Idosos não são Crianças: cuidados semelhantes para fins distintos

"Olhamos para um idoso que volta a usar fralda, que precisa de ajuda para comer, para se vestir, ou para tomar banho, e, num segundo, o nosso cérebro faz a associação: “é como uma criança”. Até parece fazer sentido [...]."

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Quando cuidamos de idosos dependentes, há um erro que quase passa despercebido, como que um reflexo automático. Olhamos para um idoso que volta a usar fralda, que precisa de ajuda para comer, para se vestir, ou para tomar banho, e, num segundo, o nosso cérebro faz a associação: “é como uma criança”. Até parece fazer sentido. As tarefas são parecidas, os gestos também e a dependência é visível e comparável. Mas esta comparação é tão errada quanto perigosa.

Reduzir um idoso a uma criança é tirar-lhe parte da sua história, identidade e dignidade. É verdade que no papel as tarefas se parecem. Trocar uma fralda é trocar uma fralda. Dar de comer à boca é dar de comer à boca. Apoiar no banho é apoiar no banho. Mas a vida não se mede em tarefas. Mede-se em significados – e aqui está o fosso gigante que separa uma criança de um idoso.

Cuidar de uma criança é acompanhar alguém que está a crescer. Cada ajuda que lhe damos é um empurrãozinho para a autonomia que ainda há de vir. Trocar uma fralda a um bebé faz parte da curva de desenvolvimento. Alimentar uma criança é investir no seu futuro. O cuidado é uma semente que virá a florescer. Já cuidar de um idoso é outra coisa completamente diferente. É lidar com alguém que já foi autónomo, que já viveu décadas de independência, que já tomou decisões, trabalhou, criou família e enfrentou dificuldades. Cada fralda trocada, cada refeição assistida e cada apoio na marcha não aponta para um futuro de autonomia, mas para a manutenção da dignidade no presente. Não pretende fazer florescer. Pretende amparar. É isto que muitas vezes passa despercebido.

O problema não é a ação; é o que ela significa. Alimentar uma criança é nutrir esperança. Alimentar um idoso é proteger a dignidade. Trocar a fralda de um bebé é rotina de crescimento. Trocar a fralda de um idoso é um gesto de cuidado profundo num corpo que já não acompanha a sua vontade. A ação é a mesma, mas o objetivo é completamente diferente, e esta diferença muda tudo. Porque um idoso dependente não perdeu só capacidades físicas. Perdeu controlo. Perdeu privacidade. Perdeu aquele pedaço de autonomia que muitos consideram essencial para se sentirem adultos. E essa perda fere. Humilha. Por isso, não basta fazer o cuidado certo. É preciso fazer o cuidado consciente. Saber que estamos a tocar numa história longa e não apenas num corpo. Saber que aquela pessoa tem vivências e uma personalidade bem definida e que agora precisa de ajuda para coisas que antes fazia de olhos fechados.

A comunicação é também um reflexo da contradição de quem repete que um idoso é como se fosse um “bebé grande”. Com uma criança, o discurso aponta para o futuro: “quando fores grande…”, “quando conseguires andar sozinho…”. Há caminho pela frente. Há expectativa, crescimento. Com um idoso, fala-se do presente: “está confortável?”, “quer ajuda?”. A conversa muda porque a trajetória muda. Um avança, outro adapta-se. A dependência infantil é temporária. A dependência do idoso é uma perda progressiva que, em muitos casos, se torna definitiva. Tratar estas duas realidades como se fossem iguais é apagar a dimensão emocional.

É por isso que a comparação com crianças faz estragos. Não porque tratamos o idoso com mimo a mais, mas porque retiramos o peso do que estamos a fazer. Um idoso com fralda não é um “bebé grande”. É um adulto a viver o momento mais frágil da sua vida. Se o tratamos como criança, estamos a feri-lo no ponto mais importante: o respeito por ele e pela vida que viveu.

Cuidar de um idoso é tão mais delicado do que parece. Não é só trocar fraldas, dar banho, alimentar ou levantar da cama. É proteger autoestima. É preservar identidade. É garantir que a pessoa não se sente reduzida à doença, à fragilidade do corpo e à sua dependência. É manter de pé aquilo que o corpo já não consegue sustentar. Infantilização não é usar diminutivos ou nomes carinhosos. Infantilizar passa por retirar ao idoso o seu poder de decisão. E isto é violência silenciosa.

Se continuarmos a confundir idosos com crianças, vamos perpetuar uma visão distorcida do envelhecimento. Uma visão que desvaloriza a experiência e reduz o idoso a um estado infantil que não lhe pertence. E o resultado é simples: desrespeito. Não intencional, talvez, mas real. Doloroso. Invisível. Inevitável, quando ninguém nos ensina a diferença.

O envelhecimento não é regressão. É entrar numa fase onde o cuidado muda de direção. Já não prepara para a vida, adapta-se a ela. Já não constrói autonomia, ampara perdas. Assim, exige um olhar diferente, mais consciente, mais atento e mais humano. No fim, os cuidados podem ser iguais, mas o seu objetivo é bem distinto. Uma criança precisa de ser preparada para a vida. Um idoso precisa de ser respeitado pela vida que já viveu. Se nos esquecermos disto, corremos o risco de transformar o cuidado em humilhação.

E sejamos honestos; não é esse o medo que todos carregamos em silêncio? O medo de chegar ao fim da vida e sermos tratados como se nunca a tivéssemos vivido? O medo de que o mundo se esqueça do caminho que percorremos e nos veja apenas como alguém que regrediu?

Cuidar de um idoso é reconhecê-lo como adulto até ao último segundo, porque o corpo fragiliza, mas a identidade não desaparece.

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Enfermeira forense apaixonada pela investigação criminal e criminologia. Escrevo sobre justiça, direitos humanos e proteção dos mais vulneráveis. Acredito na ciência como ferramenta essencial para a verdade e justiça social.

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