Um estudo publicado na prestigiada revista científica The Lancet (2025)1 estima que existam atualmente 10,4 milhões de mortes por cancro (excluindo pele não-melanoma), revelando um aumento de 74% desde 1990. Após várias pesquisas, e sendo eu investigador na biologia do envelhecimento e doenças crónicas, surpreendeu-me que ninguém tenha sequer mencionado um temível e emergente cancro, potencialmente tão letal como o do pulmão, que reclama cerca de 2 milhões de mortes por ano.Esse, caro leitor, esse maldito cancro, tem por nomenclatura: Trumpoma.
Fontes moleculares próximas têm demonstrado que o Trumpoma obedece a vários mecanismos e critérios estabelecidos que ajudam a classificá-lo como tal. Assim, nesta pequena crónica enumerarei apenas alguns, os mais gritantes, aqueles que demonstram todo o seu potencial nefasto. Primeiro critério: grande parte dos cancros têm a capacidade de expelir compostos nocivos (ex.: fatores inflamatórios/propagandísticos)2 3que os ajudam a crescer por competição direta com células não-cancerígenas do hospedeiro; ora, o Trumpoma faz exatamente isto. Verborreico, o Trumpoma dispara vernáculo altamente inflamatório. Descobri-o, após consultar bibliografia abrangente (ver abaixo: Sinclair Lewis e Gonçalo M. Tavares), que o Trumpoma é pródigo em libertar fatores pró-inflamatórios em forma de slogans-parasita tais como “vamos fazer este organismo grande novamente” que são capazes de se depositar em células distantes como neurónios. Ou, por vezes, afirmando que outro tipo de células – por exemplo de outros tecidos, a que vulgarmente chamamos de células imigrantes – andam a desviar micronutrientes, ou por outras palavras, e traduzindo para o leitor mais distraído: que as células imigrantes “andam a comer os seus animais de estimação”. O resultado desta propagação inflamatória tem duas consequências claras. A primeira é o início do próprio processo inflamatório que posteriormente se expande pelo órgão primário; a segunda é a irremediável divisão entre as várias populações celulares, oscilando entre as que se mostram indiferentes ao processo, beneficiando até – como células rígidas, cognitivamente inflexíveis (como descreveu Leor Zmigrod no seu livro O Cerébro Ideológico)4, que se reveem na pérfida atividade – e outras que, por outro lado, sofrem horrores quando se apercebem que as fontes de riqueza, como o fluxo de nutrientes e oxigénio, correm essencialmente para quem promove o crescimento exponencial do egocêntrico e macromaníaco Trumpoma.
A este processo de redirecionamento da riqueza chama-se neoangiogénese (angio- do grego aggeîon, que significa “vaso”, e -génese do grego génesis, que significa “origem”, “produção” ou “formação”: traduz-se para qualquer coisa como criação de novos vasos), ou, como eu habitualmente designo: neoliberalismo fascizante; os recursos são explorados ao máximo, em toda a parte, embora seja claro que 99% da população – a classe de células trabalhadora como, por exemplo, hepatócitos e podócitos, que todos os dias desintoxicam e filtram as “ruas” – detenham apenas 10% do capital global do organismo. Ao invés, a longo prazo, o Trumpoma estabelece que 1% das suas células-clone, detenham 90% da riqueza total do órgão em causa, conduzindo ao empobrecimento e embrutecimento do organismo como um todo (como alertou Thomas Piketty no seu livro Pelo Socialismo!). Enriquecer pouquíssimos e empobrecer os restantes nunca funcionou como estratégia evolutiva de um organismo. Mais especificamente, o resultado é assumidamente catastrófico: um acentuado separatismo tecidular entre células de diferentes classes, motivando, como de resto se tem verificado, a subjugação das classes celulares mais desfavorecidas à malnutrição, disfunção ou necrose – ou, noutros termos, fome, doença e mortalidade precoce.
Segundo critério: aqui chegamos ao segundo mecanismo, que dá ainda mais força à classificação do Trumpoma como um cancro maligno; o seu total desrespeito pelas fronteiras. Vejamos como o Trumpoma quebra as fronteiras orgânicas: inicia-se pela invasão local, como descrito acima, mas, quando cresce, decide infiltrar-se nos tecidos e órgãos adjacentes, ignorando as barreiras biológicas da lei internacional; simplesmente porque deseja mais recursos, para que possa crescer e crescer…
A disseminação do Trumpoma primário tem o nome de Trumpástase. Assim, não contente com a riqueza e poderes acumulados no órgão de origem, as células cancerígenas do Trumpoma desprendem-se do tumor principal e viajam através da corrente sanguínea ou do sistema linfático (outros nomes: água, ar, terra ou internet), instalando-se em órgãos distantes. Ao colonizar novos locais (como ossos, pulmão, fígado, Venezuelas, Gronelândias ou Lajes), as células formam tumores secundários, assimilando as características do local de origem.
O organismo rapidamente se converte num conjunto de cancros, levando ao empobrecimento, à perda de resiliência, ao enfraquecimento por populismos e imperialismos, que colocam todo o organismo numa rota de apodrecimento. Nós – e não me refiro apenas a cientistas, mas a todos que queiram ter uma voz ativa na sociedade – teremos de redescobrir terapêuticas mais avançadas, mais humanistas, mais pluralistas, algo verdadeiramente eficaz contra todos os Trumpomas, para que possamos reivindicar: “um organismo homeostático novamente”.
Recentemente, li duas obras ilustrativas da biologia do Trumpoma: Sinclair Lewis (Isto Não Pode Acontecer Aqui)5 e a tremenda epopeia de Gonçalo M. Tavares (O Fim dos Estados Unidos da América)6; foram como bisturi e microscópio que me ajudaram a dissecar o organismo, e a vê-lo por um ângulo que até agora me era desconhecido.Mas por agora, caro leitor, o diagnóstico é claro:
– Lamento, mas é maligno.
Referências
- The global, regional and national burden of cancer,1990-2023, with forecasts to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. Lancet 406, 1565-1586 (2025) ↩︎
- L. M. Coussens, Z. Werb, Inflammation and cancer. Nature 420, 860-867 (2002) ↩︎
- J. P. Castro et al., Age-associated clonal B cells drive B cell lymphoma in mice. Nature Aging 4, 1403-1417 (2024). ↩︎
- Leor Zmigrod. O Cérebro Ideológico. D. QUIXOTE, 2 Sept. 2025. ↩︎
- Lewis, Sinclair. Isto Não Pode Acontecer Aqui. D. QUIXOTE, 1 Oct. 2017. ↩︎
- Tavares, Gonçalo M. O Fim Dos Estados Unidos Da América. Relógio D’Água. 2025. ↩︎
















































































































