“Como podemos evitar ser afetados pela pressa de ler? Será o ato de ler devagar um gesto de rebeldia?”

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Há algum tempo que queria escrever um texto sobre este tema, embora me estivessem a faltar as palavras certas. Foi necessário visitar a Feira do Livro de Lisboa de 2026 duas vezes para sentir algo a consolidar-se dentro de mim. Tenho pensado muito sobre a forma como temos tratado os livros nos últimos anos. O avanço das redes sociais deixa-nos com a sensação de que os nossos afazeres se devem cumprir num curto período de tempo para corresponder à velocidade vertiginosa em que tem acontecido tudo à nossa volta. Os hobbies transformam-se cada vez mais em trabalho; o mercado laboral está cada vez mais saturado; e os detalhes que deveriam ser considerados belos são cada vez mais ignorados. No meio disto tudo, onde entram os livros? Como podemos evitar ser afetados pela pressa de ler? Será o ato de ler devagar um gesto de rebeldia? Diria que sim, acrescentando que o descanso é outro ato de rebeldia que deveríamos incluir mais na nossa rotina. Desligar os ecrãs, pisar a relva, apanhar ar, estar com os amigos e mergulhar em infinitas páginas que fazem muito mais além de nos entreter.

Ler é uma prática que nos ensina a ter empatia pelo próximo, expande o nosso conhecimento em relação a assuntos que, noutras circunstâncias, não nos passariam pela cabeça e, ainda, nos auxilia a argumentar melhor. Como tal, é uma atividade que demanda muita paciência da nossa parte, o que implica viver num ritmo mais calmo e desacelerado. Sei que a celeridade dos tempos atuais nos empurra para um estilo de vida um tanto desenfreado; porém, pensar com profundidade é o que nos permite construir universos interiores, compreendendo os que habitam na existência do outro.

Há dias em que me apanho com pressa de ler o máximo que consigo para corresponder ao ritmo da vida lá fora, numa corrida que conheço tão bem, mas que, na verdade, só me prejudica. Quando ganho consciência desse aperto, faço por recuar, questionando as verdadeiras razões de ter pressa para ler. Será que tenho medo de ficar para trás? Haverá em mim um receio de não me enquadrar nos inúmeros nichos literários que existem, perdendo-me numa linguagem que poderei não compreender bem? Fará sentido querer encaixotar-me num determinado grupo, quando a leitura é uma prática individual que, a cada página, se torna numa experiência coletiva?

Na Feira do Livro de Lisboa, vi mais pessoas do que esperava. Sei que a amostra de visitantes em nada se enquadra com o número necessário para efetuar um estudo qualitativo; no entanto, questiono-me a quem é que muitos estudiosos se referem quando dizem que há poucos leitores em Portugal. No que é que se baseiam, afinal? Nos lucros das editoras? Das grandes superfícies comerciais? Das lojas online? Com quem é que realmente conversam? Há muitas outras formas de ler: temos os jornais, os artigos científicos, os livros em segunda mão, as revistas online, as bibliotecas, os audiolivros e, por muito que queiramos desviar os olhos deste assunto, a pirataria, responsável, a bem ou a mal, por formar imensos leitores que, por falta de condições financeiras ou equipamentos locais1, se viram para os métodos ilícitos. Há muito de errado na pirataria literária; contudo, não diria que seja o problema: é, antes, um sintoma de que, infelizmente, os livros não chegam a toda a gente na forma “oficial” de fazer a coisa.

Apesar de muitas pessoas frequentarem eventos tais como feiras do livro, apresentações de autores etc., há também imensa gente sem meios para viver esta experiência que, certamente, aquece algo dentro de nós. Todavia, existe outra questão associada a estes grandes eventos: o consumo desenfreado. O que é que faz de nós leitores? O número de livros que temos ou que lemos? Ou ambos? Será alguém que tem uma vasta panóplia de livros numa biblioteca pessoal melhor leitor do que quem tem de usufruir das bibliotecas municipais (o que não determina necessariamente a classe social da pessoa envolvida)? Que graus de privilégio é que estão subentendidos no ato de adquirir centenas de livros numa feira, livraria ou loja online, mesmo que não seja para os ler? Que problemas sociais se destacam quando falamos da ausência de leitores, de hábitos de leitura e de consumo literário? Também há no universo de leitores aqueles que exibem uma personalidade que não têm, almejando transmitir uma imagem de superioridade e, muitas vezes, de intelectualidade. É aquilo a que chamamos performance, um mal da sociedade de consumo (Baudrillard, 1970)2 tão atual e palpável. Será, no entanto, esta performance uma maneira de subversão a uma barreira social, a um estereótipo, uma tentativa de mudar a relação que a pessoa tem com os livros? Numa lógica de fake it until you make it3?

Por outro lado, quem está de fora também é impactado por aquilo que observa na forma de consumo dos outros. Voltando ao que dizia acima, quando temos tantas pessoas à nossa volta a ler como se fosse uma competição, sentimos que há algo de errado na calma com que tratamos a leitura. Seja por lermos um livro por mês ou comprarmos livros a cada três meses ou frequentarmos a biblioteca. A relação que estabelecemos com os nossos hábitos de leitura varia, e muito, conforme a urgência que nos é incutida via redes sociais, amizades próximas, exigências sociais. O que deveria ser um escape, uma forma de aprendizagem lenta, tem vindo a ganhar proporções muito preocupantes, sobretudo por afetar o mercado literário, os tipos de livros que são publicados, a falta de diversidade no que toca a géneros, temas, autores etc., para não mencionar as induções em erro que muitas das capas têm vindo a cometer.

Falar sobre livros é também legitimar uma luta social sobre acesso, opiniões, conhecimento (fidedigno ou manipulável) e mobilidade social. Falar sobre livros vai muito além do lucro que as editoras e livrarias obtêm, embora precisem desse dinheiro para continuar a existir (apesar de haver apoios financeiros que poderiam perfeitamente auxiliar nesta questão). Falar sobre livros é reconhecer que existem muitos privilégios que não chegam a todos e que devemos lutar para mudar isso.


  1. Entende-se por “equipamentos locais” todos os espaços físicos onde é possível ter contacto com os livros gratuitamente: bibliotecas, escolas, associações, coletivos, cooperativas etc. ↩︎
  2. Baudrillard, J. (1970). A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70. ↩︎
  3. Em tradução livre: finge até conseguires. ↩︎

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Mestranda em Estudos Urbanos, artista multidisciplinar, podcaster e sonhadora. Uma “calma nervosa” que não cessa na criação de projetos. Apreciadora de plantas, livros e velas, escreve para organizar as ideias, pinta para expressar emoções e partilha o que lhe vai na cabeça em conteúdos escritos e audiovisuais desde 2015.

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