Celebrar o Dia da Mulher no século XXI implica coragem. Coragem para sair da narrativa confortável das flores e das homenagens simbólicas e entrar numa discussão estrutural: o que acontece à mulher quando ela envelhece?
Vivemos numa sociedade que continua a medir o valor feminino a partir de três eixos centrais: juventude, beleza e reprodutividade. A mulher é celebrada enquanto promessa de fertilidade, de cuidado e de produtividade. Mas quando o corpo atravessa a menopausa, quando a maternidade não acontece por escolha ou circunstância, quando a carreira abranda ou quando a reforma chega, algo inquietante sucede: a mulher deixa de caber na narrativa dominante.
Torna-se invisível.
O idadismo, conceito amplamente estudado desde que Robert Butler o definiu, em 1969, manifesta-se de forma particularmente severa no feminino. Se o envelhecimento masculino é frequentemente associado à experiência, estatuto e maturidade, o feminino é associado à perda: perda de atratividade, de fertilidade, de relevância social. A mulher envelhece e, com isso, é simbolicamente desvalorizada.
A menopausa, por exemplo, continua a ser tratada como um problema clínico a silenciar e não como uma transição biográfica estruturante. Pouco se fala da ausência de preparação emocional e social para esta etapa. Pouco se fala do impacto psicológico da cessação da função reprodutiva numa cultura que ainda associa valor feminino à capacidade de gerar vida. E menos ainda se fala da sexualidade após os 50 anos, como se o desejo tivesse prazo de validade.
Mas a sexualidade feminina não termina com a fertilidade. Termina, muitas vezes, com o preconceito.
A mulher madura enfrenta uma dupla penalização: é discriminada pela idade e pelo género. No mercado de trabalho, a partir de determinada faixa etária, é vista como menos adaptável, menos produtiva, menos inovadora. Na esfera social, é empurrada para o papel exclusivo de cuidadora dos pais, dos netos, do marido, frequentemente sem que o seu próprio projeto de vida seja questionado ou validado.
E quando chega a reforma? Para muitos homens, representa o culminar de uma identidade profissional. Para muitas mulheres, representa uma transição silenciosa, raramente acompanhada por processos estruturados de preparação psicológica, redirecionamento de propósito ou redefinição identitária. A mulher reformada corre o risco de se tornar socialmente descartável numa cultura obcecada pela produtividade.
Este cenário exige uma reflexão que ultrapassa rótulos ideológicos. Não se trata apenas de feminismo; trata-se de justiça social, de saúde pública e de dignidade humana.
É urgente desconstruir a ideia de que o valor da mulher está condicionado à sua utilidade biológica ou económica. É urgente reconhecer que há mulheres que escolhem não ser mães, e que essa escolha não diminui a sua contribuição social. É urgente legitimar o direito à autonomia corporal, à sexualidade em todas as idades e à construção de trajetórias não normativas.
A longevidade feminina aumentou significativamente nas últimas décadas. Em países como Portugal, as mulheres vivem, em média, mais anos do que os homens. Contudo, viver mais não significa viver melhor. Muitas atravessam a segunda metade da vida acumulando desigualdades económicas, sobrecarga de cuidados e invisibilidade social.
Celebrar o Dia da Mulher implica, portanto, falar da mulher aos 60, aos 70, aos 80. Implica questionar por que razão a sociedade continua a romantizar a juventude feminina e a temer a sua maturidade. Implica reconhecer que envelhecer não é falhar, é resistir.
A mulher que envelhece não é uma versão diminuída daquilo que foi. É uma identidade em transformação. É memória, é experiência, é desejo, é reinvenção.
Se quisermos verdadeiramente honrar as mulheres, teremos de começar por garantir que nenhuma se sente inútil.


















































































































