Há qualquer coisa de profundamente enternecedora — e, ao mesmo tempo, inquietante — na imagem de um labrador retriever que responde ao chamamento não por dever, mas por apetite. Não se trata de um cão qualquer, mas de uma das raças mais celebradas pela sua docilidade, previsibilidade e, sobretudo, pela sua extraordinária treinabilidade. O labrador não obedece apenas: antecipa, aprende, adapta-se. E fá-lo, quase sempre, com um entusiasmo que parece vir do estômago.
Ora, a ciência — essa senhora que gosta de vestir bata branca para dizer coisas desconfortáveis — há muito que nos explica que o reforço positivo funciona melhor do que o castigo. Desde os trabalhos de B. F. Skinner sobre condicionamento operante até às modernas abordagens da psicologia comportamental, sabemos que um organismo tende a repetir comportamentos que lhe trazem recompensa. No caso dos labradores há até estudos genéticos que sugerem uma maior propensão para o apetite — uma espécie de “fome estrutural” que os torna particularmente sensíveis à recompensa alimentar.
Mais apetite, maior motivação; maior motivação, maior treinabilidade. Daí que os cães-guia sejam frequentemente labradores. Não basta serem dóceis; é preciso que sejam interessados — interessadíssimos, até — na recompensa certa, no momento certo. Um cão indiferente à bolacha é, paradoxalmente, um cão menos útil. A fome, afinal, é uma forma de atenção. E aqui começa o desconforto.
Porque se substituirmos “labrador retriever” por “indivíduo” e “recompensa” por “benefício”, entramos num território que não é apenas zoológico, mas profundamente político. A psicologia social, com a sua vocação ligeiramente cínica, já demonstrou que a dependência — económica, emocional ou simbólica — reforça a adesão a grupos e instituições. Quanto maior o custo de saída, maior a racionalização da permanência.
Em bom português: quanto mais precisamos, mais ficamos — e mais defendemos. Não é amor; é adaptação.
Nas organizações partidárias, nas associações, nas estruturas que prometem pertença e distribuem pequenas recompensas — lugares, favores, reconhecimento — instala-se uma lógica curiosamente semelhante à do treino canino. Não se exige apenas competência; valoriza-se a disponibilidade para responder ao estímulo certo. O indivíduo gordinho (metaforicamente falando) — aquele que tem mais necessidades, mais vulnerabilidades, mais apetites — é também aquele que melhor aprende a alinhar, a repetir, a não morder a mão que alimenta.
Há, aliás, uma dimensão quase teológica nesta relação. A dependência cria uma espécie de fé prática: não uma crença no transcendente, mas na continuidade da providência. O membro fiel não precisa de compreender o sistema; basta-lhe confiar que, se obedecer, será recompensado. É uma versão laica da graça: não se conquista, recebe-se — desde que se esteja no lugar certo, com a atitude certa.
E como em todas as teologias, há heresias. O indivíduo que deixa de ter fome — que se torna economicamente autónomo, psicologicamente seguro, socialmente independente — torna-se também menos previsível. Já não responde tão prontamente ao chamamento, já não abana a cauda com a mesma convicção. É, por isso, menos útil. A autonomia, neste contexto, é quase um defeito de carácter.
O que nos leva a uma hipótese desconcertante: e se as organizações, conscientes ou não, tenderem a preferir membros ligeiramente carentes? Não miseráveis — isso seria impraticável — mas suficientemente dependentes para valorizar a recompensa. Uma espécie de equilíbrio delicado entre fome e funcionalidade.
Não é preciso invocar conspirações; basta reconhecer padrões. A ciência política fala de clientelismo, a sociologia de capital social, a psicologia de reforço e dependência. Mudam os nomes, mantém-se a lógica: a lealdade cresce onde a necessidade persiste.
E no meio disto tudo, o labrador retriever continua a olhar para o dono com aquela devoção que nos comove. Não porque seja nobre, mas porque é eficaz. Porque, no fundo, todos percebemos que há qualquer coisa de profundamente humano nesse olhar: a esperança de que, ao obedecer, sejamos dignos da próxima recompensa. Talvez seja isso que mais nos perturba. Não é a comparação com o cão; é o reconhecimento.
Afinal, quantos de nós não aprendemos já a sentar?
Referências
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York, NY: Macmillan.
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. Stanford University Press.
Cialdini, R. B. (2009). Influence: Science and practice (5th ed.). Pearson.
Raffan, E., Dennis, R. J., O’Donovan, C. J., et al. (2016). A deletion in the canine POMC gene is associated with weight and appetite in obesity-prone Labrador retrievers. Cell Metabolism, 23(5), 893–900.
Kitschelt, H., & Wilkinson, S. I. (2007). Patrons, clients, and policies: Patterns of democratic accountability and political competition. Cambridge University Press.
Weber, M. (2002). The Protestant ethic and the spirit of capitalism (T. Parsons, Trans.). Routledge. (Original work published 1905)































































































































