19/01: a segunda que se chama Blue Monday

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No dia 19 de Janeiro de 2026, Portugal acorda oficialmente triste. Não porque algo de particularmente grave tenha acontecido nesse dia — mas porque alguém, algures entre uma fórmula matemática duvidosa e uma boa ideia de marketing, decidiu que esta segunda-feira é a Blue Monday, o “dia mais triste do ano”. Antes que alguém pense o contrário, não é ressaca eleitoral. É só segunda-feira.

E nós aceitamos. Com uma estranha gratidão, até. Finalmente, um dia específico para nos sentirmos mal sem culpa.

A Blue Monday é apresentada como campanha de consciencialização para a saúde mental. E atenção: falar de saúde mental é importante. O problema começa quando tentamos organizar a tristeza com a mesma lógica com que organizamos promoções ou datas comemorativas. Como se o humor humano obedecesse ao calendário gregoriano.

Mas há algo de profundamente contemporâneo — e profundamente revelador — nesta necessidade de dar nome, data e hashtag à melancolia. É o mesmo impulso que nos leva a dizer: “não estou triste, estou deprimido”, “não estou nervoso, estou ansioso”, “não estou cansado, estou em burnout”. Chamemos-lhe pelo nome certo: o novo analfabetismo emocional.

A psicologia diz-nos — e diz bem — que dar nome às emoções ajuda a organizá-las cognitivamente. O cérebro gosta de rótulos. Reduz a incerteza. Acalma. O problema é que rotular não é regular.

Na Blue Monday, toda a gente sabe o que sente. O que ninguém sabe muito bem é o que fazer com isso depois de desligar o computador. Do ponto de vista neurocientífico, isto é quase caricato. A tristeza, tal como a ansiedade, é um estado emocional funcional. Evoluiu para nos fazer parar, refletir, conservar energia, reavaliar rumos. Não foi feita para ser evitada a todo o custo, nem para ser explicada até à exaustão — foi feita para ser sentida, atravessada e, eventualmente, transformada.

Mas nós, modernos e informados, preferimos compreender a tristeza a senti-la. E se possível, senti-la só um bocadinho. De preferência com aviso prévio. Se for num dia específico do ano, ainda melhor. A Blue Monday dá-nos isso: uma tristeza higienizada. Socialmente aceite. Temporária. Uma tristeza que cabe numa campanha.

O problema é que o cérebro não funciona assim. A emoção não obedece a cronogramas. O sistema límbico não sabe que hoje é segunda-feira nem que alguém decidiu que este é o dia mais triste do ano. Ele reage ao que sente como ameaça, perda, frustração ou incerteza — e essas coisas não marcam hora.

É por isso que tantos portugueses dizem sentir-se exaustos sem saber exactamente porquê. Não é só trabalho. Não é só dinheiro. Não é só política. É o esforço constante de evitar sentir o que, inevitavelmente, se sente. A psicologia clínica sabe isto há décadas: evitar emoções aumenta a sua intensidade. Fingir que passam mais depressa só as faz ficar mais tempo. E aqui está o paradoxo delicioso da Blue Monday: ao tentar normalizar a tristeza, ensinamos subtilmente que ela deve ser contida num único dia. Como se nos outros fosse falta de educação emocional.

Talvez por isso tanta gente se sinta estranhamente pior depois de tanta consciencialização. Fala-se mais, partilha-se mais, publica-se mais — mas regula-se menos. O cérebro aprende por experiência repetida, não por slogans bem-intencionados. Sentir tristeza exige tempo, silêncio e uma certa coragem afetiva. Três coisas que escasseiam mais do que serotonina em janeiro.

E, no entanto, há algo de profundamente humano neste desejo de marcar a tristeza no calendário. Revela o quanto precisamos de autorização para parar. Para falhar. Para não estar bem. Para admitir que o ano começou e ainda não sabemos muito bem o que fazer com ele — nem connosco.

Talvez o problema não seja a Blue Monday em si. Talvez o problema seja precisarmos de um dia oficial para legitimar aquilo que faz parte da condição humana. Porque a verdadeira literacia emocional não está em saber que hoje é o dia mais triste do ano. Está em saber que a tristeza não tem dia marcado — e que isso não é uma falha. É um sinal de que estamos vivos, atentos, em adaptação.

E isso, infelizmente, não cabe numa campanha.
Cabe na vida.
E a vida, como sabemos, raramente escolhe uma segunda-feira específica para nos ensinar o que quer que seja.

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Psicólogo Clínico / Neuropsicólogo

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