Vozes silenciadas: a realidade da violência contra pessoas idosas

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Nas últimas décadas, a consciencialização em torno da violência ganhou espaço, mas os idosos permanecem nas margens deste debate. Muitos são vítimas de abuso físico, psicológico e/ou financeiro perpetrado por aqueles em quem mais confiam: os seus próprios familiares. Quando a situação se torna insustentável, as casas abrigo surgem como um último refúgio, mas o impacto dessas experiências marca profundamente a vida destas pessoas.

A violência contra os idosos não surge do vazio, é muitas vezes fruto de uma combinação de fatores sociais e culturais. A dependência financeira, a falta de preparação para cuidar de pessoas idosas e a pressão económica nas famílias criam um terreno fértil para conflitos que, infelizmente, podem resultar em maus-tratos. Além disso, a negligência – muitas vezes vista como menos grave – é também uma forma de violência. Quando os idosos são ignorados, isolados ou privados de cuidados básicos, a sua saúde física e mental deteriora-se rapidamente. Este tipo de abuso é particularmente insidioso porque é difícil de identificar e frequentemente mascarado como esquecimento ou incapacidade de prestar atenção.

O problema também tem raízes em preconceitos culturais e na forma como a sociedade encara o envelhecimento. Num mundo que exalta a juventude e a produtividade, os idosos muitas vezes são tratados como “um peso” ou como cidadãos de segunda classe. Esta visão, impregnada no tecido social, alimenta comportamentos de desrespeito e negligência. É comum ouvirmos histórias de pessoas idosas que, após uma vida inteira de trabalho e contribuição para a sociedade, enfrentam abusos em vez de reconhecimento.

Além dos fatores sociais, há também questões práticas que exacerbam o problema. Em muitas famílias, a falta de apoio externo e de estruturas adequadas para cuidar de idosos cria um cenário de frustração e stress, que por vezes desemboca em maus-tratos. A ausência de políticas públicas eficazes para apoiar cuidadores familiares e assegurar o bem-estar dos idosos é um elemento que não pode ser ignorado. Neste contexto, a prevenção da violência exige uma abordagem integrada, que passe pela educação, sensibilização e implementação de políticas sólidas.

A violência contra os idosos é um problema coletivo que exige soluções coletivas. É imperativo que a sociedade, as famílias e o Estado assumam a responsabilidade de proteger os mais vulneráveis. A primeira linha de defesa é a sensibilização. Quantos de nós estamos atentos aos sinais de abuso? Quantos agimos quando vemos um idoso a ser tratado com desrespeito?

É também necessário que o governo invista em recursos adequados, não só para acolher as vítimas, mas para prevenir a violência. Mais campanhas de sensibilização, formação para profissionais de saúde e assistência social, e um reforço das leis contra os maus-tratos aos idosos são passos fundamentais para inverter esta tendência. Além disso, é crucial garantir que os sistemas de denúncia sejam acessíveis e eficazes, de forma a encorajar as vítimas e as testemunhas a agir sem medo de represálias.

Na minha experiência em casa abrigo, ouvi uma história que me marcou profundamente. Uma senhora com os seus 92 anos, vítima de violência física e psicológica por parte do seu companheiro, disse-me: “Estou sozinha, as minhas filhas não me ajudam, vou voltar para ele, não tenho outra solução”. Este desabafo, carregado de lágrimas e dor, é também um apelo. Não podemos permitir que mais vozes sejam silenciadas, que mais pessoas idosas sejam sujeitas a voltar para os/as agressores/as.

Infelizmente, esta história está longe de ser um caso isolado. Um estudo recente revelou que apenas uma fração dos casos de violência contra idosos é denunciada1. Muitos têm medo de represálias, vergonha ou sentem-se emocionalmente dependentes dos agressores. Para os que se encontram numa situação de isolamento social, a falta de uma rede de apoio torna o problema ainda mais difícil de resolver.

A velhice deve ser um período de paz, não de sofrimento e abandono. Cuidar dos nossos “avozinhos” é um dever moral, mas também uma questão de justiça social. O foco deste país não devia ser só o futebol ou as construções de um novo aeroporto. Os casos de violência contra pessoas idosas têm aumentado cada vez mais; desde o ano de 2022, os casos aumentaram quase 10%1. Precisamos de construir uma sociedade onde os mais velhos sejam tratados com o respeito e a dignidade que merecem.

O papel das instituições educacionais também não pode ser negligenciado. Incluir a educação sobre os direitos dos idosos e o combate à violência nas escolas ajudará a construir uma geração mais consciente e respeitosa. Além disso, programas comunitários que promovam a interação intergeracional podem diminuir o isolamento dos idosos e reforçar os laços de solidariedade.

Cada um de nós tem um papel a desempenhar. Seja denunciando os abusos, apoiando instituições que acolhem vítimas ou simplesmente ouvindo e apoiando os idosos na nossa vida, podemos fazer a diferença. Cuidar dos nossos idosos é cuidar do futuro de todos nós.

Se conhecer alguém em situação de violência contra pessoas idosas, ligue 116 006 ou 800 102 100. É um gesto simples, mas pode salvar uma vida.

Referências

  1. https://sicnoticias.pt/pais/2024-06-15-apav-apoiou-diariamente-quatro-idosos-vitimas-de-violencia-em-2023-819f6e0e ↩︎
  2. https://sicnoticias.pt/pais/2024-06-15-apav-apoiou-diariamente-quatro-idosos-vitimas-de-violencia-em-2023-819f6e0e ↩︎

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Ana Isabel Maia nasceu a 2 de fevereiro de 2001, na cidade de Viseu. Sempre foi apaixonada por Psicologia e, por isso, aventurou-se a compreender o comportamento humano. Fez a licenciatura em Psicologia no ISEIT de Viseu e o mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde na Universidade da Maia.

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