Quando decidimos olhar para o futuro do trabalho e das relações laborais, enquadramos sempre as nossas hipóteses numa estrutura conhecida: a dicotomia entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores. Fazemo-lo porque esse enquadramento esteve presente na maioria da nossa história.
Nesse enquadramento, os meios de produção e os trabalhadores lutam entre si, em versões do pensamento político, ou cooperam entre si, noutras visões, mas de qualquer forma, limitam a nossa imaginação sobre as possibilidades de futuro.
Neste momento em que a nossa relação com o trabalho terá que mudar, fruto do progresso da inteligência artificial generativa, a nossa imaginação condicionada por esse enquadramento não nos permite repensar o trabalho. Em consequência disso, o medo apodera-se dos trabalhadores, um medo alimentado pela incerteza, pela precarização e pela concentração de riqueza e meios de produção, sobretudo na área tecnológica.
No entanto, quase nunca se discute que se a automatização aumentar a produtividade, liberta tempo humano que pode ser reaproveitado. Para produzir mais com o mesmo tempo ou para produzir o mesmo trabalhando menos horas, mantendo ou reforçando os rendimentos e aumentando a qualidade de vida, desde que os ganhos de produtividade sejam partilhados.
Esta é uma escolha coletiva que podemos fazer, se garantirmos que a produtividade adicional se converte em menos horas de trabalho, e não apenas em mais remuneração do capital.
Sempre que digo às pessoas que, se as tarefas que fazem forem automatizadas em 50%, a solução mais óbvia seria aproveitar esse tempo para tarefas não automatizáveis e, ao mesmo tempo, aumentar o tempo pessoal, reduzindo as horas de trabalho. Não estou a propor uma utopia, mas sim uma solução plausível. Esta solução, longe de ser uma revolução, manteria os detentores de capital e os trabalhadores com os mesmos, senão mais, rendimentos.
Um futuro diferente é sempre possível, mas, para tal, temos que aprender a soltar as amarras que nos mantêm presos às perguntas de sempre. Se a automatização nos oferece mais produtividade com menos trabalho humano, devemos garantir que isso resulta em mais tempo e mais dignidade para todos.
Não podemos ficar subordinados às máquinas e a quem as controla. Devemos governar esta transição, para que nos leve à liberdade e não à dependência.























































































































