"Se me dissessem, durante toda a vida, que tudo no mundo lá fora é predatório e que eu devo ser protegida, ou que não sei pôr uma mudança no carro, acho que ia ficar bem convencida de que era melhor não me meter nisso."

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Quanto mais dizemos a uma pessoa que ela não é capaz, menos ela o será. Na minha opinião, é este tipo de narrativa que suporta muitos estereótipos associados às mulheres.

Claro que há personalidades que gostam deste tipo de desafio, mas, se durante toda a vida ouvirmos que não somos capazes de fazer alguma coisa, não será essa coisa mais difícil de atingir? Eu acho que sim, porque há todo um fosso mental que temos de atravessar primeiro antes de sequer chegar perto do que queremos.

Em algumas culturas, as mulheres vivem convencidas de que não são capazes de trabalhar para se sustentar, de que devem procurar o casamento antes do desenvolvimento pessoal; noutras culturas, ainda mais extremistas, a mulher tem de ser “protegida” e ficar em casa, sendo que esta proteção não é nada mais do que controlo.

Se me dissessem, durante toda a vida, que tudo no mundo lá fora é predatório e que eu devo ser protegida, ou que não sei pôr uma mudança no carro (tal é o estereótipo da condução associado à mulher), acho que ia ficar bem convencida de que era melhor não me meter nisso.

Claro que há zonas neutras, por exemplo, a maternidade. Para isso, temos as licenças de maternidade; nalguns países, melhores, noutros, piores, mas que ajudam a manter a independência e a capacidade de lidar com o mundo.

Com isto, o facto de não haver liberdade de movimento, porque nos sentimos, logo à partida, incapazes, leva a uma infantilização da mulher: não é bem adulta, precisa de ajuda para muita coisa… Exceto para a maternidade, essa é inata.

Com as redes sociais e o boom das tradwives1 no TikTok, que se vangloriam por não precisarem de sair de casa, esquecemo-nos de uma coisa: sem independência, quão vulneráveis estarão? Porque muitas mulheres podem sempre voltar para casa dos pais, outras não. Seja por razões financeiras, seja por razões culturais. Há quem defenda a ideia na internet, mas, no fundo, nessas relações, a mulher é o real “ganha-pão” do casal, graças aos conteúdos que produz para as redes sociais.

Não estou a dizer que não devamos amar alguém ou fazer pausas na carreira. Às vezes, pode ser o segredo para uma vida feliz. Apenas friso que infantilizarmo-nos ao ponto de oferecermos a nossa independência é um tiro no escuro que pode sair pela culatra.

Lutar pela liberdade pode ser cansativo e até assustador. Mas este medo limita; a independência exige esforço contínuo.

Felizmente, sermos adultas capazes tem mais sabores do que dissabores.


  1. Termo reduzido de traditional wife (mulher tradicional). Tradwife é uma subcultura do online de mulheres que apoiam os papéis tradicionais de marido e mulher, priorizando o cuidado com a casa, o casamento e criar filhos em detrimento das suas carreiras. ↩︎

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25 anos, licenciada em Fisioterapia pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, actualmente exerce no contexto desportivo, acompanhando a equipa de Seniores B/juniores do Sporting Clube de Portugal e no contexto de clínica.

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