No princípio não foi a palavra.
Foi o silêncio.
Durante cerca de 13,8 mil milhões de anos, o universo expandiu-se sem pedir opinião a ninguém. Depois, há 4,54 mil milhões de anos, a Terra apareceu — não como pátria, nem como bandeira, mas como acidente cósmico. A vida demorou. Insistiu. Errou. Tentou outra vez. Foram precisos mais de 3 mil milhões de anos até surgirem criaturas suficientemente complexas para perguntar “quem somos?”. E só há cerca de 300 mil anos apareceu o Homo sapiens, essa espécie curiosa que tanto constrói catedrais como campos de extermínio.
Os macacos — nossos primos evolutivos — são frequentemente usados por racistas e supremacistas brancos como insulto. É uma ironia trágica: desprezam nos outros aquilo que carregam no próprio ADN. A ciência chama-lhe evolução. O ódio chama-lhe outra coisa qualquer, geralmente gritada. É neste intervalo infinitesimal da história do universo — este piscar de olhos cósmico — que Portugal escolhe um Presidente da República. E escolhe entre visões do mundo.
António José Seguro representa algo cada vez mais raro: a política como exercício de contenção. Não é um homem de frases assassinas nem de punhos cerrados. É, antes, um político moldado na ideia — quase antiga — de que a democracia não é uma guerra, mas um processo civilizacional. Os seus pontos fortes não são espetaculares. E talvez seja isso que os torna perigosos para quem vive do espetáculo.
Seguro fala para o tempo longo. Para a estabilidade institucional, para a mediação entre diferenças, para a ideia de que o conflito social não se resolve com megafones, mas com regras.
Num mundo politicamente darwinizado — onde só sobrevive quem grita mais alto — Seguro parece quase um anacronismo. Mas a democracia, convém lembrar, não é um reality show. É um contrato evolutivo entre pessoas que aceitam não se destruir mutuamente.
André Ventura é outra coisa. Não porque seja novo — o fenómeno é velho — mas porque corporiza um padrão político bem estudado. Cientificamente, o seu discurso encaixa no que a ciência política e a psicologia social chamam populismo afetivo: simplificação extrema da realidade, criação de inimigos difusos (“eles”), exploração sistemática do medo e da indignação moral.
O argumento é errático porque não precisa de coerência; precisa de emoção. O discurso oscila entre moralismo punitivo e vitimização estratégica. Hoje é o povo traído. Amanhã é o líder perseguido. Sempre há um inimigo conveniente: imigrantes, elites, jornalistas, juízes — a lista adapta-se ao ciclo noticioso. Do ponto de vista político, isto não é força. É fragilidade cognitiva institucionalizada.
E há mais: quando o discurso se aproxima do ódio e da insinuação constante de corrupção sem prova estrutural, não estamos perante uma crítica ao sistema. Estamos perante uma tentativa de deslegitimação do próprio conceito de verdade democrática. Se tudo é corrupção, nada precisa de ser demonstrado. Se tudo é ameaça, qualquer autoritarismo parece razoável.
É assim que democracias envelhecem mal. A escolha não é entre esquerda e direita. É entre civilização e regressão emocional. António José Seguro fala como quem acredita que a humanidade ainda está a aprender a ser humana. André Ventura fala como quem acredita que a humanidade falhou — e precisa de um castigo. Num planeta com 4,5 mil milhões de anos, o ódio racial é uma ideia recente e biologicamente absurda. Mas continua a ser politicamente útil para quem transforma frustração em capital eleitoral, fronteiras em muros.
A presidência da República não é um altifalante. É um relógio. E a pergunta final não é “quem fala mais alto?”, mas: quem está à altura do tempo que demorou a chegar até nós? Talvez a verdadeira evolução política seja essa: perceber que gritar não nos torna mais fortes. Apenas mais primitivos.
E disso, o universo — silencioso e antigo — já viu o suficiente.






















































































































