Portugal, já gostei mais de ti. Tinhas imensas montras de culturas e eras um dos mais inclusivos, dos quadros mais bonitos que já vi por aí. De geração em geração, tens vindo a piorar, seja por questões éticas e moralistas, por movimentos nacionalistas, que se escondem por detrás do patriotismo (é assim que disfarçam o racismo) e abraçam o idiotismo do que, por vezes, é ser um português puro. Ora, um português puro era um faz-tudo, um engenheiro, que corria de um trabalho para outro. Hoje em dia, é mudo, tem voz quando lhe convém, só que já não é ouvido, é surdo por ter dores de cabeça, não tem casa nem trabalho e, na maioria das vezes, conta as moedas para poder beber um café. Já não se distingue tanto da ralé a que aponta o dedo; hoje em dia, pertencemos todos à mesma classe, competindo pela ilusão de poder e de conforto – capitalistas natos. Se tivermos o controlo, então, certamente iremos ter… o quê? Estatuto? Dinheiro?
Valerá a pena a escravatura, regressar à ditadura? Abdicar da liberdade que nos resta? O trabalho prostituto com cargas horárias abismais que nos fazem abdicar da vida, da família e dos que nos acompanham nesta caminhada! Não tentem ripostar, estou de luto por Portugal. As vezes em que me orgulho dos que saem do nosso país são superiores aos dias em que cá fico. São cada vez mais as empresas que procuram os qualificados, que, antes de terminar o mestrado, estão já eles sufocados com a pressão exercida pelo mercado, pelos professores, pelos pais e por outros. No entanto, cerca de 22% dos jovens são sobrequalificados para o trabalho que exercem em Portugal, o que os força a emigar1. Saibam que alguns estudos constataram que países como Portugal tendem a estar mais dependentes de redes de suporte social disfuncionais – por exemplo, cada vez mais pais dependem do suporte financeiro dos filhos2. Muitos jovens portugueses têm até dois empregos part-time para se conseguirem sustentar ou para se sentirem minimamente produtivos3. São estas famílias as que mais necessitam de outras fontes de apoio social, como psicólogos. Saibam também que, em Portugal, um em quatro jovens toma medicação psiquiátrica4, que Portugal tem uma das taxas mais altas da Europa de prevalência de perturbações mentais5 e que a solidão aumentou cerca de 15,3 pontos percentuais desde 2016, o que nos coloca como um dos países europeus que mais sentem solidão na Europa6.
Segundo dados do INE, atualizados em fevereiro de 2023, 4908.7 pessoas têm dois empregos, sendo que o número de homens é superior (2470.1), ao das mulheres (2438.6). Ao focarmos no total, verificamos que o salário médio líquido ronda os 1029 euros, sendo que os homens recebem cerca de 1116 euros por mês, e as mulheres, 950 euros. Nunca compreenderei a diferença salarial entre géneros… aumentou desde 2012 e, neste momento, as mulheres trabalham praticamente um mês à borla7. Ou seja, o trabalho pode ser o mesmo, porém, o género impacta aqui qualquer coisa? O que será? O recém-criado Observatório Género, Trabalho e Poder afirma que “as disparidades podem ser devido a fatores como a idade, escolaridade e antiguidade da relação laboral”8. No entanto, como justificam as diferenças entre as pensões? No caso dos homens, correspondem, em média, a 73,5% dos últimos salários; quanto às mulheres, essa taxa cai para 58,1%, nos dados analisados entre 2019 e 2022, o que equivale a uma diferença de 15% entre pensões9. Portugal manteve a 15.ª posição, conforme o Índice da Igualdade de Género10, e foi o único país da União Europeia que piorou na igualdade no trabalho11.
