Após um ano e quatro meses do regresso de Donald Trump à Casa Branca, talvez seja justo dizer que estes quase 500 episódios de espetáculo político — cómico na forma e dramático nas consequências — tornaram-se um verdadeiro teste de resistência para o resto do mundo. Com o próprio “President DJT” como protagonista, esta administração transformou a Casa Branca num palco permanente de improviso, de conflito e, simultaneamente, de espetáculo, onde a fronteira entre liderança do “mundo livre” e entretenimento parece ter desaparecido. Mas, se há uma região onde os efeitos desta encenação são sentidos com especial intensidade, essa região é a Europa.
Este segundo mandato não representou uma simples continuidade do primeiro. Seria cómodo pensar que sim, porque permitiria à Europa continuar a gerir a relação com Washington como se fosse uma fase menos boa que passa, uma anomalia com prazo de validade. Não é. O primeiro mandato marcou o início da rutura da diplomacia que guiou o Ocidente pós-Segunda Guerra Mundial; este segundo significa uma aceleração da incerteza estratégica. Durante anos, a Europa contou com os Estados Unidos como o garante da segurança tanto a nível militar, como económico, e, agora, vê-se obrigada a reconsiderar pressupostos que pareciam intocáveis. A NATO é um exemplo. Para já, continua formalmente de pé, mas a confiança política que a sustentava ficou fragilizada, especialmente, depois da ameaça de adquirir a Gronelândia — território soberano da aliada Dinamarca —, e não se sabe se a mudança em Washington a fará recuperar.
No plano da defesa, os europeus foram empurrados para uma reflexão urgente sobre rearmamento e autonomia estratégica sem os americanos, enquanto, no plano económico, a imprevisibilidade desta administração, sobretudo, no que respeita às tarifas, alimenta tensões comerciais e ameaça cadeias de abastecimento — problemas que a União Europeia preferiria não ter de gerir depois de uma pandemia e de uma guerra às suas portas. No plano diplomático, a Europa perde também margem de manobra quando a política no outro lado do Atlântico oscila entre o unilateralismo e a chantagem. O resultado acaba por ser uma União mais exposta e dividida, sem conseguir assumir-se no sistema internacional.
A crise mais recente chegou com a guerra contra o Irão, quando o chanceler alemão, Friedrich Merz, um conservador pró-atlantista de toda a vida, disse publicamente que os americanos entraram nesta guerra sem qualquer estratégia e que uma nação inteira estava a ser “humilhada pela liderança iraniana”. Que um político conservador e historicamente pró-americano tenha chegado a este ponto diz tudo sobre o desgaste acumulado. A resposta de Trump foi reveladora do estado da aliança transatlântica: atacou Merz, acusando-o de ser ineficaz na Ucrânia, e anunciou que os Estados Unidos estão a reavaliar a presença militar na Alemanha, onde se encontram mais de 36 mil soldados americanos. A ameaça estendeu-se à Itália e à Espanha, países que Trump acusou de não apoiarem os EUA numa guerra sobre a qual nem foram consultadas. A Itália de Giorgia Meloni, outrora considerada uma aliada próxima do líder republicano, recusou inclusivamente a utilização de uma base aérea na Sicília por aviões militares americanos que transportavam armas para o conflito. O episódio é emblemático, na medida em que a lógica desta administração é exposta na sua forma mais crua: Trump exige lealdade em decisões tomadas unilateralmente e pune quem ouse questionar.
A Guerra na Ucrânia, já no seu quinto ano, é outro espelho desta fragilidade — e talvez o mais doloroso. Com cessar-fogos que mal sobrevivem ao anúncio que os cria, a Europa continua a pagar o preço político, económico e agora também o preço logístico de um conflito que não escolheu. Desde o regresso de Trump ao poder, a distribuição de armamento vinda dos EUA apenas chega a Kiev depois de a UE o financiar. Os europeus são, na prática, forçados a assumir responsabilidades que há muito adiavam, mas fazem-no tarde e de forma fragmentada. A demora de quatro meses para aprovar o pacote de ajuda à Ucrânia — pelo veto da Hungria com Órban — não foi apenas um atraso burocrático. Foi um sinal.
A nível democrático, o efeito é igualmente corrosivo. Ao incentivar, oficialmente, na Estratégia de Segurança Nacional, o apoio a “partidos patrióticos europeus”, ou seja, que se identifiquem com o movimento MAGA, Trump não está apenas a interferir na política interna europeia. A sua influência reforça forças populistas, normaliza o ataque às instituições e legitima um discurso político assente na confrontação permanente. Quando a maior potência ocidental trata a política como um exercício de agressão mediática, o impacto não fica confinado às suas fronteiras. Espalha-se, contamina e enfraquece consensos que levaram décadas a construir.
No fundo, a Europa enfrenta, hoje, um paradoxo perigoso: precisa dos Estados Unidos, mas não pode continuar a agir como se essa necessidade seja correspondida. Trump expôs essa vulnerabilidade sem problemas. Se há algo que estes quase 500 — e longos — episódios ensinaram é que a estabilidade internacional não pode depender da disposição do homem que está na Casa Branca. A Europa precisa de deixar de reagir para passar a agir e assumir-se, finalmente, como a potência económica, política e estratégica que pode e deve ser. O momento tem de ser agora.





























































































































