A produção Frankenstein, de Guillermo del Toro (2025), alcançou cerca de trinta milhões de espetadores em apenas três dias, confirmando a expectativa que, invariavelmente, acompanha os lançamentos do cineasta mexicano. Obras como Pinóquio (2022), o seu projeto anterior e igualmente celebrado, consolidaram uma assinatura autoral marcada pela capacidade singular de insuflar humanidade às figuras historicamente relegadas à monstruosidade.
Por detrás do espetáculo imagético, as obras de del Toro escondem e revelam questões humanas por excelência, como o abandono, o desejo de pertença e a falência das relações fundantes. É a partir dessa releitura do Prometeu Moderno que se propõe uma reflexão sobre paternidade, responsabilidade e amor, num cenário contemporâneo marcado tanto pelo abandono paterno como pela busca desesperada de identidade masculina em comunidades que, em vez de acolher, incitam frequentemente o ódio, o repúdio e a infantilização do afeto.
Por que razão Frankenstein ainda nos convoca? O que diz este sucesso sobre nós? Em Pinóquio e Frankenstein, a paternidade não surge como gesto idealizado, mas como experiência falha, atravessada pela culpa, pelo medo e pela incompletude. Ainda assim, trata-se de uma paternidade implicada, de uma relação que, mesmo imperfeita, se sustém no vínculo. Del Toro parece insistir na ideia de que não é o ato da criação que humaniza, mas a aceitação, o estar presente, o ver, o responder pelo outro.
Essa poética encontra um ponto de condensação visual e simbólica na escolha estética que orienta o corpo da criatura. Del Toro recorre à imagem da célebre escultura São Bartolomeu Esfolado, de Marco d’Agrate (1562), na qual o santo carrega a própria pele como um manto, expondo músculos, nervos e carne viva. A referência não é ornamental. Trata-se de um corpo sem proteção, privado da pele que o separa do mundo, verdadeiramente nu. A ausência de pele não é apenas horror anatómico, mas uma metáfora radical da vulnerabilidade. A criatura nasce sem defesas simbólicas, sem mediações sociais, sem o abrigo do olhar paterno. Antes de ser monstruoso, é um corpo ferido, mutilado e múltiplo.
Esse corpo vulnerável constrói-se em contraste direto com Victor Frankenstein. Figura paradigmática do Prometeu Moderno, Victor é movido por uma sede inesgotável de superar aquilo que há de mais fatídico na experiência humana, a morte. Ao contrário do mito grego, o desejo deste Prometeu de roubar aos deuses o segredo da vida não nasce do amor à humanidade, mas da vaidade.
Como pai e como criador, é rude, violento e coloca-se numa posição de superioridade moral diante da própria criatura. Incapaz de se reconhecer nela, reage com repulsa, medo e ciúme. O seu gesto inaugural não é o nascimento, mas o abandono. Dá o sopro da vida, mas recusa-se a oferecer companhia.
Em oposição, a criatura revela o medo da solidão e a necessidade radical de pertença. Lançada ao mundo sem nome, sem espelho e sem laço, não se reconhece nos outros, nem é reconhecida. A sua vida é marcada pela dor, entrecortada por breves pausas de felicidade, como a alfabetização junto do velho cego, aquele que vê com o coração. É ali que aprende palavras, histórias e mundos possíveis. É ali que compreende que a humanidade não reside na forma, mas na relação.
Essa ferida relacional encontra a sua origem em Frankenstein, ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley. Publicado no início do século XIX e escrito por uma mulher num campo literário dominado por homens, o romance nasce já como gesto disruptivo. Não se trata de uma fábula científica sobre os perigos da tecnologia, mas de uma crítica moral profunda à masculinidade que deseja criar sem cuidar. Shelley inaugura uma reflexão radical sobre paternidade, orfandade compulsória e sobre o argumento mais fatal do fracasso do livre-arbítrio, ninguém escolhe nascer. A criatura nasce condenada à existência. A sua violência não é originária, mas aprendida na experiência sistemática da rejeição.
Essa leitura ganha materialidade quando confrontada com a realidade contemporânea. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Direito de Família, apenas em 2024 mais de noventa e uma mil crianças foram registadas no Brasil sem o nome do pai, número que se soma a um acumulado superior a um milhão, duzentos e oitenta mil registos desde 2016. Em paralelo, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam o crescimento consistente de lares monoparentais femininos, com milhões de mulheres a criarem filhos, sozinhas.
Em Portugal, embora a estatística não seja apresentada nos mesmos moldes, os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam transformações profundas nas estruturas familiares, associadas a uma das mais baixas taxas de fecundidade da Europa, sinalizando rearranjos significativos nos vínculos parentais.
O cuidado, historicamente atribuído às mulheres, continua a ser tratado como responsabilidade feminina, enquanto muitos homens permanecem afastados de uma ética do cuidado. É nesse vazio afetivo que proliferam comunidades masculinistas e redpill, tanto no Brasil como em Portugal, reunindo milhares de seguidores em plataformas digitais. Esses espaços prometem identidade, força e pertença, mas operam frequentemente pela via do ressentimento, da recusa da vulnerabilidade e da infantilização do afeto. Não se trata de monstros à margem da sociedade, mas de criaturas produzidas por ela, filhos de uma cultura que ainda confunde poder com ausência de responsabilidade emocional.
Ao retomar Frankenstein, Guillermo del Toro não apaga essa origem trágica. Pelo contrário, amplifica-a e desloca-a. A sua adaptação sugere que a verdadeira herança do mito não reside no horror, mas na possibilidade, ainda que tardia, de humanização. Nesse deslocamento, o Prometeu Moderno deixa de ser herói e torna-se advertência. Criar é um ato ético antes de ser técnico. A recusa da responsabilidade afetiva, ontem como hoje, permanece o gesto mais monstruoso de todos.













































































