A baixa empregabilidade, os baixos salários e os contratos precários aumentam a nossa insegurança laboral e diminuem a probabilidade de virmos a integrar o mercado de trabalho depois de terminada a nossa qualificação por que tanto sonhamos. Os portugueses estão tristes, cada vez mais infelizes, devido ao abuso constante por parte do Governo. Daqui nasce também o sofrimento psicológico, que nos isola e nos faz sentir a sós; são construtos distintos que andam de mãos dadas: o isolamento social e a solidão. Comparativamente aos países europeus, somos dos que mais recorrem a ansiolíticos, antidepressivos e hipnóticos para conseguirmos deixar de pensar e adormecer12. Somos cada vez mais individualistas, apesar de nos considerarem um coletivo, um país unido. Perdemos a nossa capacidade de comunicar o que sentimos e de verbalizar com clareza as nossas necessidades e emoções; estes fatores fundamentais foram substituídos pelo conformismo, que nos enfurece e nos impede de olhar para dentro de nós.
É como se houvesse uma recusa à introspeção. Penso nisto como um facilitismo interno para evitarmos a responsabilidade emocional que temos para connosco e para com os outros. Dominados pelo locus de controlo externo, apontamos as culpas para os que se mudam para o nosso país. “Voltem para a vossa terra!” – não julgo esta culpabilização desmedida, visto que é causada pelo medo. As várias guerras que nos circundam, sejam políticas, à base de petróleos ou de pedaços de terra, provocam em nós sintomas de revolta, ansiedade, depressão e stress. Por outro lado, tenham em conta que vivemos todos no mesmo país e que, ao agirmos sobre a impulsividade, não nos ocorre que muitos dos imigrantes não têm acesso à metade dos (poucos) recursos que temos. “A terra deles” não tem as condições para os acolher, e, em breve, a nossa deixará de as ter também, para todos nós, devido ao egoísmo político e à ganância económica que paira pelo Estado.
Os efeitos da exposição indireta à guerra fazem-nos recorrer ao suporte social instrumental como fator de proteção contra estes sintomas, seja através das notícias ou do consumo de álcool, entre outros. Talvez as estratégias de coping de eleição sejam as de evitamento, neste país. Acabamos num loop de más notícias e de sensações. Apercebemo-nos que, de facto, nada está sobre o nosso controlo, e restam-nos as estratégias autodestrutivas ou maladaptativas. Um exemplo claro é o consumo diário de álcool em Portugal, sendo, hoje em dia, um dos maiores na Europa13. De repente, um adulto a beber uma jola numa esplanada às 9 horas da manhã é algo banal e uma atividade realizada por muitos jovens também. É o “típico tuga, a começar bem o dia” como já ouvi na rua. É ao banalizar este tipo de comportamentos que o limiar entre um comportamento e um traço de personalidade se torna ténue. Digamos que, num estado de confusão mental e perante uma alteração devido a substâncias psicoativas, torna-se difícil estabelecer as barreiras do eu. E observamos muitos dos nossos amigos e colegas a perder o sorriso que conhecemos ao ingressar no ensino superior. Estamos altamente vulneráveis, e o estado de dormência prolonga-se durante o dia, o que nos faz recorrer a essas más estratégias para lidar com o que o formigueiro mental nos pode trazer, um mal-estar psicológico que nos força a agir sobre ele para que sintamos algum tipo de alívio. Não deixemos que as próximas gerações nasçam com preconceito e com este tipo de valores. Até que ponto não será melhor apoiar John Locke, quando refere que, ao nascermos, somos uma tábua rasa?14. Deixemo-nos de forçar personalidades. Apoio uma futura reconstrução do que significa ser português.
O que seria um artigo bem suportado sem nele ter citado Saramago (1995)?15 “A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente.” Um génio que até hoje prevê o que será das gerações futuras. “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão.” Poderia continuar a citar o Ensaio sobre a Cegueira, já que Portugal encontra-se longe da Lucidez. Falaremos um dia também das crenças prejudiciais, aparentemente invisíveis e imortais, que já parecem nascer connosco, ao passar dos nossos avós para os nossos pais. Já todos estivemos nesta posição: nascer com um papel social antes de sequer poder andar; já foram construindo os nossos traços, que espelham os valores da maioria dos portugueses.
