Enfermagem ao domicílio

"Importa, assim, desconstruir a ideia de que o enfermeiro que presta cuidados ao domicílio possui menor competência ou relevância profissional. Pelo contrário, estes profissionais são frequentemente chamados a tomar decisões de forma autónoma, muitas vezes sem apoio médico imediato [...]"

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No âmbito da Enfermagem existem múltiplas áreas de atuação que vão desde o contexto hospitalar até, por exemplo, à área da estética, evidenciando a abrangência e a versatilidade da profissão. Entre estas áreas, os cuidados de saúde ao domicílio assumem um papel de extrema relevância, ainda que continuem a ser, em muitos contextos, desvalorizados e insuficientemente estruturados ao nível de fundamentação teórica e de processos organizacionais. No entanto, a evidência científica tem vindo a demonstrar que os cuidados domiciliários representam uma resposta essencial e sustentável para o futuro dos sistemas de saúde.

A progressiva descentralização dos cuidados hospitalares e o abandono de uma visão estritamente “hospitalocêntrica” constituem objetivos amplamente discutidos nas políticas de saúde, embora a sua operacionalização ainda esteja limitada. Os cuidados prestados no domicílio configuram uma abordagem mais humanizada e próxima, centrada na pessoa e no seu bem-estar global, contribuindo para uma melhoria significativa da qualidade de vida e para a promoção da dignidade no cuidar.

A prestação de cuidados em contexto domiciliário permite, entre outros benefícios, a redução do número de internamentos hospitalares, a diminuição do risco de infeções associadas aos cuidados de saúde e a garantia de um acompanhamento mais personalizado e contínuo. Neste sentido, os cuidados ao domicílio constituem uma estratégia eficaz na promoção da saúde, na prevenção da doença e na gestão da condição crónica.

Apesar disso, a perceção que ainda prevalece sobre os cuidados domiciliários permanece, em muitos casos, obsoleta, verificando-se igualmente alguma dificuldade por parte dos profissionais de saúde em compreender o seu papel e integração nesta realidade emergente. Trata-se, contudo, de uma prática consolidada para muitos enfermeiros, que, ao longo dos anos, têm vindo a desenvolver competências específicas para apoiar, prevenir, vigiar, educar e tomar decisões clínicas no seio da família e da comunidade.

A prestação de cuidados em domicílio constitui um desafio permanente. Ao contrário do contexto hospitalar, onde a tomada de decisão e a implementação de intervenções tendem a ser mais lineares, o contexto domiciliário exige uma adaptação constante à realidade da pessoa, da família e do ambiente envolvente. Fatores como o contexto socioeconómico, as dinâmicas familiares, as condições habitacionais e o bem-estar global da pessoa influenciam diretamente o planeamento e a execução dos cuidados.

Importa, assim, desconstruir a ideia de que o enfermeiro que presta cuidados ao domicílio possui menor competência ou relevância profissional. Pelo contrário, estes profissionais são frequentemente chamados a tomar decisões de forma autónoma, muitas vezes sem apoio médico imediato, o que implica elevados níveis de responsabilidade, capacidade de gestão e organização dos cuidados, distintos daqueles tradicionalmente ensinados no contexto hospitalar.

Neste enquadramento, importa refletir sobre a importância da existência de um enfermeiro de referência para cada família, não limitado a funções administrativas ou a contactos esporádicos, mas verdadeiramente integrado na realidade familiar. Um enfermeiro que acompanhe regularmente a pessoa no seu domicílio, que compreenda o seu contexto de vida, que aconselhe, previna e apoie a gestão da doença crónica, que capacite o cuidador informal, previna riscos e complicações e articule com os recursos sociais disponíveis na comunidade.

Os cuidados domiciliários vão muito além da execução de procedimentos técnicos, como o tratamento de feridas, a colocação de sondas ou da reabilitação motora. Exigem uma visão holística, simultaneamente ampla e pormenorizada, dos determinantes da saúde, competência que se desenvolve através da formação, da prática e da experiência profissional.

Em conclusão, os cuidados de saúde ao domicílio representam, inequivocamente, o futuro da Enfermagem e dos sistemas de saúde. As equipas de cuidados domiciliários são uma resposta necessária e estratégica, sendo fundamental repensar o modelo de cuidados que se pretende implementar, de forma a garantir uma prestação de cuidados eficaz, humana e centrada na pessoa.

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Enfermeira licenciada pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Formada em envelhecimento, funcionalidade e gestão de qualidade. Atualmente a frequentar o Mestrado em Enfermagem de Reabilitação. Apaixonada pela prestação de cuidados ao domicílio, dedica-se a promover a qualidade de vida e o envelhecimento saudável.

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