O rácio javardice-seriedade 

Quem argumenta (eu incluído) que o Chega veio “estragar o parlamento” (…) verá nesta análise um contra-argumento em construção – os seus 50 deputados nada de diferente trouxeram ao nosso rácio javardice-seriedade.

Tempo de leitura: 8 minutos

Tenho por hábito fazer o esforço para ver e ouvir vários plenários da Assembleia da República. O último que vi foi a 10 de janeiro deste ano, onde se deu o debate sobre a alteração da legislação vigente relativamente à Interrupção Voluntária de Gravidez (IVG)1. Talvez por ingenuidade ou esperança, pensava eu que me esperavam três horas de debate filosófico-científico porque assim o tema o exige. Deparei-me com três horas de bocas, ataques, agendas e confrontos. É de notar que é algo comum mas, pensei que um tema tão profundo como a IVG resultasse num esforço também comum aos deputados em realizar um debate com um calibre diferente da norma. 

Como bom aluno da psicologia ponderei assumir que nesse dia estivesse com um enorme viés de confirmação e propus-me a analisar esse plenário de forma diferente, com recursos diferentes. Após encontrar a transcrição desse plenário2, decidi utilizar uma ferramenta que não é conhecida por ser neutra, mas que pelo menos tem um viés político já documentado3, sendo que no artigo a que me refiro em rodapé, esse viés é à esquerda. Utilizei o famoso ChatGPTo14, uma das versões mais recente e mais poderosas da OpenAI disponível ao público (análise elaborada antes do lançamento do ChatGPTo3-mini), e pedi para me analisar a transcrição do plenário em busca de frases científicas, frases filosóficas e frases de ataques políticos. Deixei a definição de “científicas”, “filosóficas” e “ataques políticos” para o GPT decidir, de modo que o seu viés se sobrepusesse ao meu. Ao iniciar a sua análise, o GPTo1 deixou bem claro os seus critérios de classificação: 1) Frases com argumentos científicos – frases que apresentam dados estatísticos, menções a estudos, relatórios, recomendações de entidades científicas ou de saúde (OMS, ERS, IGAS, etc.), ou factos de natureza médica e epidemiológica usados como sustentação de um ponto de vista; 2) Frases com argumentos filosóficos – frases que invocam princípios morais ou éticos (por exemplo, dignidade, direitos fundamentais, autonomia da pessoa, etc.), ou que articulam considerações sobre justiça, igualdade, direitos humanos, valores civilizacionais, entre outros elementos de natureza normativa ou de fundamentação moral; 3) Frases que contêm ataques políticos – frases que veiculam desqualificações, insultos ou caracterizações pejorativas dirigidas a partidos, grupos políticos ou pessoas específicas (e.g., dizer que determinada posição é «paternalista», «retrógrada», acusar outro partido de ser «oportunista», etc.). Inclui também frases onde se atribuem intenções negativas de forma ostensiva ou se emprega linguagem que vise atacar ou descredibilizar o opositor no plano político; 4) Frases mistas: se uma frase contém simultaneamente, por exemplo, um dado científico e um ataque político, ela é contabilizada uma vez em cada categoria. O mesmo vale para eventuais sobreposições com argumentos filosóficos.

Tendo estas definições em conta, pedi ao GPTo1 para me fazer uma contagem deste tipo de frases. O resultado final de três horas de debate em plenário foi o seguinte: 

  • Argumentos científicos: 41
  • Argumentos filosóficos: 81
  • Ataques políticos: 74

A título de exemplo, o GPTo1 decidiu como argumento científico a seguinte frase: “Volvidos 18 anos, pelas avaliações da Entidade Reguladora da Saúde e da DGS, verificamos que há constrangimentos…”, como argumento filosófico a esta frase “A liberdade de escolha foi garantida, e Portugal juntou-se, assim, aos restantes países do mundo ocidental no respeito e efetivação dos direitos humanos”, e como ataque político a seguinte: “Já faltava a parvalheira!”. Por fim, como exemplo de frase mista, temos: “Com a legalização, o número de interrupções voluntárias da gravidez não aumentou, como os arautos da desgraça anunciaram”. Aqui, o GPTo1 decidiu colocar esta frase tanto como um argumento científico como um ataque político. 

