A Intoxicação Digital na Saúde Mental dos Jovens

"Observam-se cada vez mais jovens com ansiedade social, muitas vezes confundida com uma personalidade mais introvertida, quando, na realidade, se trata de uma atrofia das competências de comunicação."

Tempo de leitura: 4 minutos

As perturbações mentais têm um impacto económico avassalador no nosso país, com despesas diretas a ultrapassar 4,7 mil milhões de euros anuais1. Mas o número mais alarmante é que cerca de 20% das nossas crianças e adolescentes têm, pelo menos, uma perturbação mental, e quase 31% dos jovens têm sintomas depressivos2 moderados a graves. Diante desta realidade, é legítimo perguntar: como será a saúde mental dos adultos de amanhã? Estaremos perante um tema da moda, como o recorrente “no meu tempo não havia nada disto”? Afinal, o que mudou? 

O surgimento das redes sociais, a hiperconectividade e o saber o que todo o mundo faz 24/7 criaram um estado de vigilância e exaustão. Há poucas décadas, o nosso contacto social era maioritariamente analógico e finito. Sabíamos apenas o que o João, o vizinho do final da rua, fazia, e a interação com a Maria exigia bater-lhe à porta. O contacto online era racionado pelo custo dos SMS, pelo que não estávamos agarrados ao telemóvel a falar minuto a minuto. A cultura social era pausada. Os filmes exigiam uma ida ao cinema ou ao videoclube. A fotografia era em rolo sem direito ao melhor ângulo.

O problema central não é a tecnologia em si, mas a mutação que houve nas dinâmicas da socialização. As plataformas digitais são montras, onde cada um expõe o seu melhor ângulo e os seus momentos de felicidade. Haverá algo de errado com isso? Não há erro em querer mostrar o melhor de si. Afinal, quem não quer ser vangloriado? O erro reside na vulnerabilidade neural dos nossos jovens, cuja maturidade ainda não está capacitada para separar o dia a dia de um reels de vinte segundos.

Observam-se cada vez mais jovens com ansiedade social, muitas vezes confundida com uma personalidade mais introvertida, quando, na realidade, se trata de uma atrofia das competências de comunicação. Jovens que não sabem iniciar uma conversa ou gerir o silêncio. A substituição de “olhos nos olhos” pela assincronia das mensagens removeu-lhes o mais importante: o treino da linguagem não verbal.

Além disso, a adolescência é uma faixa etária caracterizada por uma necessidade de pertença e validação. Ao transferir essa validação para a quantidade de likes, transformamos a dopamina numa montanha-russa que dita o humor e a autoimagem. O livro Geração Dopamina3, da dra. Anna Lembke, é uma excelente referência sobre como a estimulação digital sobrecarrega o nosso sistema de recompensa, provocando um défice de dopamina a longo prazo, gerando anedonia (a incapacidade de sentir prazer nas atividades quotidianas) e depressão.

A exposição a corpos, muitas das vezes, irrealistas desencadeou uma epidemia de perturbações do comportamento alimentar e de insatisfação corporal. Pode parecer só teoria, mas é assustador quando ganha forma. Aparecem miúdas de 13 anos a dizerem que estão “gordas”, porque não têm os abdominais definidos como veem nos ecrãs.

A intoxicação digital exige uma receita de literacia e higiene digital, que deve ser prescrita tanto nas escolas, como junto da própria família. Não se trata de demonizar ecrãs ou de voltar aos anos 90. As redes sociais vieram para ficar, mas proteger a saúde mental dos jovens passa também por lhes devolver o direito ao tédio, ao sono sem notificações e ao convívio com pessoas reais. Os problemas de saúde mental que hoje observamos na nova geração não são uma moda, mas o sintoma de uma sociedade que está mais conectada do que nunca, quando devia estar em modo avião.


  1. TEHA Group. (2025). Headway: Saúde do cérebro em Portugal: Um roteiro para o investimento no capital humano. TEHA Group. ↩︎
  2. Ministério da Saúde. (n.d.). Como está a saúde mental das crianças e dos jovens? Saúde Mental. https://saudemental.min-saude.pt/como-esta-a-saude-mental-das-criancas-e-dos-jovens/ ↩︎
  3. Lembke, A. (2024). Geração dopamina: Como encontrar o equilíbrio em tempos de prazer desenfreado. Nascente. ↩︎

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Estudante de Medicina de 6º ano, motivada pela prevenção e educação para a saúde. Dedicada a promover hábitos de vida saudáveis: informar para proteger e proteger para viver melhor.

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