Do Campo à Comunidade: O Desporto que Faz História em Cantanhede

"O que distingue Cantanhede é que tudo isto não acontece por acaso. Falar de desporto aqui é falar de política pública pensada, consistente e com resultados concretos...

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Falar de desporto em Cantanhede é falar de pessoas, de emoções e de entrega total. Quem conhece o futebol e o associativismo concelhio por dentro sabe que ali não se trata apenas de golos e resultados. Trata-se de vidas inteiras organizadas à volta de treinos, jogos e fins de semana passados entre campos, pavilhões e conversas intermináveis à porta dos balneários.

Foram oito anos na União Desportiva da Tocha, três no Clube Futebol Os Marialvas, um no Ançã Futebol Clube e outro no Sporting Clube Povoense. Cada clube trouxe uma realidade diferente, uma cultura própria, desafios concretos e virtudes únicas. Em cada balneário e em cada jogo aprendi o que significa realmente praticar desporto no concelho: sentir o esforço silencioso de dirigentes e treinadores, reconhecer o voluntariado que nunca falha e viver a paixão que faz com que aldeias e freguesias inteiras se unam à volta de uma bola, de um resultado ou de um pavilhão cheio.

Um dos momentos mais marcantes da minha ligação ao desporto local foi a recuperação do Interfreguesias do Concelho de Cantanhede. O torneio voltou à vida graças a uma equipa extraordinária com quem tive o privilégio de trabalhar. Não surgiu para preencher calendário. Surgiu para recuperar o espírito do desporto informal, para dar um espaço saudável e organizado à prática desportiva e para aproximar freguesias que, apesar de vizinhas, por vezes se afastam. Tornou-se um símbolo de identidade coletiva e de coesão territorial. Participaram dez freguesias e cerca de 150 atletas, e os jogos passaram pelos pavilhões PRODESCO nos Covões, Gimnodesportivo da Tocha e Os Marialvas. Cada jornada significou bancadas cheias, cafés animados, famílias a aplaudir e uma rivalidade saudável que acabava sempre em abraços.

Outro exemplo desta energia do desporto informal é o Praia da Tocha Cup, torneio que desaparecera e que tive o privilégio de recriar com o Zé Miguel. Desde 2022 não parou de crescer e, em 2026, chegará à 5ª edição, afirmando-se como um dos maiores eventos desportivos informais do concelho, com cerca de 200 atletas anuais. O que ali acontece vai muito além dos jogos. Traz pessoas à Praia da Tocha, anima o turismo, enche alojamentos, restaurantes e bares, cria trabalho e reforça um sentimento de pertença que não se compra. Ao mesmo tempo, valoriza infraestruturas locais e dá aos jovens um espaço seguro, saudável e inesquecível para criar memórias.

O que distingue Cantanhede é que tudo isto não acontece por acaso. Falar de desporto aqui é falar de política pública pensada, consistente e com resultados concretos. Enquanto muitos municípios continuam a ver o desporto como um extra, Cantanhede escolheu o caminho inverso. Colocou o desporto no centro da estratégia local. Fez dele uma ferramenta de coesão social, de desenvolvimento dos jovens, de promoção da saúde pública e também de afirmação territorial a nível regional, nacional e internacional.

Os resultados estão à vista. O Parque Desportivo de Cantanhede representa um investimento municipal de cerca de 3,2 milhões de euros e inclui campos, balneários, bancadas, ginásio, sala polivalente e várias áreas de lazer. Em Febres foi instalado um relvado sintético num investimento de 400 mil euros. No Fujanco, nasceram novos balneários num investimento de 120 mil euros. O campo principal do Parque Municipal de Ténis foi requalificado num investimento de 80 mil euros e foram instaladas torres de iluminação nos campos do Parque Desportivo num investimento superior a 422 mil euros. A tudo isto junta-se o campo municipal de golfe, pioneiro a nível nacional enquanto iniciativa pública e que continua a ser cuidado e valorizado.

Entre os clubes que representei, apenas o Sporting Clube Povoense ainda não tem campo próprio, mas conheço os dirigentes do mesmo e sei que será apenas uma questão de tempo. Entre os que não tive oportunidade de representar, vale destacar o Febres Sport Clube, com condições exemplares, e o Grupo Desportivo de Sepins, que viu nascer recentemente uma nova bancada, mesmo num campo que não é público, o próprio clube apostou também nas infraestruturas. 

Cantanhede não é só desporto federado. Também no desporto informal o concelho se tem afirmado, com percursos de manutenção, parques ao ar livre e zonas multiusos que convidam qualquer pessoa a mexer-se, conviver e cuidar da saúde.

Na natação, a Associação de Solidariedade Social Sociedade Columbófila Cantanhedense, onde também pratiquei durante oito anos, forma atletas desde os mais pequenos até níveis federados, criando hábitos saudáveis e disciplina. No ténis, o Clube Escola de Ténis de Cantanhede consolida a modalidade com treinos, torneios e formação contínua. O basquetebol encontra casa no Febres Sport Clube e na Columbófila. O voleibol tem uma referência no Clube de Voleibol da Tocha. A ginástica é dinamizada pela Academia Cantanhede Gym. Modalidades como atletismo, ciclismo, golfe ou artes marciais completam uma oferta desportiva rara para um concelho desta dimensão.

Os números confirmam a dimensão da aposta. Nos últimos três anos, foram investidos mais de 13 milhões de euros no setor desportivo, dos quais 11,5 milhões em infraestruturas. Em 2025, o município apoiou 28 clubes e associações com 120 mil euros, contribuindo para um crescimento de 13,3% de praticantes em apenas um ano e atingindo 2.085 atletas federados. São resultados que poucos concelhos do mesmo tamanho conseguem apresentar.

Cantanhede é também palco de eventos internacionais, como a Taça do Mundo de Ginástica Aeróbica, que trouxe 440 atletas de 13 países. Estes momentos projetam o concelho, enchem hotéis e restaurantes e mostram uma organização capaz de receber competições de alto nível. As mais de 210 mil utilizações anuais dos equipamentos municipais comprovam que o desporto aqui não é propaganda: é prática, é rotina, é vida.

O desporto tem também uma responsabilidade social que não pode ser ignorada. Nos clubes aprende-se a respeitar regras, a lidar com a frustração, a trabalhar em equipa e a valorizar o esforço. Estas competências moldam cidadãos mais conscientes, mais responsáveis e mais preparados para a vida. O desporto combate o isolamento, aproxima gerações, ocupa os jovens em ambientes saudáveis e protege-os de contextos de risco. Promove igualdade de oportunidades, inclusão e mobilidade social, porque dentro de um campo ou de um pavilhão todos começam do mesmo ponto. Lado a lado e com as mesmas hipóteses de vencer. Esta dimensão social, tantas vezes silenciosa, mas sempre presente, faz do desporto uma das ferramentas mais poderosas ao serviço da comunidade. 

No fundo, Cantanhede mostra, com rostos, histórias e números, que o desporto é muito mais do que competição ou lazer. É união, desenvolvimento, identidade e orgulho coletivo. Cada torneio, cada treino, cada euro investido e cada voluntário que oferece o seu tempo são sementes de futuro. Aqui, o desporto não é apenas atividade física. É um legado vivo, construído todos os dias, dentro e fora de campo. E é esse legado que prepara um futuro melhor para todos os que escolhem fazer deste concelho a sua casa.

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21 anos, estudante de Contabilidade e Auditoria no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra.

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