Há relativamente pouco tempo, estive presente num congresso dedicado ao envelhecimento, à longevidade e aos desafios que hoje inquietam a sociedade. Foram abordados temas como as doenças neurodegenerativas, os cuidados em fim de vida, o impacto do envelhecimento populacional e a forma como continuamos, muitas vezes, sem saber lidar com aquilo que, inevitavelmente, faz parte da condição humana: envelhecer.
Uma das intervenções que mais me marcou foi a de uma neurologista que falou sobre a doença de Alzheimer e os avanços mais recentes na investigação científica. Atualmente, já existem tratamentos direcionados à proteína beta-amiloide, uma proteína associada ao desenvolvimento da doença, com o objetivo de atrasar a progressão do declínio cognitivo em fases iniciais. Ainda que estes tratamentos não representem uma cura, mostram-nos algo muito importante: a ciência está a tentar encontrar respostas. Está a procurar soluções. Está a agir.
Mas a questão que me ficou depois daquele congresso foi outra: porque é que nós, enquanto sociedade e enquanto indivíduos, continuamos tão pouco preparados para aquilo que sabemos que pode acontecer?
Sabemos hoje que existem fatores de risco modificáveis associados ao aparecimento de doenças neurodegenerativas. Sabemos que a prática regular de exercício físico, a alimentação equilibrada, a qualidade do sono, a estimulação cognitiva, a redução do stress e o controlo de doenças como a hipertensão ou a diabetes podem contribuir para reduzir o risco ou atrasar o aparecimento de algumas demências. A informação existe. O conhecimento existe. Então, porque continuamos a desvalorizar o sono? Porque continuamos a viver em permanente exaustão? Porque esperamos sempre que o corpo “grite” para começarmos a cuidar dele?
Talvez porque falar sobre envelhecimento ainda assusta. Porque falar sobre dependência, perda de memória ou vulnerabilidade nos confronta com algo que preferimos ignorar: a nossa própria fragilidade. Vivemos numa sociedade que nos ensina a preparar para a carreira, para os estudos, para a estabilidade financeira, mas raramente nos ensina a preparar para envelhecer. E, no entanto, envelhecer é uma das poucas certezas que temos.
Enquanto gerontóloga, questiono-me muitas vezes sobre isto. Porque continuamos a agir como se o envelhecimento fosse um problema distante, reservado apenas aos outros? A esperança média de vida aumentou significativamente, mas viver mais anos não significa necessariamente viver melhor. E talvez esteja precisamente aí o grande desafio da atualidade: não acrescentar apenas anos à vida, mas qualidade aos anos.
Prepararmo-nos para envelhecer não significa viver com medo. Significa viver com consciência. Significa perceber que os nossos hábitos diários têm impacto no nosso futuro. Significa compreender que prevenção não é apenas fazer exames médicos, mas também cuidar da saúde mental, do corpo, das relações sociais, do descanso e da forma como vivemos.
Claro que nem tudo depende exclusivamente de nós. Existem fatores genéticos, doenças e circunstâncias impossíveis de controlar. Mas há uma diferença enorme entre aquilo que não podemos evitar e aquilo que escolhemos ignorar.
Talvez esteja na altura de começarmos a olhar para o envelhecimento não como um fim inevitável carregado de medo, mas como uma etapa da vida para a qual também nos devemos preparar com dignidade, conhecimento e responsabilidade. Cuidar de nós hoje é, inevitavelmente, cuidar da pessoa que seremos amanhã.


































































































































