A União Europeia (UE) parece ter finalmente acordado e percebido aquilo que devia ter sido óbvio desde o início da invasão russa à Ucrânia: a Europa precisa de um interlocutor próprio nas negociações entre a Rússia e a Ucrânia. O gabinete de António Costa retomou conversas com o Kremlin para abrir um canal diplomático com Moscovo, com a Itália de Meloni a defender a criação de um cargo de enviado especial europeu, e nomes como os de Durão Barroso, Alexander Stubb ou Angela Merkel já circulam como possíveis candidatos. Tudo isto é positivo, mas chega tarde e revela o erro estratégico que a UE cometeu ao cortar as comunicações com a Rússia nos últimos quatro anos.
Cortar relações diplomáticas não é nem nunca foi sinónimo de força. É precisamente o contrário. É abdicar de influência. Ao deixar de falar com Moscovo, a UE não isolou a Rússia; isolou-se a si própria. Entregou a mediação aos Estados Unidos, viu a Turquia assumir um papel de intermediária ocasional e ficou, durante mais de quatro anos, sem qualquer canal próprio para defender os seus interesses específicos: energia, segurança das fronteiras orientais, e mesmo a reconstrução da Ucrânia pós-guerra. Zelensky tem repetido, com razão, que falta à Europa uma voz própria nestas negociações. Essa ausência não é acidental, mas consequência direta de uma política que confundiu firmeza com mudez.
É por isso que a notícia de que estão a ser exploradas iniciativas europeias para retomar algum tipo de diálogo com Moscovo devia ser lida não como um gesto arriscado, mas como a correção, ainda que tímida, de um erro que persiste há quatro anos. Falar com o adversário não é capitular perante ele. É a condição mínima para ter assento à mesa quando as decisões importantes forem tomadas – e elas estão a ser tomadas, com ou sem a Europa.
Neste contexto, a escolha de Kaja Kallas como alta representante para os Negócios Estrangeiros da UE é cada vez mais difícil de justificar. Kallas foi, ao longo de toda a sua carreira política, uma das vozes mais duras e menos flexíveis em relação a Moscovo, o que é compreensível, dado o seu percurso pessoal e a história da Estónia, mas que a torna, precisamente por isso, mal posicionada para liderar a diplomacia europeia num momento em que a prioridade é reabrir canais. A política externa de um bloco de 27 Estados não pode ser conduzida por alguém cuja biografia e convicções tornam estruturalmente difícil qualquer aproximação a Moscovo. Não se trata de pôr em causa a sua competência ou a legitimidade das suas posições, mas de reconhecer que o cargo exige um perfil capaz de dialogar com todas as partes, e esse não tem sido o registo de Kallas desde que assumiu funções.
É talvez por isso que os nomes que surgem para um eventual enviado europeu são, quase todos, figuras com um perfil diferente: mais pragmático e menos identificado com uma linha de confronto permanente. Durão Barroso traz a experiência institucional de quem liderou a Comissão Europeia durante anos de crise, ainda que o seu nome arraste também a memória dos Acordos de Minsk, negociados e assinados sob a sua liderança e que se revelaram incapazes de impedir a escalada que culminou na invasão de 2022. Stubb junta o perfil de presidente em funções com um conhecimento direto da região báltica e da Rússia, sendo o nome mais consensual. Merkel carrega o peso, e também o fardo, de ter sido, durante mais de uma década, a principal interlocutora ocidental de Putin, ainda que isso a torne, simultaneamente, a escolha mais controversa, sobretudo para os países de Leste e para a própria Ucrânia.
Nenhum destes nomes resolve, por si só, o problema de fundo, pois é possível que a Rússia simplesmente não aceite nenhum interlocutor europeu – o mais provável, tendo a proposta de Putin sido Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão com laços próximos ao Kremlin –, preferindo continuar a “negociar” apenas com Washington, mas essa é uma razão adicional, não um argumento contra a tentativa.
Uma Europa sem voz própria nas negociações é uma Europa que paga as consequências políticas e económicas da guerra sem ter qualquer palavra a dizer sobre os seus termos. Quatro anos de silêncio diplomático já custaram caro. Continuar nesse caminho seria, isso sim, o verdadeiro erro estratégico.
































































































































