“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”
Disse-o o mestre. Disse-o Jorge Luis Borges, ele que me visita de tempos a tempos, tal como os seus labirintos, espelhos e bibliotecas infinitas. Por sua influência, sonhei demasiadas vezes com uma casa onde pudesse caminhar até me perder num horizonte longínquo (sou um sonhador, eu sei — um T2 já representa desafio suficiente), eventualmente, perdendo-me no infinito, mas, ao mesmo tempo, mantendo-me próximo de tudo. Numa casa com tais dimensões, poderia, finalmente, dar refúgio a todos os livros que sempre quis ter, para que, em dicotomia — partilhando histórias e personalidades —, pudéssemos celebrar vitórias ou sofrer desilusões, iniciar revoltas ou simplesmente apaziguar o espírito cansado. Assim, confesso-vos a minha ambição: a de conhecer todas as histórias do mundo, tudo o que alguma vez foi contado e escrito. Ainda que pareça (pouco) plausível, o balanço continua a ser surpreendentemente negativo. Porém, acontece que eu ainda não desisti. Chegados ao primeiro checkpoint: haverá alguma finalidade inerente a tal loucura, em ler até aos limites da exaustão? Perguntam-me várias vezes: “O que ganhas com isso?” — e eu prometo-vos que, a seu tempo, lá chegaremos.
Nas minhas prateleiras livrescas, perfilam-se algumas curiosidades. Vislumbram-se combinações que não obedecem à ordem alfabética do mundo, mas aos caprichos das relações humanas. Como tal, e a título de exemplo, podem ver-se García Márquez e Vargas Llosa juntos, lado a lado, entregando, provocadoramente, num mano a mano, Cem Anos de Solidão vs. Conversa na Catedral; Ninguém Escreve ao Coronel promiscuamente em contacto com A Cidade e os Cães. Tenho a certeza que, durante a noite, na ausência do olho humano, eles — os autores — despem a sua capa do ego e conversam, conversam como sempre o fizeram, como velhos amigos que os livros juntaram. Por admirá-los tanto, vive em mim a esperança que esta configuração resolva a questiúncula que os permeou e que culminou num olho negro em García Márquez. Talvez assim retomem a bendita amizade que outrora florescia — quando frequentavam a casa um do outro em Barcelona —, e que tal aconteça fruto da minha pequena artimanha (há quem organize os livros por cores, blhac!). Mas não me fico por aqui: mantenho Fuentes e Cortázar a observá-los de perto, porque, caso seja necessário, Julio, solta-lhes os cronópios e as famas, numa espécie de Bobby e Tareco proverbiais. Para mim, isto também é literatura.
Mas a literatura é mais do que um devaneio abstrato. Caso contrário, não usaria uma crónica para isto. É verdade que a literatura, através da leitura, traça caminhos concretos na sociedade, tendo o poder inegável de nos confortar ou confrontar. A literatura pode ser, por exemplo, uma arma contra a solidão, eficaz contra os muros invisíveis que a modernidade, através das redes sociais, ergueu na sociedade, aproximando no ecrã o que nefastamente tem afastado no tecido físico da realidade. Uma das descrições mais belas que li, encontrei-a recentemente no livro Tudo sobre Deus, de José Eduardo Agualusa, na qual, num diálogo meditativo, uma das personagens, num sonho, encontra-se com Borges e pergunta-lhe o que é a solidão. Borges, sempre com aquela aura pueril, mas iluminada, dá uma resposta maravilhosamente poética, assentando em algo como: “A solidão? Imagina uma biblioteca infinita… Agora, imagina que todos os livros que compõem essa biblioteca foram escritos unicamente pela mesma pessoa, e aí tens — isso para mim é a definição de solidão”. Ora, isto revela na perfeição como a literatura nos ajuda a despir a complexidade do mundo, como “nos traduz o mundo”, nas palavras do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez. É através da literatura e da sua leitura crítica que nos deparamos, muitas vezes, com a mecânica da realidade (como diria Paul Auster), com a beleza infinita da diversidade dos povos, com o verdadeiro significado da cor vermelha, com o que é viajar no tempo.
Se me permite, caro leitor, pergunto-lhe o seguinte: quantas foram as vezes que um sentimento — que o habita, ou persegue, ou atormenta — perdura durante décadas a fio, sem que nunca lhe consiga dar forma, nem saborear o significado que lhe escapa, simplesmente porque os sentidos não são suficientes?
