Recebi o meu primeiro telemóvel quando tinha seis anos. Resultado do divórcio dos meus pais, que não se queriam mais cruzar nas chamadas que partilhavam comigo. Levou-me o meu pai à loja de eletrónica, onde dei de caras com um Nokia 6111 muitíssimo cor de rosa. Facilmente convencida a entrar no mundo da tecnologia, rapidamente condicionada a interiorizar a necessidade de estar constantemente disponível.
Tudo começou com o meu pai a chatear-se comigo porque não atendi o telefone, ou porque não retornei a chamada, ou porque não fiquei tempo suficiente a falar com ele, vendo que queria ir brincar ou ver um filme na televisão. Com cerca de oito anos, ele começou a deixar de ligar. Consoante a lógica do meu pai, os telemóveis funcionam dos dois lados. Se eu não lhe ligava, era porque não queria falar com ele e, como tal, não valorizava a nossa relação. Essa foi a minha primeira experiência, definitivamente não a última, em sentir-me dececionante na minha capacidade de resposta na sociedade contemporânea.
No segundo ciclo da escola básica, com dez anos, recebi um Blackberry, que era a moda do momento. Foi aí que entrei no mundo das SMS ilimitadas. Nessa mesma altura, iniciei o meu primeiro namorico. No espaço de uma semana, começaram as queixas: não respondia num prazo adequado; não mandava mensagem de “bom dia” e “boa noite” todos os dias; não avisava que ia estar online para fazer videochamada no computador; não respondia a todas as publicações na minha cronologia do Facebook. As queixas foram acumulando, as guerras com a irmã mais velha para que ela me deixasse usar o computador dela foram aumentando, e a minha paciência para socializar virtualmente foi diminuindo.
Se as reclamações dos meus pais e dos namorados da escola não eram suficientemente más, a fase da minha entrada na adolescência alinhou-se perfeitamente com o descobrimento das redes sociais por parte dos meus familiares de meia-idade. Almoços ligeiramente desconfortáveis em família, com as tias sempre a colocar questões do mesmo género: porque é que não aceitei o pedido de amizade delas no Facebook; quem é indivíduo A e quem é indivíduo B que publicaram no meu mural; porque é que apaguei da minha página as fotos em que elas me identificaram – fotos péssimas, claramente capturadas sem eu reparar ou consentir.
À medida que fui crescendo, fui saltando de rede social em rede social, com o nível de exigência da minha prontidão para responder em constante aumento. Pela altura em que entrei na vida adulta, era (e é) esperado que responda, não só às típicas mensagens e chamadas telefónicas, mas às mensagens no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, no Snapchat, no Tiktok e no Telegram. Que responda a tudo e a todos, devida e atempadamente. E para lançar ainda mais lenha à lareira, o mundo do trabalho intensificou a pressão da obrigação de prover disponibilidade e da ansiedade na qualidade de resposta.
Contudo, o que me afeta mais neste mundo infernal de comunicação instantânea são as amizades. O facto de ser considerada uma má amiga se não me encontrar disponível virtualmente, no mínimo dos mínimos, diariamente, é a minha maior frustração. Apesar de ter completa noção do quanto isto é ridículo, é impossível não sentir vergonha em responder a mensagens de amigos uma semana ou até um mês após as receber. Ou pior, sentir tal nível de vergonha de não ter respondido num período aceitável, que nem me dou ao trabalho de responder, porque é provável que a pessoa em questão já nem queira falar comigo.
Sinto uma tristeza enorme em saber que nunca tive, e provavelmente nunca terei, oportunidade de viver num mundo onde não deva tanto do meu tempo a uma vida virtual. Um mundo onde ser uma boa amiga, boa filha e boa trabalhadora não dependa do meu investimento em plataformas online. Um mundo onde a escolha entre passar as minhas horas de liberdade restringida às redes sociais ou a desfrutar das minhas atividades de interesse não impacte negativamente as minhas relações interpessoais.
A verdade é que esta observação não engloba todos, mas engloba muitos. E, na minha opinião, um único já é demais. Acho que é de uma importância extrema, enquanto sociedade, retirarmos de nós e dos outros esse sentimento de direito de que o mundo nos deve respostas instantâneas. Reaprendermos a viver na vida real. Enviar mensagens para fazer planos, ligar quando temos algo realmente importante a dizer. E o resto? O resto pode esperar até ao encontro no café, quando tivermos disponibilidade e, acima de tudo, vontade.