As crianças respiram futuro, promessa, oportunidade, recomeço. Pequenos seres humanos carregados de potencial, tantas vezes menosprezado. Cérebros que absorvem informação a um ritmo desenfreado, que exploram, que criam conexões, e cuja vivência ditará muito daquilo que serão no futuro.
Vivemos hoje, como pais, a era com maior acesso a informação de sempre. E isto pode ser tão benéfico como nocivo para nós. O bombardeamento de informação sobre parentalidade é imparável. É importante reconhecer o privilégio que temos pela facilidade de acesso a artigos científicos e fidedignos, a livros e a profissionais qualificados. Mas também é crucial protegermo-nos da toxicidade que as avalanches de informação podem provocar em nós.
Antes de ser mãe, pouco me interessava pela psicologia infantil. Ainda durante a gravidez, carregava crenças e ideias que hoje me são totalmente descabidas e impensáveis. Após o nascimento da minha filha, decidi navegar pelo mundo da parentalidade. Mais especificamente, da parentalidade positiva e consciente, algo ainda visto com algum receio pelas mentes mais conservadoras.
Conhecer o cérebro da criança e a forma como ele funciona é o ponto de partida para mudar a forma como vemos os mais pequenos e entender o motivo pelo qual existem padrões e ciclos que devem ser quebrados se queremos, realmente, criar um mundo melhor, com seres humanos mais conscientes e respeitadores.
Não é necessário tirarmos todos um curso. É necessário que nos interessemos, como nos interessamos por reality shows, futebol, ou qualquer outro tema que passemos horas a explorar. É importante que as crianças sejam uma prioridade no nosso conhecimento. Abdicar de meia hora a fazer scroll nas redes sociais, para ler e aprender mais sobre um tema que é de tanta importância para o nosso futuro.
Respeito, educação e limites. Palavras fundamentais para nós, enquanto pessoas e cidadãos. Conceitos abstratos que não nascem com o cérebro da criança e que precisam de ser ensinados. E como ensinamos o que eles são se não os pusermos em prática?
A criança aprende através da observação e da orientação. Não à primeira, não à segunda, nem à terceira. Tal como nós. A repetição do comportamento e do padrão é importante. Não aprendemos a conduzir apenas com uma aula, nem a fazer uma lasanha se nos disserem a receita apenas uma vez, tal como a criança não aprende os limites e os comportamentos assim que eles são explicados. Precisamos de repetir e mostrar. Dizer “bom dia” quando chegamos a um lugar, dizer “obrigada” quando alguém nos ajuda. Definir um limite como intransponível. Se a criança não pode bater, então nós também não podemos. É um limite que ninguém ultrapassa. Um limite que, tal como todos os outros, e dependendo da personalidade da criança, teremos de repetir e fazer dele padrão.
A “palmada na hora certa”, uma expressão ainda tão usada e que tantas pessoas veem como aceitável. Mas como ensinamos que a violência é um limite inquebrável se nós, adultos, não conseguimos educar sem a usar? Este talvez seja dos padrões mais difíceis de quebrar, mas também dos mais importantes. E posso afirmar, por experiência própria, que quebrar este ciclo é tão difícil como libertador. É perceber, também, o nosso potencial. Reconhecer que, como adultos, com um cérebro totalmente desenvolvido, somos capazes de resolver conflitos com um cérebro ainda em desenvolvimento sem recorrer à violência. Isso fará toda a diferença no futuro do ser humano. Sermos capazes de, passo a passo, conseguir direcionar a ação para que ela não seja violenta.
E não usar a violência significa optar pela permissividade? Não. Significa exatamente o oposto. Significa que vamos ensinar sobre respeito, educação e limites utilizando, a priori, o limite de não utilizar a violência para chegarmos ao nosso objetivo. É crescimento pessoal, é conhecimento, é desenvolvimento. É uma dose gigante de humildade que vem anexa à parentalidade quando queremos fazer um bom trabalho. É difícil, é árduo. É aprender enquanto fazemos. Uma aprendizagem prática e definitiva.
Imaginemos o que seria, num futuro, termos seres humanos que aprenderam as regras de vivência em sociedade sem recorrer à violência. Que sabem gerir conflitos sem que a resposta automática seja a agressividade. Imaginemos o que seria nós aprendermos isso também. Termos a capacidade de gerir de forma mais saudável as nossas emoções. Crescermos junto com os nossos filhos.
A estrutura do nosso cérebro já é difícil de mudar, mas, quando somos pais, recebemos a oportunidade e o privilégio de ter um cérebro brilhante e cheio de potencial, onde podemos colocar amor (que nunca é demais) e conhecimento. E podemos escolher a forma como o queremos fazer.
Não existem pais perfeitos, contextos perfeitos ou vidas perfeitas. Mas existem intenções. A intenção de abraçar a humildade e querer fazer melhor. De respeitar a criança como um ser humano em desenvolvimento, que nos vê como seres sábios e irá aprender, connosco, a viver no mundo.






























































































































