Língua Portuguesa: Língua viva, língua de partilha

"Algumas mudanças podem ser bem-vindas e passar a integrar a língua, como sempre ocorreu ao longo da história, mas fica o alerta para fazermos uma distinção entre a evolução natural e constante do idioma e o empobrecimento da língua [...]."

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Uma língua é feita de musicalidade, expressão, tradição, evolução e adaptação. Neste sentido, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela Unesco e comemorado neste 5 de maio, é um convite à celebração e à reflexão.

Celebração porque a língua portuguesa está presente em quatro continentes, mistura culturas e é um dos idiomas mais falados do mundo. Com muito orgulho, Portugal – berço desta língua tão rica – protege as raízes e a história do idioma, abraça as evoluções gramaticais e é referência para os outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O Brasil, pela sua extensão territorial e número de habitantes, consegue, internamente, manter a unidade e coesão do idioma e levar um pouco da língua portuguesa com alegria e vivacidade para o resto do mundo. No Timor-Leste, o português simboliza a resistência de um povo pela preservação da sua identidade.

Em África, a língua portuguesa ganha ritmo e cadência próprios em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe. O português é também uma das línguas oficiais de Macau (região administrativa especial da China), estando presente em documentos, leis e placas de rua em todo o território. No Luxemburgo, o português é a segunda língua mais falada no país, ficando atrás somente do luxemburguês.

Enfim, cerca de 260 milhões de pessoas são falantes da língua portuguesa no planeta, e essa quantidade só deve aumentar em razão do crescente interesse internacional pelo idioma gerado por necessidades profissionais, de estudo ou vínculos afetivos.

Por outro lado, todos nós que falamos português temos um desafio pela frente: com o “mergulho de cabeça” no mundo digital, assistimos a um empobrecimento gradual da língua portuguesa. Há uma tendência preocupante de simplificação exagerada do uso da língua, limitação do vocabulário e dificuldade de construção de frases.

Neurocientistas apontam que, além de influenciar o modo como nos expressamos, a perda de nuances linguísticas afeta também a forma como pensamos. Professores já constatam que muitos alunos têm dificuldade em produzir textos mais longos e argumentativos.

Algumas mudanças podem ser bem-vindas e passar a integrar a língua, como sempre ocorreu ao longo da história, mas fica o alerta para fazermos uma distinção entre a evolução natural e constante do idioma e o empobrecimento da língua, que pode, entre outras consequências, impactar o desenvolvimento cognitivo.

E lutar contra o empobrecimento da língua não significa pecar pelo excesso, pelo rebuscamento, pela sofisticação. O estilo de cada um de se expressar pode ser “muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem”, como pregou o Padre António Vieira no seu famoso Sermão da Sexagésima, em 1655, na Capela Real de Lisboa.

Esta reflexão sobre os rumos da língua portuguesa deve caminhar de mãos dadas com a comemoração desta data tão importante para os que partilham da máxima de Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa” – língua viva, língua de convívio e aproximação de culturas, língua que aquece corações em verso e prosa.

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Jornalista e historiadora, apaixonada por Língua Portuguesa, Literatura e História do Cotidiano. Acredito fielmente na máxima de Fernando Pessoa: “sê todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes”.

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