Enquanto estudante de psicologia, entusiasta da promoção da ciência junto do público geral e uma “nerd” em relação a políticas públicas, tenho vindo a debruçar-me sobre o nosso papel enquanto pessoas detentoras de algum tipo de conhecimento técnico no mundo e na sua construção.
Principalmente, quando este conhecimento pode ir de encontro ao status quo, à nossa visão do que pode ser a realidade e das soluções que nos parecem mais adequadas.
Já falei aqui de dissonância cognitiva, por isso passaremos essa questão à frente.
Num mundo cada vez mais polarizado, é difícil não associar, imediatamente, um discurso a uma ideologia ou evitá-lo por ser considerado “política”. Uma situação que também vai sendo reforçada pelo ritmo incessante a que recebemos informação que não conseguimos processar de forma adequada.
Esta associação, apesar de nem sempre adequada no âmbito dos significados que atribuímos a estas palavras ou ideias, não está, de todo, incorreta. Sim, o conhecimento técnico também se encaixa no discurso político porque o discurso político é uma pequena parte da “máquina decisora”.
Idealmente, estaríamos a criar políticas públicas baseadas unicamente em evidência científica, não necessitando deste mecanismo que nos parece tão complicado e que nem sempre escolhe de acordo com o conhecimento produzido. O aparelho político, estando intrinsecamente ligado com a formalização de políticas e a sua execução, gere, para além de recursos dos mais variados tipos, também interesses das pessoas que as concretizam. Somos humanos e os seres humanos querem olhar pelo seu próprio bem estar e nem sempre escolhem com ideias de maximização ou otimização em mente[1].
Esta componente humana interfere também diretamente na hierarquização das nossas prioridades. Vão decidindo o que é mais urgente e a melhor opção resolutiva “que está na mesa”. Pasme-se que esta componente, tanto quanto humana, é também falível. Imaginemos, então, todas estas condições com a facilidade com que agora se pode criar todo o tipo de informação e echo chambers e temos a receita perfeita para sentimentos de descrença e desesperança no maior mecanismo decisor que temos em democracia [2].
Voltemos então ao nosso papel como pessoas que trabalham com ciência. Sem entrar numa falácia de autoridade, creio que é importante, cada vez mais, tornar este conhecimento acessível ao público geral. Uma pessoa informada (bem informada) terá sempre mais ferramentas para decidir melhor e, também, entender mecanismos de opressão e injustiça a que possa estar sujeita. Mas e quando este exercício de comunicação passa a ser político? Será ético um técnico aproximar-se destes mecanismos? E que impacto pode isso ter na vida das pessoas com quem trabalha e na sua?
Bem, para responder a estas perguntas que exponho aqui usarei a minha palavra favorita: Depende. Como disse acima, é muito complicado separar os dois. Em vários momentos da história tivemos questões controversas que agora estão normalizadas, mas isso não quer dizer que o papel dos técnicos foi neutro. Porque é, de facto, importante combater a desinformação e entender a realidade como um todo. Aqui, ao entender também as limitações científicas e falando abertamente sobre elas, estamos a contribuir para um mundo melhor. Estamos a combater estes mecanismos de desinformação e a trazer à tona a evidência científica que, por muito falível que seja, está mais próxima de uma observação imparcial que as nossas crenças, opiniões e valores[3].
Pode então um técnico aproximar-se de um discurso político? Eu diria que é difícil não o fazer. Um técnico de saúde que enfatize o papel das determinantes sociais de saúde[4] na sua prática estará, mesmo sem uma vontade consciente, a aproximar-se de um discurso político. Mesmo que não o queira, todas estas questões estão sempre na ordem do dia de partidos, e de outros agentes políticos, porque impactam diretamente a nossa vida. No entanto, é natural que isto levante outras barreiras, como um estigma associado a condutas de personalidades de certa posição política.
Devemos então evitar estes assuntos e não os endereçar nas nossas práticas? Não creio. Até porque isso seria prejudicar o escopo da nossa agência e a análise holística de situações que não acontecem num vácuo e fazem parte desta matriz hiper complexa a que chamamos sociedade.
Acredito que o nosso papel como agentes científicos é combater esta resistência e prover fontes de informação credíveis e transparentes para combater todos estes problemas discutidos acima.
Posto isto, não fazendo da minha “classe” uma autoridade ou pondo-a num lugar “mais próprio” que outro, partilho convosco estes pensamentos do que acho que deve ser o nosso contributo fora do nosso meio e de contributo para uma real democratização do conhecimento.
Para aprofundar:
[1] D. Kahneman and A. Tversky, “Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk,” Econometrica, vol. 47, no. 2, pp. 263–291, 1979.
[2] D. J. Flynn, B. Nyhan, and J. Reifler, “The Nature and Origins of Misperceptions: Understanding False and Unsupported Beliefs About Politics,” Polit. Psychol., vol. 38, no. S1, pp. 127–150, Feb. 2017, doi: 10.1111/pops.12394.
[3] A. M. Haeny, “Ethical Considerations for Psychologists Taking a Public Stance on Controversial Issues: The Balance Between Personal and Professional Life,” Ethics Behav., vol. 24, no. 4, pp. 265–278, Jul. 2014, doi: 10.1080/10508422.2013.860030.[4] World Health Organization: WHO. (2019, May 30). Social determinants of health. https://www.who.int/health-topics/social-determinants-of-health#tab=tab_1

























































































































