Eu posso culpar o sistema, culpar os utentes, culpar outros profissionais, etc. Não obstante, a minha profissão também tem telhados de vidro. Temos uma certa arrogância e pomposidade, dizemos “como é que isto é possível?”, e esquecemo-nos que também há fisioterapeutas medíocres e que pouco acompanham o avançar da ciência. Há profissionais bons e menos bons em todo o lado.
Eu percebo o problema: há muitas pessoas que optam pelas condições minimamente controladas e estáveis de trabalho em clínicas que vão aumentando o salário, a contrato, em vez de enfrentar a instabilidade e o risco financeiro de um gabinete próprio, sem considerar que tenha assim tanto de diferente para oferecer ao mercado. Vemo-nos obrigados a entrar num sistema desatualizado que nos tira poder de decisão. Uns anos depois, se calhar já não sabem avaliar e fazem o mesmo tratamento a toda a gente, sem saber bem porquê. Estudar deixa de valer a pena. Até porque é válido (será, numa profissão de saúde? Respondo no final do artigo), enquanto pessoa, quereres apenas executar o teu trabalho, e não ser o melhor. E, no meu ponto de vista, muitos profissionais estagnam no ano em que terminam o curso, o que faz com que ainda se ouça:
“Claro que lhe doem os joelhos, está sempre no ginásio!”
É esse o motivo pelo qual ainda dizem às pessoas o que aprenderam na faculdade sobre o ultrassom, que está tão atualizado como o Muro de Berlim. Colegas, as máquinas precisam de ser vendidas! A 11 de abril do ano passado, a DGS pretendia que médicos prescrevessem mais exercício1, o que gerou uma onda de descontentamento, porque o fisioterapeuta é que é o profissional responsável pela sua prescrição. Mas somos, na verdade? A escola apenas ensina o básico sobre exercício, e na realidade é o que se pretende. Na minha opinião, constrói as bases e ensina-nos a procurar informação.
Fisioterapia sem exercício devia ser impensável e impraticável, porém, ainda acontece porque não lhe é dada a devida importância, e os profissionais ainda preferem tirar formações noutros métodos passivos. Podemos dizer que acontece porque ainda nos procuram pelos métodos passivos e não nos associam a métodos ativos, ou porque fazer um tratamento na base do exercício pode ser considerado desleixo e pouca preocupação com o utente (porque há menos toque e técnicas de alívio imediato). Há fisioterapeutas que dizem que “não são muito de exercício” ou pior, “não se levante assim que lhe faz mal às costas”. Desculpem, colegas, mas essas não se perdoam. Movimento é reabilitação. Como é que vão confiar em nós como profissionais de exercício?
A profissão não é, nem pode ser, a mesma que era há 10 anos, mas o profissional que não aposta em evoluir, exerce tal como os outros, e por isso, educa os utentes da forma mais antiquada possível, tornando-se confuso para quem recebe a informação. Como é óbvio, ninguém sabe tudo, é perfeito e tem horas infinitas para estudar, no entanto, numa profissão de saúde, temos uma responsabilidade ética e moral de nos manter atualizados. Aos utentes peço só muita atenção: se não há exercício no vosso processo de reabilitação, fujam. Estão a perder tempo.
Referências
- https://sicnoticias.pt/saude-e-bem-estar/2024-04-11-video-dgs-quer-medicos-a-prescrever-mais-exercicio-fisico-a37f4ea6 ↩︎