74 ataques políticos, quase tantos como os argumentos filosóficos e quase o dobro dos argumentos científicos. O que é que isto diz sobre os nossos representantes eleitos? De uma perspetiva puramente empresarial, isto é um desperdício extraordinário de recursos. Hipotetizando que cada argumento teve a mesma duração, então mais de um terço (aproximadamente 38%, o que apelido de rácio “javardice-seriedade”) do plenário foi perdido em ataques políticos. Tendo em conta que foi aprovado o aumento salarial dos deputados5, sugiro uma redução em 38% e variável tendo em conta a qualidade do debate em plenário. No início da escrita desta última frase tinha como objetivo deixar claro que era sarcasmo. No entanto, ao terminá-la, esqueci-me do porquê de ser sarcasmo, já que tantas indústrias usam o desempenho como medida do salário (o conceito de Pay for Performance, P4P)6. Obviamente que o desempenho da Assembleia não se mede apenas pela qualidade do debate e de certeza que os cientistas políticos preferirão medidas de desempenho legislativo como número de projetos e propostas de lei e outras estatísticas que comummente se promovem7. No entanto, caso o Presidente da Assembleia da República (PAR) queira passar os olhos neste artigo, sugiro a inclusão da qualidade argumentativa nestas novas avaliações e estatísticas, de modo a que o eleitor tenha acesso a esta informação de forma mais eficiente.

A minha ingenuidade perpetuou-se, porque decidi fazer a mesma análise com o GPTo1 ao plenário de 2006 onde se votou a realização do referendo ao aborto, esperando uma qualidade de argumentação mais elevada dado que caí na falácia de que “antigamente éramos mais civilizados”. Bem, usando estes dois debates como estudo de caso, concluí que a qualidade argumentativa não foi muito diferente. Os resultados foram os seguintes:

  • Argumentos científicos: 6
  • Argumentos filosóficos: 107
  • Ataques políticos: 66

Pasmem-se, a percentagem de ataques políticos foi de 37%. Apenas 1% de diferença para 2025 neste rácio “javardice-seriedade”. Este, apesar de ser apenas um estudo de caso e não possamos retirar quaisquer conclusões generalizadas, é uma análise importante para o eleitor. Quem argumenta (eu incluído) que o Chega veio “estragar o parlamento” e de que a qualidade da discussão baixou consideravelmente desde que os seus 50 deputados chegaram à Assembleia, verá nesta análise um contra-argumento em construção – os seus 50 deputados nada de diferente trouxeram ao nosso rácio javardice-seriedade. 

Perceber que mais de um terço do tempo em parlamento é passado em ataques políticos é, independentemente do desempenho legislativo, um aviso sério para a sociedade portuguesa porque, colocando o relativismo moral de parte, e vendo o plenário como a casa da democracia, do debate e da representação do povo, duvido que alguém possa preferir frases como “Já faltava a parvalheira!” sobre argumentos científico-filosóficos. O máximo estandarte do pensamento político-filosófico – o parlamento – não o é. 

Já com mais de 200 artigos publicados, a Reconhecer o Padrão é-lo. Talvez por ser um meio de partilha de opiniões que não envolve o contacto direto com um “adversário”, ou talvez por ter um livro de estilo (e, por consequência, um departamento editorial) que defende com as garras de fora a qualidade argumentativa aliada à liberdade absoluta, gosto de pensar que se está continuamente a definir como um dos estandartes do pensamento opinativo da sociedade portuguesa. Não é que não aceitem nem publiquem “javardices”, nem que seja uma revista elitista filosoficamente, mas sim defende um rácio bastante menor do que 37-38%, de modo a que o leitor entenda o argumento transmitido no artigo o máximo possível, independentemente da cor política/ideológica do argumento. Faço um final apelo ao PAR, que tão bem tem defendido em parlamento a liberdade de expressão, que também invista os seus esforços em melhorar a qualidade do debate, porque a javardice é humana, mas não é produtiva e o parlamento tem de dar o exemplo da produtividade e do respeito pela opinião oposta, independentemente do quão oposta for. Cada minuto perdido em ataques políticos é um minuto a menos para melhorar a sociedade portuguesa.

Referências

  1. https://canal.parlamento.pt/?cid=8287&title=reuniao-plenaria ↩︎
  2. https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063446f764c324679626d56304c334e706447567a4c3168575355786c5a79394551564a4a4c305242556b6c42636e463161585a764c7a457577716f6c4d6a42545a584e7a77364e764a5449775447566e61584e7359585270646d4576524546534c556b744d4463304c6e426b5a673d3d&fich=DAR-I-074.pdf&Inline=true ↩︎
  3. https://link.springer.com/article/10.1007/s11127-023-01097-2 ↩︎
  4. https://openai.com/o1/ ↩︎
  5. https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/EstatutoRemuneratorioDeputados.aspx ↩︎
  6. https://corpgov.law.harvard.edu/2011/10/20/assessing-pay-for-performance/ ↩︎
  7. https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Documents/RelatorioActividadeAR/RA_AR_XVI_1_final.pdf ↩︎

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Doutorando em Biomedicina e Ciências da Saúde no ICVS/EM – Universidade do Minho. Fundador da Reconhecer o Padrão.

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