(Des)investimento na ciência

"Portugal vive, há já vários anos, uma relação de amor-ódio consigo próprio. Relembrando o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no passado ano de 2024: “nós, portugueses, somos sempre melhores do que às vezes pensamos e do que muitos outros gostam de pensar”. Ainda assim, o luso-ceticismo corre-nos nas veias...

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Portugal vive, há já vários anos, uma relação de amor-ódio consigo próprio. Relembrando o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no passado ano de 2024: “nós, portugueses, somos sempre melhores do que às vezes pensamos e do que muitos outros gostam de pensar”.1 Ainda assim, o luso-ceticismo corre-nos nas veias. 

Se Sigmund Freud, pai da psicanálise e pioneiro em conectar traços adultos a traumas da infância, analisasse o estado do país, possivelmente constataria que um qualquer parente afastado o tenha feito sentir-se inferior quando estava em fase de crescimento. Vivendo assim os seus 881 anos sob a sombra do seu complexo de inferioridade, embrulhado em dúvidas constantes do que é capaz de alcançar. Talvez seja por isso que Portugal procure incessantemente a aceitação de quem por cá passa, bem como de quem nem o seu nome sabe e que tanto pretende atrair de modo promocional. 

Um bom exemplo foi a criação do programa visto gold que gerou polémica de uma ponta à outra do espectro político português. Considerado como uma medida benéfica ao investimento milionário mais à direita e como uma forma barata de comprar a cidadania portuguesa mais à esquerda. A verdade é que os vistos saíram a preço de ouro para os portugueses, tendo sido um dos responsáveis não só pelo aumento da procura de imóveis por estrangeiros, como também pelo aumento de 60% de imóveis vendidos por um mínimo de 500 mil euros.2 Este programa, que oferece residência a estrangeiros ricos que procuram investir em Portugal, acabou por alimentar uma crise habitacional que ainda hoje se demonstra avassaladora para os seus cidadãos. Em 2022, foram autorizados 1281 vistos gold dos quais 1008 (78,7%) deveram-se à aquisição de bens imóveis, 271 (21,2%) à transferência de capitais e 2 (0,16%) à criação de postos de trabalho.3

Ao analisar estes dados, é possível concluir que os vistos gold não proporcionaram um investimento positivo na sociedade, ao contrário do esperado aquando da sua criação. Apesar do valor total de investimento rondar os 654 milhões de euros em 2022, este número considera apenas a aquisição de imóveis e as transferências de capital, embora a criação e manutenção de postos de trabalho seja um dos verdadeiros pilares de uma sociedade. Postos de trabalho esses que podem ser originados e fomentados através do investimento em investigação e desenvolvimento (I&D).

Das mil e uma formas usadas por Portugal para se autossabotar, a falta de investimento na ciência é uma das mais utilizadas. Em 2023, a União Europeia investiu cerca de 381 mil milhões de euros em I&D. Este valor representa um aumento de 7% em relação a 2022 (358 mil milhões de euros) e um crescimento de 58% em comparação com 2013 (242 mil milhões de euros). Contudo, entre 2013 e 2023, o investimento de Portugal em I&D aumentou somente 0,37 pontos percentuais do PIB (Produto Interno Bruto), passando de 1,32% para 1,69%. Durante uma década, este crescimento ficou aquém de países como a Bélgica, que teve um aumento de 1 ponto percentual, ou a Polónia e a Grécia, que registaram aumentos de 0,7 pontos percentuais cada.4

O subfinanciamento crónico na ciência é um sinal óbvio de que Portugal, para além da falta de autoestima, padece de miopia. Apostar no desenvolvimento científico não tem retorno rápido, sendo fundamental existir concordância e consistência a longo prazo no que diz respeito às políticas nacionais. É já sabido que a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) irá sofrer um corte de cerca de 68 milhões de euros no presente ano de 2025.5 Sendo esta a principal instituição de financiamento nacional, o futuro não se mostra promissor para os vários centros de investigação que dela dependem. Consequentemente, a precariedade e instabilidade são dadas de mão beijada aos investigadores portugueses cuja carreira científica continua a enfrentar grandes dificuldades, sobretudo quando esta está só a começar. 

Os cortes na comunidade científica são uma carta entregue pelo correio azul, onde, com um sorriso de orelha a orelha, se oferece um bilhete só de ida para visitar o tal parente afastado que adora ficar com os lucros dos seus familiares. Apesar do crescente número de doutorados portugueses, ser jovem e doutorado acarreta desafios acrescidos, levando-os a procurar melhores condições de trabalho e de vida fora do país. Basta apenas escolher por quem querem ser acomodados: a Suécia, com um investimento na I&D de 3,57% relativamente ao PIB, a Bélgica com 3,32%, a Alemanha com 3,11% ou a Finlândia com 3,09%.

Financiar o conhecimento é quebrar muros e ver além das praias, montanhas e campos de golfe que lá vão afagando o ego português. Financiar o conhecimento é garantir o progresso económico a longo prazo, essencial na obtenção de novos conhecimentos, tecnologias e soluções para a sociedade, independentemente de futuras pandemias ou eventos naturais que voltem a isolar Portugal no seu canto à beira-mar plantado. É caucionar a evolução de quem abraça este país e por ele trabalha de sol a sol. É permitir que o esplendor de que tanto se orgulha seja aclamado para lá dos estádios de futebol. 

Por mais que pesquise, não consigo encontrar uma referência bibliográfica que dite o início de tais altos e baixos emocionais de um país que, apesar de pequeno em tamanho, possui um coração maior que o próprio mundo. Esta dança do manaquim-azul, tão característica de Portugal, onde se dão dois passos para a frente e um para trás, com os vários espectros políticos a lutarem entre si em vez de juntarem forças, coloca subtilmente uma corda à volta do pescoço de todos os portugueses. Se tivesse vindo a investir no desenvolvimento e na ciência enquanto motor nacional, Portugal já se teria começado a tornar numa potência económica e social mais independente. E, por esta altura, a descrença lusitana seria coisa do passado.


  1. Pascoal, D. (2024). “Tragédias como as de 2017, nunca mais”: o discurso de Marcelo no 10 de junho. SIC Notícias. https://sicnoticias.pt/pais/2024-06-10-video-tragedias-como-as-de-2017-nunca-mais-o-discurso-de-marcelo-no-10-de-junho-9a95e044 ↩︎
  2. Pereira dos Santos, J. Strohmaier, K. (2024). ZA DP No. 16857: All That Glitters? Golden Visas and Real Estate. IZA Institute of Labour Economics. https://www.iza.org/publications/dp/16857/all-that-glitters-golden-visas-and-real-estate ↩︎
  3. (2023). Pordata divulga retrato da população estrangeira e dos fluxos migratórios em Portugal. Pordata. https://www.pordata.pt/sites/default/files/2024-07/f_2023_12_12_pr_dia_internacional_dos_migrantes_vf.pdf ↩︎
  4. (2024). EU spent €381.4 billion on R&D in 2023. Eurostat. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20241211-2 ↩︎
  5. Ramalho, T. (2024). Governo corta 68 milhões de euros na verba da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Público. https://www.publico.pt/2024/11/04/ciencia/noticia/governo-corta-70-milhoes-euros-verba-fundacao-ciencia-tecnologia-2110485 ↩︎

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