Referências
- Mateus, C., Albuquerque, R. e Esteves, C. (26 de dezembro de 2024). 22,5% dos jovens são sobrequalificados. Expresso. Disponível em: https://expresso.pt/economia/emprego/2024-12-26-225-dos-jovens-sao-sobrequalificados-e24ae90d ↩︎
- Ayala-Nunes, L., Jiménez, L., Jesus, S., & Hidalgo, V. (2018). Social Support, Economic Hardship and Psychological Distress in Spanish and Portuguese At-Risk Families. Journal of Child & Family Studies, 27(1), 176–186. https://doi.org/10.1007/s10826-017-0863-9 ↩︎
- Público. (23 de abril 2023). Para pagar contas ou porque querem, eles têm dois (ou mais) trabalhos. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2023/04/13/p3/reportagem/pagar-contas-querem-dois-trabalhos-2045704 ↩︎
- Bento, H. (12 de dezembro 2024). Um em cada quatro alunos do ensino superior toma medicação psiquiátrica. Expresso. Disponível em: https://expresso.pt/sociedade/2024-12-12-um-em-cada-quatro-alunos-do-ensino-superior-toma-medicacao-psiquiatrica-9301ecad ↩︎
- Silva, M., Antunes, A., Azeredo-Lopes, S., Cardoso, G., Xavier, M., Saraceno, B., & Caldas-de-Almeida, J. M. (2022). Barriers to mental health services utilization in Portugal – results from the National Mental Health Survey. Journal of Mental Health, 31(4), 453–461. https://doi.org/10.1080/09638237.2020.1739249 ↩︎
- Público. (2022). Solidão, a pandemia que se combate com atenção. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2022/12/27/estudiop/noticia/solidao-pandemia-combate-atencao-2032336 ↩︎
- Ferreira, Leite, M. (9 de julho de 2024). Fosso salarial entre homens e mulheres aumenta pela primeira vez em dez anos. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2024/07/09/sociedade/noticia/fosso-salarial-homens-mulheres-aumenta-primeira-dez-anos-2096971 ↩︎
- Mateus, C. & Esteves C. (14 novembro 2024). Desigualdade salarial em Portugal deixa homens a ganhar mais 18% do que as mulheres. Expresso. Disponível em: https://expresso.pt/economia/emprego/2024-11-14-desigualdade-salarial-em-portugal-deixa-homens-a-ganhar-mais-18-do-que-as-mulheres-3a360cfd ↩︎
- Lusa (14 de novembro de 2024a). Quase 15 mil empresas recebem o selo da igualdade salarial. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2024/11/14/economia/noticia/quase-15-mil-empresas-recebem-selo-igualdade-salarial-2111805 ↩︎
- Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, CIG. (12 de dezembro de 2024). Portugal em 15º lugar segundo o Índice de Igualdade de Género. Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. Disponível em: https://www.cig.gov.pt/2024/12/portugal-em-15o-lugar-segundo-o-indice-de-igualdade-de-genero/ ↩︎
- Lusa, A. (11 de dezembro de 2024b). Portugal foi o único país da UE a piorar na igualdade no trabalho. Expresso. Disponível em: https://expresso.pt/sociedade/igualdade/2024-12-11-portugal-foi-o-unico-pais-da-ue-a-piorar-na-igualdade-no-trabalho-e909fe67 ↩︎
- Peixinho, A. (2024). Consumo de ansiolíticos e antidepressivos a crescer. Lusíadas. Disponível em: https://www.lusiadas.pt/blog/doencas/sintomas-tratamentos/consumo-ansioliticos-antidepressivos-crescer ↩︎
- Carvalho, P. (12 de maio de 2024). Portugal tem um problema sério com o álcool. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2024/05/12/impar/opiniao/portugal-problema-serio-alcool-2089968 ↩︎
- Locke, J. (2008). Ensaio acerca do Entendimento Humano. Fundação Calouste Gulbenkian. ↩︎
- Saramago J. (2015). Ensaio sobre a Cegueira. Porto Editora: Porto. ↩︎