Rui Costa: ganhou o passado, adiou-se o futuro

"O mago dentro de campo ainda não viu a sua magia florir como presidente e encontramos hoje em dia um grupo consciente de adeptos benfiquistas divididos em relação àquele que é o futuro do clube."

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Quase dois meses após as eleições do Benfica terem elegido Rui Costa como o pretendido para um novo mandato de quatro anos, existirá sempre um espaço de reflexão para aquelas que foram as primeiras ilações retiradas do exercício da função pelo mágico dez e quais são os principais fundamentos para os próximos quatro anos que ainda virão.

O mago dentro de campo ainda não viu a sua magia florir como presidente e encontramos hoje em dia um grupo consciente de adeptos benfiquistas divididos em relação àquele que é o futuro do clube. Um clube exímio em história, números e vitórias que está a passar claramente um momento de reconstrução interna e externa em termos de transparência após o longo mandato de Luís Filipe Vieira (LFV), marcado em seu epílogo com escândalos e crimes. Rui Costa quer limpar essa imagem, isso é claro. Não quer ser associado a LFV mesmo tendo feito parte da sua estrutura. É, honestamente, compreensível, aceitável e até requerido.

A situação de Rui Costa e André Villas-Boas é bastante semelhante e diferente ao mesmo tempo. As figuras que substituem são claramente pilares fundamentais do sucesso dos respetivos clubes, seja nacional ou internacional. Os projetos económicos implementados que permitiram com que Portugal estivesse sempre no topo das tabelas em relação à valorização de jogadores, descobertas de talentos e até formação de atletas. O Porto e o Benfica foram, no século XXI, os grandes donos do futebol português. Em 2020, com a chegada de Frederico Varandas, algumas das lacunas estruturais que eram invisíveis até ao momento, foram sendo expostas, aliado aos casos que envolviam LFV e à condição de saúde de Pinto da Costa, o Sporting voltava a ter uma palavra novamente no meio de águias e dragões. Com isso, vimos dois nomes importantes do futebol português, um como treinador e outro como jogador, assumirem o papel mais alto nos dois clubes portugueses mais titulados, agora como presidentes.

As experiências de ambos tiveram também desenhos parecidos. Não é fácil. Clubes com sede de vitória, exigência. Adeptos que não entendem ou aceitam perder. Fãs que não percebem momentos económicos em que o clube vende o jovem com mais potencial ou que faz a compra mais aleatória possível. Folhas salariais. “Cobras” como alguns chamam. Não se muda uma estrutura de um dia para o outro. Podem-se mudar homens, não se mudam hábitos e tradições. Não se muda cultura. Adapta-se. E Rui Costa tem tentado adaptar-se, mas diria que sem sucesso até ao momento.

Num ano em que André Villas-Boas parece acertar todas as suas escolhas (independentemente dos resultados no final da época, este FC Porto é claramente um grupo diferente com objetivos diferentes), Rui Costa parece cair nas mesmas tentações e caminha para mais um ano sem conquistar um título nacional e sem causar impacto fora de Portugal. Voltou a construir um plantel claramente desequilibrado e as decisões tomadas num momento fulcral da história do clube em que muitos até achavam que Noronha Lopes tinha hipótese de vencer as eleições espelham um lado egoísta e questionável por parte do presidente do Benfica em relação ao futuro do clube.

Com uma mesa de assembleia geral sem grande punho, Rui Costa marcou as eleições para 25 de outubro, um momento onde a equipa do Benfica já se encontrava a meio da época 2025/2026, com Bruno Lage no comando e com um plantel construído com base nos requerimentos que o ex-treinador dos Wolves entregou a Rui Pedro Braz, que, ironicamente, também já abandonou a estrutura das águias.

