Quem Me Dera Ser

"Sou um conjunto de coisas. Dentro dessas coisas, existem outros conjuntos de muitas outras coisas, com aglomerados de outras tantas coisas também. [...] Neste momento, sou um conjunto de poemas de Alberto Caeiro."

Tempo de leitura: 6 minutos

Da última vez que nos encontrámos, conversámos sobre a palavra “memória”. Isto, claro, se nos chegámos a encontrar sequer. Podes ser alguém que acaba de chegar e, se for esse o caso, sê bem-vindo, volta atrás, se quiseres ter memória sobre aquilo que anteriormente falei. Aqui, falo de tudo um pouco. Falo muito sobre mim, talvez, até um pouco sobre ti. E, sobretudo, falo sobre… música e a minha relação com ela. Muita música e muito “eu”.

Sou um conjunto de coisas. Dentro dessas coisas, existem outros conjuntos de muitas outras coisas, com aglomerados de outras tantas coisas também. Sou uma vivência diária, uma recolha absorvente do que me rodeia, do que me move, comove e inspira. Neste momento, sou um conjunto de poemas de Alberto Caeiro.

Poderia dizer que sou uma flor dos seus poemas, uma árvore, um chocalho, um monte ou rio, uma pedra, uma nuvem translúcida, um campo de trigo seco. Poderia dizer, mas não digo, porque não o sou. Gostava tanto de o ser e ainda mais de ser Caeiro. Não para ter os olhos azuis ou o cabelo louro — se bem que também não diria que não, uma vez que o meu cabelo se assemelha a um arrozal plantado apenas há uma semana, em que o verde da planta começa a furar a terra e a apanhar os seus primeiros raios de sol. 

Gostaria de ser Caeiro, para apenas ser. A sua escrita e o seu modo de ver as coisas que o rodeiam levam-me a querer que, afinal, nós é que não sabemos andar nisto. Alberto Caeiro, o mestre, a beleza simplista de simplesmente ver. Algo que foi tão difícil para Ricardo Reis e, especialmente, para Álvaro de Campos, que procurou “Sentir tudo de todas as maneiras, / viver tudo de todos os lados, / ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo”1. Procurou tanto que acabou por se esquecer da verdadeira essência de Caeiro. 

Mas nem todos somos Alberto Caeiro, aliás, acredito que muito poucos o são. Daí, talvez, Fernando Pessoa ter criado este heterónimo de natureza tão pura e simplista. Uma identidade idílica, cuja maneira de viver gostaríamos todos de alcançar. Eu sei que gostava, e, por vezes, sou ingénuo ou talvez arrogante, vaidoso ou atrevido ao ponto de achar que partilho certos traços com o poeta de O Guardador de Rebanhos, mas engano-me. Não consigo apenas ser, não consigo não pensar, não procurar significados ou respostas nas coisas que me cercam. Não consigo apenas ficar, olhar e contemplar. Mas será que o próprio conseguia totalmente?

O essencial é saber ver, 
Saber ver sem estar a pensar, 
Saber ver quando se vê, 
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa. 

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
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“Uma aprendizagem de desaprender”. Acredito que este verso de Caeiro deva servir de mote para o resto deste artigo, para o resto do meu dia e do dia de amanhã. Estamos tão dentro de nós, da nossa cabeça, dos nossos problemas, que nos esquecemos de apenas ser, de apenas viver. Porque é que, quando escrevo uma canção, o meu primeiro pensamento é “será que as pessoas vão gostar?”. Porque hei de buscar eu aprovação nos outros para algo que a mim me permite sentir, me permite ser, sem pensar? Porque tenho eu a necessidade de gravar tiktoks, no conforto da minha casa, em busca de seguidores, gostos e comentários? Não deveria ser suficiente a canção por si só? Apenas a música? 

“Sim, Ricardo!”, dizem vocês. Deveria. Em parte, é suficiente, mas quero mais, queremos sempre mais, somos humanos ao fim ao cabo, certo? Mas o que mais peço é tempo e espaço. Tempo para criar, tempo para ser o artista — bom ou mau — que a minha natureza me permite ser. Espaço para mostrar, não porque quero a aprovação, mas porque quero levar aos outros algo que lhes permita ser, algo que lhes permita sentir, sem pensar. Espero apenas nunca cair na armadilha de ter de escrever o que os outros querem ouvir, mas isso é tema para outro texto. 

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me,
3

Todos temos momentos de apenas ser, mas são poucos. Existe demasiado ruído, demasiada mágoa nas nossas vidas. Existe demasiada informação, demasiada necessidade de aceitação e pertença. Quem me dera ser uma flor, pedra ou rio. 

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
 

Mas as flores, se sentissem, não eram flores, 
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
4

Mas as flores, pedras ou rios não sentem, apenas existem. Nós, humanos, sentimos. Falamos, comemos, andamos, choramos, amamos, sentimos. Não podemos ser flores, nem pedras, nem rios, mas podemos, sim, aprender a desaprender, a dar um passo atrás, a acalmar, respirar e ser. Abrir os olhos e ver, ouvir uma música e sentir, escrever um poema e ser. 

Ouço sempre música enquanto escrevo. Ouço sempre música enquanto trabalho ou ando de carro. Acho que ouço sempre música, menos quando estou a dormir. Talvez, até aí, esteja alguma música a ser cantarolada na minha cabeça, talvez seja isso que me tem tirado o sono nos últimos meses. Isso ou outra coisa. Talvez seja antes um momento, um momento em que apenas fui, talvez tenha sido isso. E, agora, penso nele, porque não sou Caeiro e porque sou um conjunto de coisas. Agora, penso nele, de maneira a poder lá voltar, de maneira a poder ver-te, música, e ao teu lado poder ficar.

Mas, por enquanto, música, acompanha-me na minha próxima tarefa — estender a roupa. Ai, quem me dera ser flor, pedra ou rio…


Referências bibliográficas

  1. Pessoa, F. (1993). Passagem das Horas [poema de Álvaro de Campos]. In T. R. Lopes (Ed.), Livro de versos (Edição crítica, p. 26b). Estampa. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/821 ↩︎
  2. Pessoa, F. (1993). O Guardador de Rebanhos [poema de Alberto Caeiro]. In Poemas de Alberto Caeiro (10.ª ed., notas de João Gaspar Simões & Luiz de Montalvor, p. 50). Ática. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/1172 ↩︎
  3. Pessoa, F. (1993). O Guardador de Rebanhos [poema de Alberto Caeiro]. In Poemas de Alberto Caeiro (10.ª ed., notas de João Gaspar Simões & Luiz de Montalvor, p. 56). Ática. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/1195 ↩︎
  4. Pessoa, F. (1993). O Guardador de Rebanhos [poema de Alberto Caeiro]. In Poemas de Alberto Caeiro (10.ª ed., notas de João Gaspar Simões & Luiz de Montalvor, p. 53). Ática. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/1188 ↩︎

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Ricardo Neto, 26 anos. Natural de Amiais de Baixo, Santarém, reside atualmente em Aveiro, sendo o vocalista dos Maria Café, uma banda da região. Lançou também o seu primeiro projeto a solo “Conforto Desconfortável”.

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