A política na Madeira: um caso de estudo 

"Esta corrupção, arraigada no quotidiano dos madeirenses, tornou-se algo banalizado e, em certa medida, ignorado. Não tem impacto significativo nos resultados eleitorais, pois o eleitorado madeirense, em geral, parece ter caído num estado de conformismo e apatia política."

Tempo de leitura: 7 minutos

Com novas eleições marcadas para 23 de março deste ano, a política na Madeira volta a ser um tema de debate. Contudo, as suas dinâmicas políticas não se revelam um caso de estudo complexo. Isso compreende-se pelo facto de que, com quase 50 anos de autonomia, apenas um partido governou a pequena pérola do Atlântico: o PSD-Madeira. 

Após o 25 de Abril, a Madeira era uma das regiões mais pobres e subdesenvolvidas do país. Para os menos familiarizados com o tema, basta referir que uma simples ida à Calheta, que atualmente se faria em pouco mais de uma hora, há 50 anos demorava mais de quatro horas. Com o 25 de Abril e, sobretudo, com a entrada de Portugal na União Europeia (UE), a Madeira beneficiou de fundos como nunca. Foram os chamados tempos das vacas gordas, que impulsionaram uma incessante construção de infraestruturas e, por conseguinte, um endividamento sem precedentes.

A Madeira sofreu uma extraordinária transformação, que encurtou distâncias físicas dentro da ilha, mas que não conseguiu resolver os graves problemas de pobreza que persistem ainda hoje. Aliás, estudos recentes revelam que a região apresenta uma das maiores taxas de pobreza do país.1  Se Portugal, em termos económicos e sociais, está na cauda da Europa, a Madeira ocupa a ponta dessa causa. Porém, estes números parecem ter pouco impacto no eleitorado do PSD-Madeira, que, mesmo enfrentando crescentes dificuldades económicas, valoriza as boas infraestruturas. 

À presente realidade, acrescem os problemas habitacionais que afetam a ilha de forma cada vez mais acentuada. A Madeira ocupa uma posição que deveria suscitar pouca satisfação ao PSD-Madeira. Apenas em 2024, o preço das habitações na região registou um aumento de 12,6%, sem sinais imediatos de diminuição.2 Atualmente, o Funchal é a terceira cidade mais dispendiosa do país para arrendar uma habitação.3 Por outro lado, a aquisição de uma casa também se apresenta como um desafio significativo, com um custo médio aproximado de 500 mil euros4 numa região onde o salário mínimo se situa em torno dos 915 euros.

Este problema agrava-se pelo facto de a região ser, cada vez mais, um ponto de encontro para estrangeiros ricos que adquirem empreendimentos de luxo para passar alguns dias, especialmente durante o verão. Há quem já a compare a um segundo Mónaco e, ao passear pela baixa funchalense, esta realidade torna-se visível e palpável. Estes empreendimentos de luxo estão completamente fora do alcance financeiro dos madeirenses, que muitas vezes enfrentam sérias dificuldades para arrendar uma casa, ou, num delírio, poder comprar uma. No entanto, o governo do PSD-Madeira parece alhear-se deste problema, enquanto o madeirense comum permanece igualmente indiferente, muitas vezes sofrendo diretamente as consequências desta realidade. 

A este paradigma acrescenta-se um turismo desenfreado, que domina esmagadoramente a economia madeirense. Embora a maioria dos madeirenses reconheça a importância do turismo para a economia da região, o problema não reside na sua prática, mas no facto de monopolizar grande parte das políticas do PSD-Madeira. Um exemplo emblemático é a construção de um polémico teleférico no Curral das Freiras, que, para além de comprometer uma paisagem natural de rara beleza, não será destinado ao usufruto do madeirense comum. Além disso, subsistem muitas dúvidas quanto ao real potencial económico que esta infraestrutura poderá trazer, hipoteticamente, à localidade. Neste contexto, percebe-se que a prioridade do governo do PSD-Madeira não parece ser tanto o bem-estar da população, mas antes o aproveitamento turístico dos recursos naturais. 

Nesta análise política, torna-se imprescindível salientar o constante e latente compadrio e amiguismo, elementos profundamente enraizados no PSD-Madeira. Estas práticas culminaram, inclusivamente, na queda do governo no ano transato. Um suposto erro de cálculo nas dinâmicas das redes clientelares expôs publicamente um esquema de corrupção, conduzindo à necessidade de convocação de novas eleições. Contudo, surpreendentemente, este processo resultou numa renovada vitória do PSD-Madeira. 

Esta corrupção, arraigada no quotidiano dos madeirenses, tornou-se algo banalizado e, em certa medida, ignorado. Não tem impacto significativo nos resultados eleitorais, pois o eleitorado madeirense, em geral, parece ter caído num estado de conformismo e apatia política. Este fenómeno contribui para uma elevada abstenção, que beneficia, em última análise, os privilegiados do regime. Isto deve-se ao facto de o tradicional eleitorado laranja, fiel ao sistema vigente, manter uma participação assídua nas eleições. 

