Já paraste para pensar na precisão de que necessitas para deslizar o teu polegar no telemóvel? Ou para te equilibrares enquanto caminhas? Muitas vezes reduzida apenas ao prazer imediato, a dopamina é um dos grandes mensageiros do nosso sistema motor. Os nossos movimentos funcionam como uma orquestra, e o maestro é a dopamina. Quando esta começa a falhar, estamos perante a doença de Parkinson — a segunda doença neurodegenerativa mais comum no mundo.
Para percebermos esta doença, temos de olhar para o cérebro como uma rede de circuitos. O nosso sistema motor divide-se entre o sistema piramidal, que ordena o movimento, por exemplo, de levantar o braço, e o sistema extra-piramidal, que suaviza esse movimento, garantindo que não seja brusco ou rígido. Na doença de Parkinson, é este último sistema que se encontra afetado.
O problema reside numa zona do cérebro chamada substância nigra, onde os neurónios degeneram devido à acumulação de uma proteína chamada alfa-sinucleína. Pensa nela como se fosse lixo biológico, que, por se enrolar de forma errada, se acumula e degenera os neurónios produtores de dopamina. Sem este lubrificante químico, a dopamina, surgem sintomas motores como a bradicinesia, lentidão característica da doença, que faz com que os movimentos pareçam acontecer em câmara lenta.
A prevenção como pilar fundamental
Embora ainda não exista cura para a doença de Parkinson, a sua prevenção está em grande parte sob o nosso controlo. O medicamento mais eficaz na prevenção e progressão da doença não se compra na farmácia; é cultivado todos os dias através do nosso estilo de vida. A evidência médica é unânime: na prevenção de doenças neurodegenerativas, a adoção de uma dieta mediterrânica não só favorece o bom funcionamento intestinal, através do eixo intestino-cérebro, como também reduz a neuroinflamação.
Além disso, o exercício físico tanto aeróbico, como de resistência, funciona como uma espécie de seguro de saúde. A sua prática promove a libertação de fatores neurotróficos, como o BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), que atua como um fertilizante para os neurónios. De facto, diversos estudos demonstram que indivíduos fisicamente ativos apresentam uma maior reserva cognitiva, o que contribui para a proteção contra a neurodegeneração. Assim, manter um estilo de vida ativo vai muito além da estética: é um investimento na saúde neuronal.1
A importância dos desafios
O cérebro prospera com o desafio. A estimulação cognitiva, através da aprendizagem de novos passatempos, auxilia na criação de novas sinapses, permitindo que o cérebro compense áreas que possam estar disfuncionais. Importa também não esquecer o papel da interação social. O contacto humano é um estímulo multissensorial que protege contra o declínio neurodegenerativo.2
A culpa é da genética?
É verdade que a doença de Parkinson é um puzzle complexo, no qual a genética e o ambiente em que estamos inseridos se cruzam. Sim, nem todos os fatores estão sob o nosso domínio, mas a ciência diz-nos que a genética não é um destino incontrolável. Dados da Parkinson’s Foundation indicam que apenas 13% dos casos são atribuídos à genética. Não podemos reescrever o nosso código genético, mas podemos decidir como o nosso corpo o lê. O tempo que investimos hoje na nossa saúde é a autonomia que preservamos amanhã.
Referências
- Romero Garavito, A., Díaz Martínez, V., Juárez Cortés, E., Negrete Díaz, J. V., & Montilla Rodríguez, L. M. (2025 Jan 28). Impact of physical exercise on the regulation of brain-derived neurotrophic factor in people with neurodegenerative diseases. Front Neurol. 15:1505879. doi: 10.3389/fneur.2024.1505879. PMID: 39935805; PMCID: PMC11810746.
↩︎ - Hindle, J. V., Martyr, A., & Clare, L. (2013). Cognitive reserve in Parkinson’s disease: a systematic review and meta-analysis. Parkinsonism & Related Disorders, 20(1), 1–7. doi: 10.1016/j.parkreldis.2013.08.010 ↩︎




























































































