Chegados ao segundo checkpoint. É precisamente neste ponto que a grande literatura entra nas nossas vidas, porque, de repente, e inesperadamente, uma simples descrição num livro toca-nos, amassa-nos, assume-se cristalina, permitindo-nos vê-la como uma escultura. Conclusão: a literatura talha, no mármore bruto das nossas tormentas íntimas, a forma que nos permite, por último, reconhecê-las. Argumento, ainda, que é justamente ao reconhecer os limites que melhor nos aproximamos do que nos escapa. É nesse instante de catarse que nos expandimos — nós e o nosso entendimento do mundo. A estrutura, a cadência, a musicalidade das frases elevam-nos e desdobram-nos em estados de consciência alargados — íntimos e coletivos —, como se atravessássemos, numa loucura lúcida, o efeito de psicadélicos milenares até então desconhecidos. “Ah, sim, já passei por isto” ou “que tipo vil”, ocorrendo-me de imediato o Monsieur Thénardier, d’Os Miseráveis de Victor Hugo, um manipulador execrável que não olha a meios para atingir os seus fins — e, ponte feita, ocorre-me certo político do espaço mediático português. Veja-se, por exemplo, a forma como os seus discursos populistas reduzem problemas complexos — como a imigração, a habitação ou o custo de vida — a explicações simplistas e emocionalmente apelativas: “A culpa é deles”, “O sistema está contra nós”, “Há uma elite que vos rouba”. Estas narrativas prosperam não porque sejam verdadeiras, mas porque são fáceis de seguir, dispensando o esforço da interrogação que a literatura fomenta. Com isto, quero dizer-vos que a leitura nos habitua à ambiguidade, à complexidade das motivações humanas, à coexistência de múltiplas verdades. Veja-se um leitor de Dostoiévski, que dificilmente se satisfaz com culpados únicos ou soluções imediatas, porque aprendeu que o mundo raramente cabe em categorias simplistas.
Mas, infelizmente, a literatura trava, de momento, uma luta desigual contra a atenção fácil e barata das redes sociais. Ler dá trabalho, é verdade. Como tal, o entretenimento impera, a sociedade do espetáculo cristaliza-se, e coalesce o mal nos espíritos que fogem do virar das páginas. Segundo o mais recente estudo da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) sobre os hábitos de leitura em Portugal, o nosso país continua a revelar fragilidades preocupantes na sua intimidade com os livros. Em 2024, apesar de 76% dos portugueses afirmarem ter hábitos de leitura, a média anual ficou-se pelos 5,3 livros, um valor em ligeira descida face ao ano anterior. Ainda mais elucidativa, pelo seu aspeto perigoso, é a comparação europeia: em Portugal, vende-se cerca de 1,3 livro por habitante, muito abaixo de países como França (4,6) ou Reino Unido (2,9). Os engenheiros do mal, esses dos sete círculos de Silicon Valley, descobriram nos nossos cérebros os mecanismos de recompensa fácil, juntamente com a ilusão de pertença tribal. As redes sociais despertam o tribalismo irracional, enquanto a leitura, contrariamente, fomenta as pontes da tolerância. As redes sociais, tal como estão desenhadas hoje, são avenidas de populismo, projetadas pelos tais engenheiros do mal, esses seres mefistofélicos, que enriquecem à custa do ódio disseminado, do racismo, da xenofobia e da injustiça social. Na minha opinião, é apenas através da cultura, da literatura, que se pode combater com armas suficientemente poderosas estes movimentos acéfalos. Desenganem-se, talvez não haja mesmo outra forma.
Há uma frase do grande literato Vargas Llosa que recordo vezes sem conta: “A literatura é uma das formas mais eficazes de luta contra o espírito de submissão”. Sem a literatura, tornamo-nos joguetes — e nada atesta melhor esta verdade do que a recorrente perseguição que os diversos regimes teocráticos, autoritários ou totalitários sempre fizeram questão de exercer. Alguém dizia com graça — não me recordo exatamente quem foi — que a Inquisição espanhola foi o primeiro crítico literário do mundo. Tem graça por ser tão verdadeiro, não concordam?
Mas creio que a literatura sairá vencedora. Sempre o fez. Quem não se recorda do final de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde a resiliência humana resiste à opressão através da memória literária? Numa recente entrevista ao Público, Enrique Vila-Matas, quando questionado sobre se o seu novo livro, Cânone da Câmara Escura, se enquadrava como metaliteratura, respondeu categoricamente que não, porque tudo no mundo é literatura.
A realidade poderia muito bem aprender com a ficção. A literatura é o espelho do mundo, obriga-nos a ver o que não queremos. À nossa volta há um estado permanente de magia, um fogo literário que aquece as fornalhas do pensamento. No meu entender, tudo o que nos rodeia pode-se transmutar em literatura, desde que a histeria do pensamento não se converta em silêncio da voz. O grande escritor Javier Marías explicava numa entrevista que via as horas através da forma como o seu caixote do lixo se ia enchendo ao longo do dia, assinalando a iteração manhãs, tardes e noites. Que forma tão poética de pegar em algo tão trivial e desinteressante, e transformá-lo num pedaço memorável de literatura reflexiva.
Termino com Mallarmé, com uma frase que passou a habitar os meus dias: “Eventualmente, tudo no mundo acaba num livro”.























































































































