Cérebro: Estado da Arte

"É possível que, afinal, nunca tenhamos sentido com o coração, nem pensado exclusivamente com o cérebro. Talvez sempre o tenhamos feito com o corpo inteiro."

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Afinal, sentimos com o coração, vemos com os olhos e ouvimos com os ouvidos… ou será com o cérebro? Pode parecer uma forma rebuscada de iniciar este artigo, mas quero levar-vos nesta viagem.

Ao longo de vários séculos, o cérebro foi menosprezado pela comunidade científica e até pelos demais seres humanos. O coração era visto como o centro de todas as experiências percecionadas, enquanto os nervos continham “espíritos animais” que nos faziam sentir as emoções e agir em conformidade. Anos mais tarde, através de várias autópsias, estudos e investigações, o cérebro passou a assumir uma posição de maior relevância no meio académico, e o seu estudo deu origem a diversas especialidades: neurociência, neuropsicologia, neurofisiologia, neurologia, neuropatologia, neurocirurgia, neurologia, entre muitas outras “neurocoisas”. À data desta publicação, o cérebro é visto como um dos órgãos principais do ser humano, se não o principal. Dele advém o controlo dos nossos membros, dos nossos órgãos, da fala e linguagem, das nossas emoções, da perceção, do comportamento, e muito mais.

Na minha prática laboratorial, até ao momento, observei inúmeros pacientes com diversas neuropatologias, lesões cerebrais e outras condições neurológicas. Contudo, um caso relevante para explorar esta temática foi o de uma paciente com um quadro de delirium que, contrariamente ao que inicialmente se pensava, não apresentava uma origem psicológica, mas sim biológica. Após uma breve avaliação do seu estado mental, foi sugerida a realização de uma urocultura, cujo resultado foi positivo, confirmando a presença de uma infeção urinária. As toxinas e a resposta inflamatória associadas à infeção desencadearam alterações no funcionamento cerebral, originando um estado confusional agudo. Este caso demonstrou-me a necessidade de considerar fatores orgânicos antes de atribuir alterações cognitivas exclusivamente a causas psicológicas. Assim, introduzo-vos a neurociência da microbiota, um novo campo que explora a interação e interoceção entre o cérebro e vários microbiomas (intestinais, vaginal, dérmico, hemático) que residem no nosso organismo, influenciando processos como a cognição, a emoção, a resposta ao stress e o comportamento.

“O que é isto do microbioma?” – O microbioma corresponde ao conjunto de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueias, que habitam o corpo humano. Longe de constituírem apenas agentes patogénicos, muitos destes microrganismos desempenham funções essenciais para a saúde, participando nos processos digestivos, na regulação do sistema imunitário e na produção de neurotransmissores. Tudo isto contribui para a homeostasia do organismo. Esta área de investigação tem demonstrado que alterações nestes ecossistemas podem estar associadas a perturbações neurológicas e psiquiátricas, reforçando a importância da interação entre o nosso corpo e o nosso cérebro.

“Então, o que nos reserva o futuro? Transplantes cerebrais? Implantes de IA?” – O futuro poderá não passar por transplantes cerebrais ou por implantes com inteligência artificial, pelo menos não num horizonte próximo. Talvez a verdadeira revolução esteja na compreensão de que o cérebro não funciona isoladamente, mas sim numa relação bidirecional e constante com o resto do organismo. Durante décadas, a investigação em neurociência concentrou-se principalmente nos neurónios, nas sinapses e nas diferentes regiões cerebrais. No entanto, cada vez mais estudos demonstram que fenómenos aparentemente distantes do sistema nervoso central, como a alimentação, podem influenciar o pensamento, as emoções e o comportamento. Esta perspetiva levanta questões pertinentes. Será possível, num futuro próximo, prevenir doenças neurodegenerativas através da modulação microbial?

Ainda não existem respostas definitivas. Contudo, aquilo que sabemos à data é suficiente para abandonar de uma vez por todas a visão clássica de que o cérebro é um órgão independente e autossuficiente. Talvez a grande descoberta do século XXI não seja a criação de cérebros artificiais, mas a constatação de que pensar, sentir e existir dependem de uma rede biológica muito mais vasta e complexa do que alguma vez imaginámos.

É possível que, afinal, nunca tenhamos sentido com o coração, nem pensado exclusivamente com o cérebro. Talvez sempre o tenhamos feito com o corpo inteiro.


Referências

SCryan, J. F., & Dinan, T. G. (2012). Mind-altering microorganisms: The impact of the gut microbiota on brain and behaviour. Nature Reviews Neuroscience, 13(10), 701–712. https://doi.org/10.1038/nrn3346
Schoch, S. F., Castro-Mejía, J. L., Krych, L., Leng, B., Kot, W., Kohler, M., Huber, R., Rogler, G., Biedermann, L., Walser, J. C., Nielsen, D. S., & Kurth, S. (2022). From Alpha Diversity to Zzz: Interactions among sleep, the brain, and gut microbiota in the first year of life. Progress in Neurobiology, 209, 102208. https://doi.org/10.1016/j.pneurobio.2021.102208
Hunter, S., Flaten, E., Petersen, C., Gervain, J., Werker, J. F., Trainor, L. J., & Finlay, B. B. (2023). Babies, bugs and brains: How the early microbiome associates with infant brain and behavior development. PLOS ONE, 18(8), Article e0288689. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0288689


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Mestrando em Neuropsicologia Aplicada (dissertação acerca do interplay de métricas de EEG e microbioma intestinal) e Candidato a Psicólogo Júnior. Tem experiência em Neurocirurgia, Neuropediatria e Cuidados Paliativos pediátricos. Trabalhou enquanto bolseiro de investigação em deficiência intelectual pela FCT no HEI-lab.

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