem acompanhados por estudos universitários que quantificam os índices de sustentabilidade, a pegada ecológica destas alternativas, designadamente com uma redução significativa do impacto destas escolhas sobre o meio. Reconfigurar o que é para cada um de nós uma escolha ética, uma habitação minimamente justa, para salvaguardar a casa de todos/as.

Referências

  1. https://expresso.pt/sustentabilidade/ambiente/cop27/2022-11-07-Estamos-numa-autoestrada-para-o-inferno-climatico-com-o-pe-no-acelerador-o-discurso-inaugural-de-Antonio-Guterres-na-COP27-4e754d08 ↩︎
  2. https://cnnportugal.iol.pt/antonio-guterres/cop27/cop27-guterres-pede-que-conflitos-mundiais-nao-sejam-desculpa-para-evitar-responsabilidades-climaticas/20221107/63691a740cf2f9a86ebea7fc ↩︎
  3. https://www.publico.pt/2022/12/29/azul/noticia/autoestrada-inferno-carnificina-climatica-seis-avisos-guterres-2022-2032758 ↩︎
  4. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. (2022). Nações Unidas – ONU Portugal. https://unric.org/pt/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel/ ↩︎
  5. Footprint Calculator – Measure Your Impact. (2024). Global Footprint Network. https://www.footprintnetwork.org/resources/footprint-calculator/ ↩︎
  6. WWF. (2024). Living Planet Report 2024 – A System in Peril. WWF, Gland, Switzerland. https://wwfeu.awsassets.panda.org/downloads/lpr-fullreport.pdf ↩︎
  7. Vila-Matas, E. (2013). Bartleby & Companhia. Teodolito. ↩︎
  8. Lopes, A. (2024). Dobra. Assírio & Alvim. ↩︎
  9. Real Time with Bill Maher. (2022, outubro 29). Overtime: Quentin Tarantino, Yuval Harari, Gillian Tett | Real Time with Bill Maher (HBO) [Vídeo]. https://www.youtube.com/watch?v=Ha2SoNoosIA ↩︎

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Laíz Vieira nasceu na Venezuela em 1971, devido à emigração dos pais gauleses. De retorno à Ilha na infância, viveu muitos anos na cidade de Machico, onde as principais revelações se fizeram.

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