Entre o Oxigénio Artificial e o Ego Natural

"Desde cedo aprendemos que o alto é melhor: subir na vida, subir na carreira, subir acima dos outros. E depois há o monte Evereste — esse excesso de altura, esse exagero geográfico onde a ambição humana se torna visível, quase caricatural."

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Há qualquer coisa de profundamente humano na ideia de subir. Subir é mais do que deslocar-se em altitude — é uma metáfora antiga, quase primitiva, de redenção. Desde cedo aprendemos que o alto é melhor: subir na vida, subir na carreira, subir acima dos outros. E depois há o monte Evereste — esse excesso de altura, esse exagero geográfico onde a ambição humana se torna visível, quase caricatural.

Durante décadas, o Evereste foi território de poucos: obstinados, loucos ou, como gostamos de romantizar, heróis. Pessoas como João Garcia ou Maria da Conceição1 não subiram apenas uma montanha; confrontaram-se com a própria fragilidade. Não houve euforia, dizem. Houve silêncio. E isso diz muito. Porque o silêncio é o oposto do espetáculo — e o Evereste de hoje parece ter-se tornado precisamente isso: um espetáculo caro, organizado, vendido.

Há uma linha ténue — e cada vez mais difusa — entre superação e consumo. A psicologia da motivação ensina-nos que o ser humano precisa de desafios para se afirmar. Mas também nos alerta para um fenómeno curioso: quando o desafio é comprado, perde parte do seu valor simbólico. Se posso pagar entre 40 mil e 120 mil dólares por uma experiência extrema, o que estou realmente a conquistar? A montanha, ou uma versão de mim que posso mostrar aos outros?

O alpinismo comercial introduziu uma nova camada de ambiguidade ética. Não se trata apenas de dinheiro; trata-se de responsabilidade. Quando alguém paga para subir ao Evereste sem plena consciência do risco, quem assume as consequências? Os guias? As seguradoras? O Estado nepalês? Ou a própria ideia — perigosa — de que tudo pode ser adquirido, até a transcendência?

Depois, há a dimensão social, tantas vezes ignorada. O Evereste não é apenas um palco de ego ocidental. É também o sustento de comunidades locais, nomeadamente os xerpa, cuja relação com a montanha é, simultaneamente, espiritual e económica. São eles os verdadeiros mediadores entre o sonho e a sobrevivência. E são eles, quase sempre, os que pagam o preço mais alto quando algo corre mal.

No meio disto tudo, a montanha — esse organismo aparentemente imóvel — sofre. A ecologia do Evereste tornou-se um paradoxo: um dos lugares mais remotos do planeta transformado num dos mais poluídos. Garrafas de oxigénio abandonadas, tendas rasgadas, lixo congelado que não desaparece. A obsessão humana pela conquista deixa marcas. E talvez isso diga mais sobre nós do que qualquer cume alcançado.

Há também uma questão mais subtil, quase filosófica: o que significa “chegar ao topo” numa era em que tudo pode ser fotografado, partilhado e validado? A imagem de filas humanas na “zona da morte”, como captada por Nirmal Purja, é perturbadora. Não apenas pelo risco físico, mas pelo simbolismo. Estamos todos à espera da nossa vez para tocar no absoluto — como se fosse um balcão.

Talvez o verdadeiro Evereste não esteja nos 8848 metros de altitude, mas na capacidade de reconhecer limites. Num mundo que glorifica o excesso, parar pode ser o maior ato de coragem. Dizer “não subo” pode ser mais difícil do que chegar ao topo.

No entanto, continuamos a subir. Porque somos feitos disso: de vontade, de ilusão, de necessidade de provar qualquer coisa aos outros, mas, sobretudo, a nós próprios. O problema não é querer chegar ao topo. O problema é esquecer porquê.

No fim, talvez Maria da Conceição tenha razão: os maiores cumes não são aqueles que conquistamos, mas os que ajudamos outros a alcançar. E isso — curiosamente — não se compra.


  1. Primeiro homem português e primeira mulher portuguesa a subirem ao monte Evereste, em 1999 e 2013, respetivamente. ↩︎

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Psicólogo Clínico / Neuropsicólogo

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