À semelhança do que já tínhamos visto quando as águias iniciaram a temporada com Roger Schmidt, também Bruno Lage começou a nova época para, pouco depois, assistir à mesma decisão por parte de Rui Costa. O presidente optou por quebrar a ligação já com o campeonato em andamento e, numa última manobra para ganhar votos, avançou para a contratação de José Mourinho, que dispensa palavras. Através desta figura icónica, o “maestro” conseguiu mesmo convencer a mancha vermelha a votar em si para um novo mandato e encontra-se hoje à frente do Sport Lisboa e Benfica.

Com isto, olhando para o momento da época em que estamos, observo o mesmo quadro. Caos. Com Mourinho, o Benfica tenta procurar divergir a atenção para o Special One, retirando os olhos da estrutura e do plantel, removendo os comentadores de resultados e protegendo aqueles que sofrem mais com isto tudo, os jogadores e os adeptos.

Chegará janeiro em breve e o Benfica terá de ir novamente e rigorosamente ao mercado para poder “resolver” os erros de construção do plantel, consumados em agosto. Mas com isto já existem jogadores descontentes ou que procuram papéis mais importantes fora da Luz, ou jovens que sentem que o seu talento não é observado e que não irão ter a aposta que tanto querem (falo de Leandro Santos e João Veloso). Enquanto isso, com Lage e Mourinho, já são 8 os pontos a que o Benfica se encontra do Porto, primeiro classificado, e o futebol jogado não parece promover grandes expectativas para uma temporada bem sucedida. A campanha na Liga dos Campeões arrancou com uma inédita derrota com o Qarabag do Azerbaijão (a primeira vitória do clube na competição) e até ao momento não parece que as águias consigam reparar os estragos, mesmo tendo vindo a melhorar nas últimas duas partidas, podendo ficar novamente fora das fases a eliminar enquanto o Sporting caminha para um segundo ano consecutivo a fazê-lo já no novo formato da Champions.

Já com Mário Branco em funções desde outubro, apesar de este mesmo ter sido nomeado como diretor geral (abarcando grande parte das funções do antigo diretor desportivo Rui Pedro Braz, que está atualmente no Al Ahli), cabe agora à estrutura das águias tentar contratar opções que ofereçam um maior equilíbrio ao plantel e também oferecer algumas soluções mais ajustadas à ideia de jogo de Mourinho. 

Apesar de ainda ter capacidade para conquistar uma taça interna, creio que poderá passar por aí o máximo contributo que Mourinho ainda poderá dar esta época. O campeonato, apesar de longo, confirmou que, contra blocos baixos, o Benfica ainda tem imensas dificuldades, e a verdade é que já foram perdidos pontos importantes até à décima quarta jornada. O Sporting e o FC Porto demonstraram mais competência até agora e creio que o campeão da Liga Portuguesa poderá estar entre um destes dois. Mesmo assim, à data, o Benfica continua presente em todas as competições em que participa e bem sabemos que a caminhada é longa.

Continuo a achar determinadamente que o Benfica e Rui Costa ainda precisam de inovar alguns aspetos da sua instituição, como a comunicação e a forma como são envolvidos os adeptos, as decisões tomadas ao nível futebolístico e, inclusive, as pessoas que coloca à frente dos seus departamentos. Ao mesmo tempo que é impossível, para mim, rejeitar ou duvidar das capacidades de José Mourinho, creio que não seja a melhor pessoa neste momento com o qual Rui Costa deve consumar o seu projeto para os próximos quatro anos. Um treinador mais jovem, com uma ideia renovada, diferente, tal como o Sporting e o FC Porto têm à frente dos seus projetos, parece-me ser o melhor caminho institucional e que visa mais aproximadamente o sucesso desportivo e financeiro.

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Vasco Fernandes, de 24 anos, é um apaixonado pela comunicação no futebol. Licenciado em Comunicação Social pelo Instituto Politécnico de Viseu e com uma pós-graduação em Comunicação no Futebol Profissional, Vasco dedicou-se desde cedo às áreas de rádio, jornalismo e comunicação.

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