Não obstante, em 2019, emergiu uma espécie de “maioria silenciosa” que mantinha a esperança de que o PS pudesse constituir uma alternativa viável. Todavia, a vitória do PSD-Madeira, posteriormente reforçada pelo apoio do CDS, resultou na continuidade do regime e dissipou os anseios de uma transformação política. Este desfecho representou um duro revés para as aspirações dos madeirenses, conduzindo, quatro anos mais tarde, a uma expressiva redução da representatividade socialista nas eleições de 2023 e à previsível perpetuação da hegemonia do PSD-Madeira na condução dos destinos da região. Esta realidade expõe, de forma clara, outro problema estrutural da política madeirense: a incapacidade da oposição em concertar esforços e construir uma alternativa coesa. 

À esquerda, os partidos são frequentemente marcados por conflitos internos, como no caso do PS e do JPP, que projetam uma imagem de fragmentação. A isto somam-se os egos inflacionados, que dificultam a construção de um diálogo necessário para criar uma alternativa política abrangente à esquerda, a qual teria de incluir partidos como o BE, o PAN e a sempre difícil CDU. 

No campo da direita, a situação não é mais animadora, uma vez que não existe qualquer alternativa com representação suficiente para competir com o PSD-Madeira. A IL mantém uma representação tímida e precária, enquanto o CDS, em claro declínio, sobrevive sobretudo graças à sua aliança histórica com o PSD-Madeira. De facto, as sistemáticas coligações entre os dois partidos de centro-direita enfraquecem as barreiras ideológicas que, teoricamente, os deveriam distinguir. 

Por outro lado, o declínio do CDS contrasta com a ascensão dos arautos do saudosismo bafiento e salazarista do CHEGA. Embora o seu crescimento pareça ter estabilizado na região, os gritos estridentes e as críticas severas ao PSD-Madeira escondem uma ambição eleitoral clara: garantir força suficiente para, eventualmente, apoiar e perpetuar o regime laranja. Este objetivo é alcançado mediante um discurso xenófobo e racista, que apela a um eleitorado mais conservador e com baixos níveis de literacia política, encontrado de forma significativa na Madeira. 

Assim, o alheamento do madeirense é evidente: muito reclama, mas, quando chega a hora de votar, não materializa o seu descontentamento. Muitos preferem permanecer no conforto das esplanadas a queixar-se, enquanto os beneficiários do regime continuam a comparecer fielmente às urnas, renovando a sua confiança no PSD-Madeira. Outros, perante a oposição e a pouca confiança que esta transmite, acabam por votar no menor mal, perpetuando a hegemonia da monarquia laranja na Madeira. 

Neste sentido, não será inesperada uma nova vitória eleitoral no próximo dia 23 de março para o PSD-Madeira. Ainda assim, é certo que o desgaste do domínio laranja se torna cada vez mais evidente, e o tempo das maiorias absolutas parece ter acabado. A grande questão que se coloca é: terá a Madeira a inteligência política necessária para romper com o paradigma de inércia em que se encontra mergulhada há décadas? Será que, ao fim de 50 anos de autonomia, a alternância política se tornará uma norma e não apenas uma hipótese remota? Apenas o futuro poderá responder a estas questões.

Referências

  1. Agência Lusa. (2024). Madeira é a região com maior taxa de pobreza em Portugal. Diário de Notícias. Disponível em: https://www.dnoticias.pt/2024/5/15/405459-madeira-e-a-regiao-com-maior-taxa-de-pobreza-em-portugal/ ↩︎
  2. Pacifico, M. (2025). Preço das casas na Madeira subiu 12,6% em 2024. Diário de Notícias. Disponível em: https://www.dnoticias.pt/2025/1/2/432792-preco-das-casas-na-madeira-subiu-126-em-2024/ ↩︎
  3. Cardoso, F. J. (2022). Funchal é a 3.ª cidade do país que mais esforço destina para arrendar casa. Diário de Notícias. Disponível em: https://www.dnoticias.pt/2022/10/31/334290-funchal-e-a-3a-cidade-do-pais-que-mais-esforco-destina-para-arrendar-casa/ ↩︎
  4. Franco, E. (2023). Comprar casa na Madeira custa mais de 500 mil euros, mais 17% face a 2022. Diário de Notícias. Disponível em: https://www.dnoticias.pt/2023/10/26/380651-comprar-casa-na-madeira-custa-mais-de-500-mil-euros-mais-17-face-a-2022/ ↩︎

Partilhe este artigo:

Francisco Duarte Barbosa, natural da Madeira, nasceu a 18 de março de 2004. Está atualmente a terminar a licenciatura em História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Contraponha!

Discordou de algo neste artigo ou deseja acrescentar algo a esta opinião? Leia o nosso Estatuto Editorial e envie-nos o seu artigo de opinião.