O Ghosting no Mundo Laboral

“Ao visitar o LinkedIn algumas vezes por semana, vejo confirmada uma desconfiança que tenho em relação às empresas no geral: os processos de recrutamento são cada vez mais difíceis de compreender [...].”

Tempo de leitura: 5 minutos

Visitar o LinkedIn pelo menos duas vezes por semana é o suficiente para percebermos que algo não está bem. Se aumentarmos a frequência com que usamos a aplicação, temos a confirmação de que o mundo laboral, de forma universal, está cada vez pior. Não me refiro apenas às mudanças que muitos governos atuais têm vindo a implementar, diminuindo os direitos dos trabalhadores; falo de algo que tenho lido, ouvido e visto a acontecer cada vez mais: o silêncio aquando do envio de candidaturas. Adaptando-o à linguagem contemporânea, o famoso ghosting no mundo laboral. 

Tinha vinte anos quando comecei a trabalhar. Na altura, senti como se me tivesse saído o jackpot: recebi uma proposta de trabalho num restaurante por ter acompanhado um primo a uma entrevista ali, coincidentemente no último dia da minha licenciatura. Portanto, não fazia ideia do que era mandar um currículo, ser rejeitada imensas vezes, nem tão-pouco habitar um limbo de silêncio eterno. Pouco tempo se passou quando decidi sair daquele trabalho, procurando outros com os quais sobreviver no dia a dia. Recordo-me de enviar dezenas de currículos num só dia, obtendo resposta ao fim de semanas – ou menos –, com convites para entrevistas ou com propostas de trabalho. Parecia-me tudo mais fácil do que é atualmente

Devido à fase final da dissertação, tive de abandonar o meu trabalho mais recente, ingenuamente acreditando que seria fácil encontrar outro emprego assim que entregasse a dissertação. Não podia estar mais errada: nos últimos meses tenho enviado cerca de 20 candidaturas por dia, sem receber nenhum tipo de feedback. Muitas vezes, recebo mensagens de e-mail automáticas, outras em que não avanço para a fase seguinte, sendo brindada com um conteúdo que se repete: templates de e-mail iguais, sempre com o mesmo tom, uma espécie de frieza advinda de uma máquina ou de uma pessoa (já não sei dizer bem) que parece não ter avaliado a cem por cento as candidaturas que recebe. Ao visitar o LinkedIn algumas vezes por semana, vejo confirmada uma desconfiança que tenho em relação às empresas no geral: os processos de recrutamento são cada vez mais difíceis de compreender, pelo modo como tratam os candidatos que, por incrível que pareça, dedicam muito do seu tempo a procurar trabalho.

Sei que é tendencioso pensar que uma pessoa desempregada não está a fazer absolutamente nada. Além de tendencioso, é uma visão muito restrita, preconceituosa e desinformada. Nem sempre estamos desempregados porque queremos: há exigências na vida que demandam uma escolha (como foi o meu caso, em que optei por terminar um mestrado que, espero, trar-me-á oportunidades no futuro); às vezes, as empresas decidem fechar as portas sem fornecer soluções; se formos freelancers, há fases em que o trabalho diminui e, por consequência, não há outra escolha senão aceitar o desemprego e recomeçar o processo de busca por trabalho.

Compreendo cada vez menos o que é que as empresas procuram: se temos poucas habilitações académicas, somos penalizados e não nos entrevistam; se temos uma vasta panóplia de cursos e formações, não nos querem pagar em conformidade com o nosso investimento académico; se eliminamos ou incluímos informação nos nossos currículos, corremos o risco de sermos considerados mentirosos e trapaceiros, não avançando além da entrevista; se temos ou queremos ter filhos, as empresas torcem o nariz; aos que estão no início da carreira não é dada a oportunidade de experimentar o mundo laboral, pois têm pouca experiência; por outro lado, os que têm demasiada experiência são encarados como espécies raras do mundo laboral, a quem não é dado o devido crédito e consideração. 

Questiono-me novamente: o que é que querem de nós? Certamente que a resposta poderá conter muitas camadas: submissão, silêncio, cabeça baixa, uma vida social e familiar reduzidas, uma existência vazia, pacata, sem sentido. Como podem as pessoas concordar com isto? Como me é habitual, considero importante reforçar que reconheço que nem todas as empresas agem desta forma. 

Há muitos bons exemplos de empresas que apreciam trabalhadores multidisciplinares, de várias idades, géneros, etnias; empresas que remuneram em conformidade com a experiência de cada indivíduo, aumentando os salários à medida que há evolução, crescimento e lucro; empresas que estão conscientes de que os trabalhadores felizes produzem mais e melhor; empresas que, mesmo rejeitando as candidaturas, respondem aos candidatos de forma cordial, adaptando a mensagem a cada caso, explicando por que razões não avançaram no processo. Há, assim, um respeito pela pessoa que está do outro lado, que, tal como os que estão efetivamente a trabalhar, procura mudar de vida. 

Se assim o é em casos específicos, por que razão é que nem todas seguem este exemplo? O que é que explica o silêncio, as propostas sem sentido, a falta de consideração pelo tempo dos candidatos?

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Mestranda em Estudos Urbanos, artista multidisciplinar, podcaster e sonhadora. Uma “calma nervosa” que não cessa na criação de projetos. Apreciadora de plantas, livros e velas, escreve para organizar as ideias, pinta para expressar emoções e partilha o que lhe vai na cabeça em conteúdos escritos e audiovisuais desde 2015.

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