Na obra clássica de 1967, Um Homem que Dorme, Georges Perec1 apresenta-nos um jovem estudante parisiense que, numa manhã de exames, decide simplesmente não se levantar e viver uma vida de indiferença. Ler Perec hoje não é apenas contemplar a apatia de um jovem do passado, é olhar para o espelho do mal-estar gerado pelo capitalismo neoliberal. A crise vivida pelo protagonista, a desconcertante descoberta de que “não sabes viver, que nunca o saberás” (Perec, 2026, p. 26), antecipa a exaustão, a depressão e a paralisia existencial que assolam a juventude atual, soterrada pela insegurança socioeconómica e pela impossibilidade de projetar um futuro palpável. Contudo, longe de ser um beco sem saída, a obra de Perec esconde, na sua desconstrução da dor, um antídoto profundamente inspirador: a transição da indiferença isolada para a cosmologia do coletivo.
A arquitetura do capitalismo neoliberal transformou a própria existência numa métrica de desempenho. Sob o imperativo de que cada indivíduo deve ser o empreendedor de si mesmo, somos bombardeados com a ilusão de um controlo absoluto sobre o nosso destino, enquanto se enfrenta uma precarização estrutural sem precedentes. O resultado desta fricção é uma angústia fatalista, a sensação de que, como escreve Perec, “quase não viveste e, no entanto, está tudo dito, terminado” (ibidem, p. 31).
Quando o futuro deixa de ser um horizonte de possibilidades e passa a ser uma ameaça de obsolescência, surge o ato de se retirar do mundo, de desejar apenas “tão-só que o tempo passe e que nada te atinja” (ibidem, p. 49) — a manifestação literária daquilo que hoje chamaríamos de burnout existencial. É o colapso do jovem que, perante a imensidão da falta de sentido e de esperança, descobre que a única forma de não falhar é deixar de jogar o jogo da vida.
O capitalismo neoliberal acolhe e neutraliza a solidão; alimenta-se da depressão, do egoísmo violento, consumindo a sua própria melancolia e convertendo a dor privada em mais uma mercadoria a explorar. Habitar o tempo sem habitar as atividades, tornando-se um “sonâmbulo acordado” (ibidem, p. 83), não destrona a engrenagem que gera a opressão. A indiferença, quando tratada como um destino final, torna-se tão estéril e mecânica quanto a produtividade desenfreada que tentava combater.
A grande viragem da obra reside na iluminação de que a indiferença é inútil como fim, sendo apenas um meio. O isolamento do protagonista falha não porque ele seja debilitado, mas porque a sua premissa de autossuficiência na dor estava errada. Ao descer as escadas e se misturar novamente com a multidão de Paris, sob a chuva que cai sem preferencialismos, compreende que não é a sua dor que o torna especial, nem o coloca acima ou fora do mundo. É o reconhecimento da nossa própria insignificância dentro do cosmos que funciona, paradoxalmente, como uma cura libertadora. Afinal, “quem, com a visão exata de sua nulidade, tentaria ser eficaz e erigir-se em salvador?” (Cioran, 1995, p. 14)2.
Ao aceitar que somos apenas grãos de areia, somos despidos da culpa neoliberal de não termos alcançado uma suposta excelência ou um viver correto que, na verdade, nunca existiu. Como bem se compreende, não existe um saber-viver universalmente formatado e correto; existe apenas um construir-viver diário, imperfeito e moldado pelo que nos vai no espírito. É a consciência da pequenez humana que retira o peso esmagador que hoje nos paralisa. A partir das cinzas da indiferença, emerge então a proposta maior: o abraço à cosmologia coletiva da utopia.
O grão de areia isolado é facilmente arrastado pelo vento da indiferença; contudo, integrado na praia, ele faz parte de uma força coletiva. Descobrir que partilhamos a mesma incapacidade de viver e as mesmas fraturas existenciais reconecta-nos com o outro. A resistência à desesperança não se faz fechando a porta à espera que o tempo passe imune, mas, sim, abrindo-a para caminhar ao lado de quem partilha as nossas fragilidades e percebendo que “a indiferença não te tornou diferente” (Perec, 2026, p. 106).
A obra de Perec não é um elogio ao abandono do cosmos, mas, sim, um mapa de regresso a uma cosmologia partilhada. Essencialmente, recorda-nos que “um mapa-múndi que não inclua a utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras a que a Humanidade está sempre aportando” (Wilde, 1891, p. 16)3. É um voltar à natureza humana, já que, parafraseando Sartre (1994)4, todos nós somos utópicos e criadores, pois inventamos o que já somos, a partir do que ainda não somos, consistimos na negação do próprio presente.
































































































































